'Escola de samba é nação, é cor de bandeira, é proteção social, é comunidade'
Por Roberto Medronho é reitor da UFRJ, membro da Academia Nacional de Medicina e compositor bissexto
"O carnaval chegou ao Brasil como uma festa cristã europeia, que antecedia a Quaresma. E aqui passou por uma antropofagização, no sentido cultural proposto por Oswald de Andrade. Seu rito foi digerido e ressignificado. O entrudo, trazido pelos portugueses por volta do século XVII, rapidamente se misturou à musicalidade e aos batuques dos povos africanos escravizados.
Como nos lembra Luiz Antonio Simas: “Não foi o Brasil que inventou o carnaval, mas o carnaval que inventou o Brasil”. Sim, pois nossa nação foi concebida como um projeto de exclusão, em que saberes não brancos foram apagados, quatro séculos de escravidão foram naturalizados e produziram-se desigualdades abissais.
Com a africanização do entrudo, a festa vai se deslocando da elite para a população, virando uma festa popular, de rua e se tornando um espaço de sociabilidade, de memória, de pertencimento e de disputa. Houve um carnaval elitista, de salão, e um carnaval de rua — de cordões, blocos, ranchos — que afirmava a presença e construía redes.
Assim, em uma sociedade construída na exclusão, o carnaval vira território de afirmação dos que foram historicamente relegados à margem — um “Brasil possível” que se organiza na festa. E, desse caldeirão, emergiram as escolas de samba, consolidando uma estética, uma ética e uma memória coletiva que atravessam décadas.
No Rio de Janeiro, uma verdadeira revolução estética nas escolas de samba nasceu, em grande medida, da Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ), onde a aproximação entre as artes de ateliê e o barracão consolidou um novo padrão de linguagem visual nos desfiles.
As escolas de samba devolveram ao país uma identidade que o racismo tentou sequestrar. Escola de samba é nação, é cor de bandeira, é proteção social, é comunidade. Celebremos o carnaval como um patrimônio vivo da nossa cultura, afirmação de identidade nacional e aula pública de inclusão: a prova de que, quando o Brasil oficial exclui, o Brasil da festa insiste em incluir — e em reinventar o futuro.
