Escassez de comida e insegurança: as preocupações de venezuelanos no sul do país após ataque dos EUA
Durante os 13 anos em que Nicolás Maduro permaneceu no poder, venezuelanos passaram a se acostumar com os efeitos da crise econômica e a escassez. Qualquer reviravolta do cenário político em Caracas ou agravamento da crise institucional levam às mesmas preocupações: ter comida na mesa e se manter em local seguro.
Após a captura do líder autoritário e o ataque dos Estados Unidos, cidadãos mantêm a rotina, mas desconfiam do que está por vir. No sul da Venezuela, em uma quitanda na cidade de Santa Elena de Uairén, a 15 quilômetros da fronteira com o Brasil, a auxiliar de enfermagem Carmén Joaquim, de 56 anos, resolveu encher a sacola com mandioca, carne moída e abobrinha.
— Não se sabe como será o dia de amanhã — disse ela, expressando dúvidas sobre os próximos dias.
No sul da Venezuela, população segue rotina apesar de apreensão sobre o futuro do país
Para uma tarde de domingo, o comércio no sul do país estava lotado. A maior parte dos clientes evitava falar de política e da prisão do presidente do país, ocorrida no dia anterior, regra seguida por quem tem receio de virar alvo do regime autoritário.
Os poucos que concordaram em falar com O GLOBO buscavam expor suas preocupações com coisas mais imediatas, como o risco de escassez de comida, gasolina e invasão armada.
— Nossa região é muito sofrida. Faz anos que falta tudo. O salário não dá para comprar comida, não dá para passar o mês. Agora imaginamos que isso vá piorar, porque, com o risco de uma guerra no nosso país, ninguém vai querer transportar mercadorias para nós — acrescenta Carmén.
Venezuelanos em cidade perto da fronteira com o Brasil
Patrik Camporez / O Globo
O GLOBO percorreu, ao longo deste domingo, cerca de 200 quilômetros por cidades, vilas e comunidades indígenas na região sul da Venezuela.
Apesar do clima de tensão, a população segue a fazer caminhadas no fim da tarde, passeios com cachorros e idas ao cabeleireiro.
Nos primeiros 80 quilômetros após a fronteira com o Brasil, no sentido de Caracas, há uma barreira do Exército a cada 20 quilômetros. Segundo comerciantes locais, como a fiscalização ficou mais ostensiva, muitos transportadores de mercadorias e alimentos têm receio de passar pelos bloqueios e temem que, aos poucos, isso possa ter efeitos negativos.
Em um supermercado de Santa Elena de Uairén, havia filas nos três caixas para pagamento das compras.
Dono de uma oficina mecânica na cidade, Fernando Milagres, de 25 anos, conta que tem atendido clientes normalmente e diz que o movimento até aumentou nos últimos dois dias.
— Por enquanto, o que está acontecendo em Caracas não nos afetou. Meu maior medo é que comece a faltar combustível, pois não está chegando abastecimento aos postos por causa de bloqueios nas estradas. Nosso povo também teme que haja uma invasão maior e guerra no território — relata.
O sul da Venezuela abriga diversas etnias indígenas que vivem do artesanato, da pesca e da caça, na região da Gran Sabana, no sul do país.
O GLOBO visitou uma aldeia da etnia Pemón, localizada a 70 quilômetros da fronteira com o Brasil. No local, indígenas disseram que a vida do povo segue normalmente e que procuram não se deixar afetar pelo que está acontecendo na capital.
No fim da tarde de domingo, crianças brincavam tranquilamente no interior da aldeia, enquanto jovens produziam artesanato nas calçadas.
— Levamos nossa cultura e nossa vida. Não podemos esquecer nossa cultura, de onde viemos. Buscamos seguir vivendo normalmente — disse Sarai Franco, de 18 anos.
Artesato feito por indígenas no sul da Venezuela
Patrik Camporez / O Globo
Fronteira
Um dia após os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela, a fronteira com o Brasil amanheceu reaberta, com fluxo intenso de carros e pessoas em direção a Pacaraima, em Roraima, a primeira cidade do lado brasileiro. Venezuelanos que deixavam o país relatavam tensão com os bombardeios registrados na madrugada de sábado e incertezas sobre o que irá acontecer daqui para a frente.
Ao GLOBO, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PP), disse temer que a crise na Venezuela gere uma nova onda de refugiados no estado e sugeriu ao governo federal o fechamento temporário da fronteira com o país. O pedido foi feito aos ministros da Defesa, José Múcio, da Casa Civil, Rui Costa, e de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, com quem o governador conversou neste sábado.
Em entrevista na noite de ontem, após uma reunião no Itamaraty, o ministro da Defesa afirmou que a situação na fronteira era “tranquila”, mas que haverá um “plantão” para o caso de novos acontecimentos.
Como mostrou o GLOBO, uma das principais preocupações do governo brasileiro diante dos ataques dos Estados Unidos à Venezuela é a extensa fronteira terrestre compartilhada pelos dois países, com mais de 2 mil quilômetros de extensão. Avaliações feitas no Palácio do Planalto e em áreas da segurança indicam que a instabilidade no território venezuelano pode gerar impactos diretos sobre a região Norte do Brasil.
