'Era do Irã começou': Teerã declara vitória após cessar-fogo, enquanto EUA também reivindicam triunfo

 

Fonte:


Horas após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, autoridades iranianas passaram a tratar o acordo como uma vitória estratégica, em contraste com declarações semelhantes feitas por Washington. A disputa de narrativas ocorre enquanto a trégua ainda enfrenta incertezas no terreno.

Trump diz que cessar-fogo com Irã é 'vitória total e completa' dos EUA e afirma que urânio estará 'perfeitamente controlado'

'Foi a primeira vez em 40 dias sem medo': iranianos relatam alívio após cessar-fogo, mas temem nova escalada

As declarações foram reportadas pelo The New York Times e refletem o esforço de ambos os lados para consolidar ganhos políticos após mais de cinco semanas de conflito.

Irã fala em “vitória histórica”

O primeiro vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, afirmou nas redes sociais que “a era do Irã” havia começado, sugerindo um novo momento de força geopolítica para o país.

Confira:

Initial plugin text

Na mesma linha, o chefe do Judiciário, Mohsen Ejei, declarou que o Irã “provou ser inflexível e invencível”.

Em comunicado oficial, o Conselho Supremo de Segurança Nacional foi ainda mais enfático, afirmando que o país infligiu ao inimigo uma “derrota inegável, histórica e esmagadora” em uma guerra descrita como “covarde, ilegal e criminosa”.

Trump também reivindica “vitória total”

Do lado americano, o presidente Donald Trump adotou tom semelhante. Em entrevista à AFP, afirmou que os Estados Unidos alcançaram uma “vitória total e completa”.

— Vitória total e completa, 100%. Não há dúvidas sobre isso — disse.

Trump também indicou que pontos centrais do conflito, como o programa nuclear iraniano, estariam sob controle.

— Isso estará perfeitamente controlado, ou eu não teria fechado um acordo — afirmou, sem detalhar os mecanismos de verificação.

O presidente ainda sugeriu que a China pode ter desempenhado papel nas negociações e indicou uma possível viagem a Pequim, onde pretende se reunir com Xi Jinping.

Trégua sob ataques e incerteza

Apesar do anúncio do cessar-fogo, relatos de novos ataques com mísseis e drones no Golfo Pérsico colocam em dúvida a efetividade imediata do acordo.

Na manhã seguinte ao anúncio, sirenes soaram em Israel diante da aproximação de mísseis iranianos, enquanto países como Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos relataram novos episódios de violência.

Analistas apontam que a estrutura descentralizada das forças iranianas, que permite decisões locais de ataque, pode dificultar a implementação uniforme da trégua.

Além disso, divergências políticas ampliam a instabilidade. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o cessar-fogo não se estende ao Líbano, onde os combates contra o Hezbollah continuam.

Impacto humano e percepção da população

Enquanto líderes disputam a narrativa de vitória, o custo humano do conflito segue elevado. Segundo dados citados por organizações de direitos humanos, ao menos 1.665 civis morreram no Irã, incluindo 244 crianças. No Líbano, mais de 1.500 pessoas morreram, além de vítimas em Israel, no Golfo e entre militares americanos.

Nas ruas de Teerã, o sentimento é mais complexo. Em relato ao The New York Times, um morador identificado como Nima disse que, pela primeira vez em cerca de 40 dias, acordou sem medo de novos ataques.

“A noite passada foi realmente assustadora”, afirmou, destacando o impacto psicológico da guerra e os danos econômicos sofridos pelo país.

Já a Al Jazeera descreve um “alívio cauteloso” entre os iranianos. Segundo o correspondente Ali Hashem, há esperança de retorno à normalidade, mas também forte desconfiança.

“As pessoas estão felizes por poderem retomar suas vidas normais, mas temem que isso possa se repetir a qualquer momento”, relatou.

Negociações e próximos passos

O cessar-fogo deve abrir espaço para negociações diplomáticas mais amplas. O governo do Paquistão convidou delegações dos dois países para conversas em Islamabad, enquanto autoridades americanas afirmam que negociações presenciais estão em discussão.

Mesmo assim, o histórico recente — com tentativas anteriores de trégua seguidas por novos ataques — reforça a percepção de que o acordo atual pode ser apenas temporário.

Entre declarações de vitória e sinais de fragilidade no terreno, o cessar-fogo expõe não apenas a disputa militar, mas também a batalha política e simbólica travada por Irã e Estados Unidos.