Escrever ainda é humano? Como explosão de textos gerados por IA pode 'padronizar’ a linguagem
Um texto gerado por inteligência artificial é gramaticalmente correto, costuma ter alguma clareza e, bem ou mal, é eficiente. Também economiza tempo e esforço do humano que está por trás. Com poucas palavras (que podem ser enviadas até por áudio), é possível gerar um e-mail educado, uma publicação “viralizável” no LinkedIn, uma apresentação no trabalho ou uma declaração de amor.
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Não há tarefa textual que uma IA não aceite executar. Juntar palavras com base em probabilidade e fazer o resultado soar humano e coerente, afinal, é o que esses sistemas foram projetados para fazer. Isso inclui revisar, editar, sugerir, pesquisar ou criar do zero. O resultado é que cada vez mais textos que circulam no mundo, seja nas redes sociais, em publicações científicas ou em e-books na Amazon, têm uma certa “voz” da IA.
Initial plugin text
Quanto menor a intervenção humana, mais evidente a origem. Alguns formatos argumentativos já são tão comuns quanto cansativos. Há também expressões que não saem da boca dos robôs: uma mudança “silenciosa", um processo “invisível" e um problema sempre "oculto”. Isso sem falar na insistência por alguns recursos estilísticos — o querido travessão levou a má fama, mas não é só ele.
Quer um exemplo? A frase logo abaixo desse título (no jargão do jornalismo, a linha fina). Essa é uma tentativa humana de demonstrar o "puro suco" de IA: "Não é apenas sobre usar inteligência artificial para escrever. É sobre de que forma isso muda a maneira como todo mundo se expressa — mesmo sem perceber. E com consequências silenciosas". Se o resultado soa familiar, não é um acaso.
O padrão ‘IA’ de escrever
Em março, uma publicação da Nature com algumas pesquisas científicas sobre o tema sugeriu que estaríamos diante de uma “padronização” ou "pasteurização da escrita humana, que influencia também quem não usa IA. A lógica é a de que a repetição torna determinadas expressões e padrões socialmente aceitos e comuns. A tendência das pessoas, então, seria reproduzi-los.
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Um dos estudos citados mapeou palavras que a IA mais repete ao revisar textos em inglês. Depois, as rastreou em mais de 360 mil vídeos e 771 mil podcasts, e comparou a incidência delas antes e depois de 2022 (ou seja, pré e pós-ChatGPT). O resultado é que mais pessoas têm adotado termos que são parte do “dicionário anglófono da IA", mas que antes não eram tão comuns.
Na língua inglesa, um dos casos mais conhecidos é o da palavra “delve" ("mergulhar", em português). Em artigos científicos na área médica, a presença da expressão que é uma das preferidas do ChatGPT aumentou 1.500% entre 2022 e 2024.
Da perda de confiança ao cansaço mental: usar IA demais faz mal?
Professora de sociolinguística da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Raquel Freitag lembra que a IA costuma reproduzir fórmulas que aprendeu com humanos. Esse é o caso da argumentação por inclusão (não é apenas X, é também Y) e por contraste (não é X, é Y). É por isso que o Linkedin às vezes parece um “grande pacote de redações de vestibulandos", brinca ela.
— Para quem é proficiente na escrita e na leitura, a IA pode ampliar capacidades. O grande gargalo é de quem não é fluente. A pessoa fica estagnada quando não tem a ferramenta— avalia Freitag, que avalia que há uma tendência de “pasteurização”, mas de forma desigual.
De quem é esse texto?
Além da forma mais direta de copiar e colar um texto completamente gerado por uma IA, a produção com essas ferramentas assume formatos variados. Há o texto que é feito pela inteligência artificial a partir de alguns comandos e depois editado e adaptado pelo usuário, e também o contrário — o rascunho humano que é lapidado pela IA.
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Divulgação
Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e pesquisador do NIC.br., ressalta que ferramentas cada vez mais personalizáveis, capazes de imitar o estilo de escrita de cada usuário, tendem a dificultar a separação do que é um texto escrito com inteligência artificial ou não. Para ele, esse é um dos motivos pelos quais ferramentas de detecção de IA tendem a se tornar obsoletas:
— Esse é um barco que já partiu. A gente vai ter que aceitar que não vai conseguir afirmar com segurança se um texto é de IA ou não. Com a personalização, isso só vai ficar mais difícil. Acho que a questão maior é discutir a autoria, o que é o ato de escrever — sugere o pesquisador.
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Na semana passada, um caso no Reino Unido expôs esse impasse. Depois de levantar a suspeita de leitores pelas metáforas estranhas e frases que se repetiam, o romance de terror “Shy Girl” foi avaliado em detectores que apontaram que 78% da obra tinha sido gerada por IA. A editora retirou o livro de circulação enquanto a autora negou o uso de ferramentas e alegou que eventuais intervenções com IA poderiam ter sido feitas por um editor.
Escrever é humano
Em “Escrever é humano: Como dar vida à sua escrita em tempo de robôs” (Companhia das Letras), o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues define a produção das máquinas como uma antiliteratura, o oposto da arte feita com palavras. Mesmo que a inteligência artificial seja capaz de produzir resumos, legendas, relatórios, manuais, sinopses ou dissertações.
— A IA não escreve. Ela copia e matraqueia uma pasta de linguagem. Isso é escrever? Não, é produzir um texto. Escrever é se expressar, descobrir coisas, interagir no mundo, assumir responsabilidade por uma ideia, divulgar essa ideia, ter uma intenção — diz ele.
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Desde que lançou o livro, o escritor mantém a avaliação de que máquinas não produzem arte, mesmo que romances feitos com robôs enganem leitores menos exigentes e que IAs estejam mais eficientes em imitar humanos. Fora da literatura, em contextos utilitários, ele vê uma batalha perdida:
— É uma vitória da IA que me parece incontestável e inevitável. Cada vez mais gente terceiriza. O que não era possível ver àquela altura (em que o livro foi escrito) é o quanto isso vai provocar uma atrofia na nossa espécie, com as atividades cognitivas que até hoje eram humanas sendo feitas pela inteligência artificial.
Em um artigo recente no The New York Times, o professor de ciência da computação na Georgetown University, Cal Newport, chama o momento atual de uma “crise cognitiva”, que começou com interrupções constantes de e-mails e mensagens, degringolou com as redes sociais e agora se aprofunda com a IA. O resultado é que cada vez menos conseguimos pensar com profundidade e manter a concentração em algo.
Contra isso, uma das propostas dele é: escreva. Produzir um texto claro equivale a um treino mental, diz Newport, não a um problema a ser eliminado.
