Escola do Grupo Especial, Grande Rio explora potência do mangue em Caxias e em Recife
Fábio Araújo Leal ganha a vida com o corpo enfiado na lama desde os 18 anos. Hoje, aos 43, trabalha como supervisor na equipe responsável pela conservação do manguezal de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A região, que ganhou fama por abrigar o maior aterro sanitário da América Latina — fechado em 2012 —, é atualmente palco de trabalho incansável de recuperação ecológica no qual o mangue tem papel fundamental. O cultivo dessa vegetação típica das margens de praias, rios e lagoas, que exibe rica biodiversidade e presta enorme contribuição ao meio ambiente, também inspira a cultura: dá o tom do carnaval da Acadêmicos do Grande Rio para o desfile de 2026 na Sapucaí. “Nação do mangue”, enredo da escola caxiense, celebra o manguebeat, movimento musical nascido em Pernambuco que, por sua vez, carrega no nome a origem de suas batidas.
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— O mangue é uma escola, né? Cuidar do meio ambiente é uma coisa extraordinária. A gente vê o resultado lá na frente do nosso trabalho, quando pega uma área degradada que vira isso aqui (o mangue limpo e conservado). Antigamente era tudo lixo — diz Fábio, sem esconder o orgulho quando lembra ainda que o manguezal de Jardim Gramacho serviu de cenário para a gravação do clipe de divulgação do enredo da Grande Rio: — Eu fico feliz de ter a escola de samba, que é famosa, divulgando nosso trabalho. Quando eles chegaram aqui ficaram impressionados.
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Da lama ao caos criativo
O percurso da lama ao caos criativo, no Nordeste brasileiro e na Baixada Fluminense, vai ser traduzido no Sambódromo por Antônio Gonzaga, carnavalesco da Grande Rio.
— Trazemos a ideia de que, da margem dos grandes manguezais e das grandes periferias do Brasil, é possível enxergar a potência para transformar a sociedade. Traçamos esse paralelo entre movimentos culturais do Recife, como o Manguebeat, e o próprio samba, as escolas de samba, mais as culturas de hip hop e funk aqui da Baixada — revela o carnavalesco.
Além da troca cultural entre Caxias e Recife, os mangues das duas cidades também estarão na Avenida:
Vista aérea do mangue de Duque de Caxias, que está sendo recuperado
Márcia Foletto/Agência O Globo
— O mangue, como ecossistema, é essencial. Preservação ambiental é um tópico sensível e importante para debater. Esse não é o foco do desfile, mas está presente porque, quando falamos sobre mangue, temos essa ideia de que é um lugar sujo, e perigoso, impróprio para uso, para viver. Mas trazemos justamente a visão oposta. É desse habitat fértil que traçamos esse paralelo (entre as cidades) — afirma Antônio Gonzaga.
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De acordo com a Secretaria estadual do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS), a área de mangue do Rio de Janeiro está distribuída por 20 municípios e equivale a cerca de 20 mil campos de futebol. Em Caxias, os rios Capivari, Iguaçu, Pavuna, Saracuruna e Sarapuí deságuam na Baía de Guanabara, proporcionando a troca de água doce e salgada e alagando o solo onde vivem flora e fauna variadas. Nessa lama se abrigam, à sombra da vegetação, caranguejos, camarões e siris. A área de Jardim Gramacho à qual o supervisor Fábio Leal e sua equipe se dedicam corresponde a 110 campos de futebol.
Segundo o biólogo Mário Moscatelli, que defende há décadas a bandeira da importância dos manguezais, foram restaurados 75 de 130 hectares degradados pelo aterro desativado, que ficava às margens da Baía de Guanabara. O especialista coordena a recuperação do manguezal local desde 1997: tanto ele quanto Leal e os demais funcionários são contratados pela Eco Mundi, empresa privada com concessão da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio (Comlurb) para atuar na recuperação da área que abrigava o lixão. O local tem tutela da Comlurb, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Duque de Caxias. Hoje, onde havia montanhas de lixo, há estações de tratamento de chorume e de captação dos gases emitidos do solo poluído. Nas encostas, repletas de mangue, viceja o trabalho feito por Fábio e seus colegas.
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O mangue é o ecossistema que mais tira da atmosfera o dióxido de carbono (CO2), um dos principais causadores do aquecimento global. É, também, peça fundamental para o sustento de milhares de pessoas. Em 2024, 15,4 mil fluminenses tinham Registro Geral de Pesca (RPG) ativo. Esses profissionais têm atuado ativamente na limpeza e conservação das águas que banham os manguezais do Rio, sobretudo na Baía de Guanabara. Comandado pela Federação dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro (Feperj), o Projeto Águas da Guanabara limpa mangues e as águas da baía com a participação de 170 pescadores e catadores de caranguejo artesanais dos municípios de Magé, São Gonçalo e Itaboraí. Eles recebem um salário mínimo mensal: desde 2021, ano do início da ação, mais de 2 mil toneladas de resíduos foram removidas.
À espera da recuperação
Quem vive na (e da) Baía de Sepetiba — que banha a Zona Oeste do Rio, além dos municípios de Itaguaí e Mangaratiba —, sente falta de iniciativas de limpeza e preservação. A poluição, proporcionada por despejo irregular de resíduos químicos industriais a lixo sólido, criou um cenário de praias assoreadas e manguezais secos nas proximidades da Praia de Ponta Grossa, em Pedra de Guaratiba. A região é parte da Área de Proteção Ambiental da Brisa, sob tutela da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima.
O manguezal da Reserva Biológica de Guaratiba, na Baía de Sepetiba. Parte dele está seco
Gabriel de Paiva/Agência O Globo
— Nós temos uma baía totalmente assoreada, rodeada por empresas. Nossos manguezais, mesmo ainda filtrando, você vê que estão se deteriorando. Não temos um projeto igual ao da Baía de Guanabara — lamenta Anderson Luiz, de 51 anos, liderança dos pescadores artesanais de Pedra de Guaratiba que mobiliza seus colegas de profissão na batalha pela limpeza da área.
“A impressão que eu tinha era que os habitantes dos mangues — homens e caranguejos nascidos à beira do rio — à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama”. A frase do geógrafo Josué de Castro sobre manguezais e suas mazelas, descrita no livro “Homens e caranguejos”, de 1967, deu um norte aos músicos do manguebeat. O autor, que cresceu nas margens do Rio Capibaribe, foi um defensor pioneiro da ideia de que da margem dos grandes manguezais é possível enxergar a potência para transformar a sociedade, como disse o carnavalesco Antônio Gonzaga. Agora, manguezais e ideias do Recife e de Caxias têm encontro marcado na Sapucaí.
*Estagiária sob a supervisão de Giampaolo Morgado Braga
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