Era de ouro de Angela Maria e Cauby Peixoto ganha releitura de Zélia Duncan e Fitti
Expoentes da era de ouro do rádio no Brasil, Angela Maria (1929-2018) e Cauby Peixoto (1931-2016) uniram suas vozes pela primeira vez nos anos 1960, quando o cantor convidou Angela para se apresentar na sua boate, a Drink, no Rio de Janeiro. A parceria musical, marcada por uma grande amizade, foi oficializada em discos a partir de 1982, com shows marcantes que seguiram até o ano da morte de Cauby.
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Um dos grandes entusiastas da dupla era Zé Maurício Machline, que em 1993 a homenageou no seu Prêmio da Música Brasileira (além de ter produzido o disco “Cauby canta Sinatra” em 1995), e agora reverencia o seu legado no show “Zélia Duncan e Fitti cantam Angela Maria e Cauby Peixoto”, que estreia esta quarta-feira (com sessão também na quinta) no Teatro Iguatemi, em São Paulo.
Com direção de Zé e da filha (e hoje diretora do PMB), Giovanna Machline, e textos do DJ Zé Pedro (outro fã número 1 de Angela e Cauby), o espetáculo assume a ousadia de traduzir para 2026 o canto que emocionou o Brasil por décadas a fio. Zé Maurício Machline atenta para o fato de a dupla ter imortalizado um repertório muito dos anos 1950 e 60, que trata “de um amor rasgado, muito forte”, uma espécie de precursor da sofrência dos sertanejos.
— Tudo ali é muito colocado no sofrimento da mulher, causado pelo homem, algo que faz parte do inconsciente romântico do país. Baseado nisso tudo e nesse respeito artístico por Angela e Cauby, resolvi fazer uma coisa mais atual, para dizer que, mais do que a coisa homem-e-mulher, o sofrimento amoroso hoje está em todas as camadas, todos os gêneros — diz o diretor. — Por isso é que tenho a Zélia e o Fitti. Pensei no figurino em que um entrasse muito branco, outro de preto, e o que entrasse de branco saísse de preto.
Cauby Peixoto e Angela Maria no Teatro Rival (RJ), em 2002
Ana Branco
Na visão de Zélia Duncan, 61 anos de idade e 45 de carreira (e autora dos textos das últimas cerimônias do Prêmio da Música Brasileira), “o show quer homenagear as duas vozes e uma época, num recorte, sem cronologia certa”.
— A ideia de chamar duas vozes tão diferentes entre si, e diferentes também daquelas dos homenageados, parte de uma vontade também de mostrar como somos diversos e únicos, cada um no seu espaço — diz. — Angela Maria e Cauby Peixoto são ícones, como Dalva de Oliveira e Francisco Alves, e é delicioso mergulhar em seus universos, sem abrir mão de quem somos.
Aos 28 anos, uma das mais recentes revelações da MPB, o cantor Fitti encarna a geração que, em boa parte, não chegou a ver Angela e Cauby ao vivo.
— Os dois têm muito em comum uma dramaticidade com a qual, inclusive, eu me identifico muito. O Cauby, com aquele gravão, aquela forma única de falar o R, que dava uma potencializada no drama. E a Angela, com os agudos, com aquela extensão vocal absurda — analisa. — Enquanto o Cauby traz o drama na profundidade da voz, ela trazia na força, na intensidade do canto. O contraste dos dois é muito poderoso. Esse show vai ser como reacessar a minha infância, a criança que cresceu ouvindo a mãe cantar “Que será?”, “Orgulho” e “Bolero de Satã”. Então, vai ser uma homenagem a Angela e Cauby, mas também a Dona Simone.
Revezamento de papéis
Fitti até achava que, por causa de seus registros vocais muito particulares, ao longo do show ia assumir a posição de Angela Maria e Zélia, a de Cauby. Mas só até Zé Maurício Machline informar: “Não, aí é onde está a coisa: vai ser a mistura, ambos serão os dois. Você pode chegar e cantar uma música do Cauby, e a Zélia cantar a música da Angela, levando para a tonalidade dela.”
— Nos ensaios, a gente foi descobrindo. Porque eu fiz meus estudos sozinho em casa, ela fez os dela, e, quando a gente se encontrou, foi entendendo que podia ter outras possibilidades — diz o cantor, que conheceu a parceira de show há poucos anos, ao ser convidado para fazer participação em show dela.
Zélia Duncan assina embaixo.
— Cantaremos da nossa forma. Se fosse para cantar como Cauby, jamais aceitaria, o canto dele é único, e seria muito arriscado! — alerta. — Os arranjos e a direção musical de Webster Santos também não imitam os originais. Estamos animados, e eu, às vésperas de um álbum novo, com esse mergulho na MPB de antigamente. Uma aventura!
Já Fitti (que está encerrando o ciclo de shows de seu álbum de estreia, “Transespacial”, enquanto prepara, com os produtores Pupillo e Marcus Preto, o disco de seu novo show, dedicado ao repertório de Ney Matogrosso) é só elogios à banda do espetáculo de Angela e Cauby, com Webster (vários instrumentos), Tércio Guimarães (teclados) e Kabé Pinheiro (percussão).
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E o repertório, não divulgado, vai ter, conta o cantor, todos aqueles clássicos da dupla, como “Conceição”, “Bolero de Satã”, “Bastidores”, “Começaria tudo outra vez” e, é claro, “Babalu”.
— Dentro dessa minha religiosidade, que é de matriz africana, cantar “Babalu” está sendo emocionante — diz Fitti, garantindo que o espetáculo é “não apenas musical, mas também tem uma dramaturgia, que vai criando uma história para quem está assistindo”.
Tudo isso, coisa de Zé Pedro.
— De repente recebo um telefonema incisivo de Zé Maurício Machline: “Vou fazer um espetáculo em homenagem a Angela e Cauby representados por Zélia Duncan e Fitti e você vai fazer o roteiro.” — conta o DJ. — Sem respirar, me remeti ao convívio adorável que tive com Angela e Cauby, no fim de suas vidas, ao mesmo tempo que a obra deles dois, que estiveram desde sempre na minha vida, começaram a se tornar verbo e canção, resultando num espetáculo que é o entrelaçamento entre drama e musical.
Zé Pedro se recorda bem:
— Toda vez que Cauby sabia que eu iria ao show, ele pedia para eu subir ao palco e anunciar sua entrada. E Angela, com o tempo, foi perdendo a visão, então eu entrava de mansinho no camarim e dizia no seu ouvido: “Já tô com a cara inchada de chorar!”, e caíamos na gargalhada.
