Escalado para Dark Horse, Malafaia recusou papel no filme: ‘Para a minha imagem, não era uma boa’
O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, chegou a ser escalado para o filme Dark Horse, sobre a facada sofrida por Jair Bolsonaro e sua ascensão à presidência, mas recusou o papel. A produção teve patrocínio do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação, coerção e outros crimes.
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Malafaia interpretaria o pastor que celebrou o casamento de Jair e Michelle. Na vida real, o líder religioso de fato celebrou a união do casal, em 2013, no Rio de Janeiro. Os realizadores de Dark Horse chegaram a incluir Malafaia no “carômetro”, um documento da produção, ao qual o GLOBO teve acesso (foto acima), que mostra o elenco que está no set nos dias seguintes.
De acordo com integrantes do filme ouvidos pela reportagem, os responsáveis pelo projeto chegaram a informar as equipes que Malafaia seria o intérprete da cena. Mas, às vésperas da gravação, ele desistiu da participação — e o ator acabou sendo um outro pastor evangélico. Indagado sobre por que decidiu não participar do filme, Malafaia falou que não seria "conveniente" participar de uma obra artística.
— Eu falei: ‘não vou participar de um filme’, sabe? Para fazer o filme tem que ser artista. Eu não sou artista, pô. Vou fazer um papel do que eu não sou? Então achei que não. Naquela época, não havia nada disso (do caso Flávio-Vorcaro), mas eu falei ‘não’. Para a minha imagem, eu não acho isso uma boa. Eu sou um líder evangélico, sou um pastor, então, já que estão escolhendo só artistas (para o filme), escolhe um artista e põe (no meu lugar) — ele diz.
A cena, de todo modo, guardou semelhanças com o casamento real do casal. Michelle emprestou o vestido que usou na cerimônia original para que a atriz americana Camille Guaty, que interpreta a ex-primeira-dama, o usasse no longa-metragem. O GLOBO procurou a Go Up, produtora responsável pelo projeto, para que comentasse a possível participação de Malafaia no filme, mas não teve resposta até a publicação do texto — o espaço segue aberto.
‘Eu me rendo’
O filme reconta, por meio de um "flashback" (uma memória) de Bolsonaro no hospital, o momento em que o ex-presidente e Michelle se conheceram. Na cena, Bolsonaro faz uma entrevista de emprego com Michelle em seu gabinete de deputado, em 2007, quando se apaixona pela atual esposa. Veja a seguir o trecho no roteiro (traduzido do original em inglês; V.O. é um código para voice over, ou seja, quando um personagem fala, mas não aparece na tela):
"Bolsonaro está sentado atrás de sua mesa enquanto Michelle, sentada em uma cadeira, fala sobre si mesma:
MICHELLE — Como você pode ver pelo meu currículo, tenho experiência no governo, especialmente na Câmara dos Deputados —
BOLSONARO — Eu sei, já te vi na Câmara —
MICHELLE — Sou divorciada, mãe solteira. Saio às cinco e meia todos os dias. Meus fins de semana são com minhas filhas. Vou à missa todos os dias. Não tenho tempo para funções políticas à noite. Vou trabalhar muito para você e posso lhe dar muitas visões. Como você sabe, eu entendo a Câmara e sua política. Você não se arrependerá de me contratar, senhor.
Ela diz isso tão rápido e furiosamente que ele simplesmente se recosta, levanta as duas mãos, com as palmas voltadas para ela, e sorri.
BOLSONARO -- Eu me rendo....
CORTE PARA CENA DO CASAMENTO
Bolsonaro e Michelle estão se casando. OUVIMOS seus votos:
PADRE -- “Você é o sacerdote, provedor e o protetor do lar. Honre esta aliança, pois através dela virá o destino de gerações. E sua filha—
CORTE PARA MATERNIDADE
BOLSONARO segura a filha bebê, LAURA, ao lado do leito, com MICHELLE.
PADRE (V.O.): — Laura será como uma flecha lançada longe — mas ela precisa de um arco firme agora...”
