Escondido sob manuscrito medieval, mapa do céu de 2 mil anos atribuído a Hiparco é revelado por cientistas; vídeo
Cientistas estão reconstruindo o que pode ser o mapa mais antigo conhecido do céu noturno, produzido há cerca de dois mil anos e atribuído ao astrônomo grego Hiparco. Considerado perdido durante séculos, o registro estava oculto sob um manuscrito medieval e começou a ser revelado por meio de técnicas de análise com raios X.
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O trabalho é conduzido por especialistas do Laboratório Nacional de Aceleradores SLAC, na Califórnia. Usando equipamentos capazes de identificar diferentes substâncias químicas presentes no pergaminho, os pesquisadores conseguem separar o texto original do material que foi escrito posteriormente sobre ele.
Confira:
Manuscrito medieval escondia texto astronômico
O mapa estaria escondido no chamado Codex Climaci Rescriptus, um manuscrito medieval que teria sido originalmente recuperado do Mosteiro de Santa Catarina, no Egito. Na Idade Média, pergaminhos eram frequentemente reutilizados: a tinta antiga era raspada para que o material pudesse receber um novo texto.
Segundo os pesquisadores, o documento analisado contém vestígios de duas tintas diferentes. Enquanto o texto mais recente apresenta tinta rica em ferro, o original possui traços de cálcio. Essa diferença química permite que o equipamento de raios X identifique e reconstrua as camadas apagadas sem danificar o material.
A análise começou a ganhar força em 2022, quando o estudo de um texto monástico do século VI sugeriu que o manuscrito poderia conter informações de um antigo catálogo estelar. Desde então, novas digitalizações vêm revelando fragmentos do documento original.
“Nosso objetivo é recuperar o máximo possível dessas coordenadas”, afirmou Victor Gysembergh, principal pesquisador do projeto, em entrevista à emissora KQED. Segundo ele, as posições das estrelas registradas no texto mostram uma precisão considerada surpreendente para observações feitas apenas a olho nu.
Coordenadas surpreendentemente precisas
Entre os trechos já identificados, os cientistas encontraram a palavra correspondente a “Aquário” e descrições de estrelas brilhantes dentro da constelação. A equipe relata que, à medida que as imagens são analisadas, linhas completas do texto astronômico em grego antigo começam a surgir.
Até agora, 11 páginas estão sendo examinadas no laboratório do SLAC. O manuscrito completo possui cerca de 200 páginas, mas muitas delas estão espalhadas por diferentes coleções ao redor do mundo, o que torna o trabalho de reconstrução mais complexo.
Os pesquisadores acreditam que o documento pode conter observações de quase todas as estrelas visíveis no céu na época. O material também pode ajudar a responder uma questão histórica importante: como astrônomos da Antiguidade alcançaram resultados tão precisos sem instrumentos ópticos modernos.
Quem foi Hiparco
Hiparco, que viveu aproximadamente entre 190 e 120 a.C., é considerado um dos maiores astrônomos da Antiguidade e frequentemente citado como um dos pais da astronomia científica. Ele produziu um dos primeiros catálogos sistemáticos de estrelas, registrando a posição de centenas delas no céu.
O estudioso também identificou a chamada oscilação da Terra, fenômeno hoje conhecido como precessão dos equinócios, e desenvolveu uma das primeiras tabelas trigonométricas utilizadas para cálculos astronômicos.
Pouco se sabe sobre sua vida pessoal. Hiparco teria nascido em Niceia, na região da Bitínia, na Ásia Menor, atual Turquia, e morrido na ilha de Rodes. Quase todos os seus escritos se perderam ao longo do tempo, restando apenas referências indiretas feitas por outros autores da Antiguidade.
Para preservar o manuscrito durante a análise, as páginas foram colocadas em molduras feitas sob medida e transportadas manualmente em estojos com controle de umidade. A iluminação no laboratório também é cuidadosamente regulada para evitar danos à tinta.
Segundo Gysembergh, a possibilidade de reconstruir o mapa celeste original representa um marco para a história da ciência. “Linha por linha, o texto grego antigo está emergindo novamente”, afirmou. “A oportunidade de recuperar o primeiro mapa do céu noturno é uma conquista extraordinária.”
