Uma experiência inovadora desenvolvida nas escolas públicas municipais de Bragança, no nordeste do Pará, ganhará projeção internacional. O trabalho realizado pelo Instituto Escolas Criativas (IEC) foi selecionado para apresentação na renomada Paulo Freire Conference, na Columbia University, em Nova York, nos dias 18 e 19 de setembro.
O IEC apresentará dois posters sobre suas ações na conferência. Um deles é “O encontro entre a Aprendizagem Criativa e o currículo freiriano: sujeito, territorialidade e prática”. Este relato demonstra como a rede pública de Bragança aproxima princípios da pedagogia de Paulo Freire da Aprendizagem Criativa.
A iniciativa coloca no centro do processo educacional o território, a cultura e os conhecimentos das próprias comunidades. Um exemplo pedagógico utilizado no projeto é a produção do beiju feito com mandioca, uma iguaria tradicional de origem indígena.
O Projeto Beiju e a conexão com a comunidade
O Projeto Beiju foi desenvolvido a partir da observação de baixa frequência de estudantes envolvidos, junto às suas famílias, na produção de beiju. A experiência não tratou essa realidade como um problema de ausência escolar, mas buscou aproximar a escola dos espaços comunitários de produção.
Verônica Gomes dos Santos, diretora de Implementação e Parcerias com Redes de Ensino do IEC, explica a motivação. "O Projeto Biju foi criado com o propósito de resgatar esse arcabouço cultural e histórico, embarcar os estudantes nesse contexto e mostrar que existe muito aprendizado", afirma.
A produção do beiju havia diminuído com o tempo. A comunidade de Tamatateua expressou o desejo de reavivar o processo e trazer essa cultura e história aos jovens e crianças, que dão identidade ao local.
Ampliando o saber na Amazônia Bragantina
Além de Verônica, as autoras Elaine Silva Rocha Sobreira e Ana Beatriz De Sanctis Bretos contribuíram. A partir do tema gerador “Amazônia Bragantina”, conhecimentos presentes na comunidade passaram a integrar uma proposta interdisciplinar de aprendizagem.
A produção do beiju, os saberes transmitidos entre gerações e a relação das famílias com o território tornaram-se pontos de partida para o trabalho pedagógico. Essa parceria entre o IEC e as escolas municipais ocorre desde 2022.
A experiência envolve a rede municipal de Bragança, com 130 escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA). A iniciativa alcança mais de 16.465 estudantes, além de professores e gestores.
Reconhecimento internacional e o legado de Paulo Freire
A experiência materializa um dos princípios de Paulo Freire: a educação não se separa da realidade de quem aprende. A apresentação em Nova York acontecerá sob o tema “Freire no mundo: das práticas educativas à transformação de sistemas educacionais”.
O encontro reúne pesquisadores e educadores para discutir a presença das ideias de Freire em experiências educacionais contemporâneas. Para o Instituto Escolas Criativas, o caso de Bragança demonstra que a inovação educacional não exige a importação de modelos externos.
A inovação também não precisa significar o abandono dos conhecimentos existentes nos territórios. A experiência parte da realidade local para construir novas práticas de aprendizagem.
Ana Beatriz De Sanctis Bretos, cofundadora do IEC, reforça a importância. "É uma experiência brasileira, construída em diferentes territórios, que agora entra em diálogo com uma discussão internacional sobre o legado de Paulo Freire", afirma.
Ela complementa que a transformação da educação pública acontece quando se constroem, junto com as redes, condições para que professores, gestores e estudantes sejam autores das mudanças.
O Liberal