Um novo processo ou a prestação de um serviço diferenciado pode diminuir custos, ajudar a ganhar tempo, reduzir a necessidade de alocação de pessoas em determinada função ou mesmo suprimir etapas.
No setor terciário não é diferente, mas os bons resultados dependem do alinhamento entre investimento e colaboração, alerta o professor Gustavo Robichez, vice-reitor de infraestrutura e serviços da PUC-Rio, e um estudioso do tema.
“Em serviços, a inovação exige integração estratégica, governança clara e ambidestria entre ações internas e parcerias externas”, pontua.
As cinco companhias do setor que alcançaram as melhores posições no ranking Valor Inovação Brasil 2026 propuseram ações e soluções que, em várias medidas e com diferentes resultados, demonstraram ganhos palpáveis em suas operações.
“As empresas deixaram para trás o conceito abstrato de inovação e passaram a tratá-la como um motor financeiro mensurável”, analisa Arthur Igreja, engenheiro mecatrônico e mestre pela Universidade de Georgetown, nos EUA, que dá palestras sobre o assunto em empresas, entre elas, as vencedoras neste ranking.
A melhor colocada entre as empresas de serviços no ranking das mais inovadoras do Brasil foi a Equifax, dedicada à tecnologia e inteligência analítica.
Essa gigante na operação de banco de dados fechou, em 2023, a aquisição da Boa Vista, especializada na análise de crédito ao consumidor, oficialmente anunciada por R$ 3,1 bilhões.
Ao capturar a capilaridade da Boa Vista no mercado, a transação ampliou a robustez da companhia.
Neste ano, a Equifax apresentou o case que chamou de “Book de Atributos”, plataforma que funciona como uma biblioteca e que se vale da combinação de diversos dados gerados por analytics.
O serviço utiliza inteligência artificial generativa voltada para aferir crédito e risco.
Era a solução necessária para parceiros como o varejo, o mercado imobiliário, o financiamento de automóveis, entre outros.
O grande diferencial foi a economia de tempo, bem como a disponibilidade e a precisão da informação sobre o consumidor que postula o crédito.
“No modelo tradicional do passado, o cliente testava os dados em um ambiente isolado e, após ajustar o modelo, levava até seis meses para colocá-lo em produção, uma vez que os dados não eram necessariamente iguais [à realidade do mercado] ou devidamente atualizados”, explica o CEO Henrique Moraes.
“Com o book de atributos, a fonte usada para o teste é o próprio dado de produção real, o que elimina uma etapa de transição e permite que o cliente ative o modelo em poucas horas ou no máximo dias, mesmo em projetos de alta complexidade.”
Com cerca de 7.600 colaboradores no Brasil, sendo quase 40 deles totalmente dedicados à inovação e outros 400 espalhados entre as equipes também tratando do tema, a Serasa Experian tem, como meta, que 20% de suas receitas advenham da criação de soluções inovadoras.
Este ano, o principal projeto apresentado pela companhia é voltado à prevenção de fraudes digitais e golpes baseados em engenharia social.
São as conhecidas tentativas, em especial, via WhatsApp, nas quais um falsário se passa por um conhecido e exige dinheiro.
A solução desenvolvida pela Serasa utiliza várias camadas de tecnologia, e, segundo Giovana Giroto, CMO e vice-presidente de Inovação da Serasa Experian, a construção do serviço se deu também com a participação de companhias adquiridas pela Serasa Experian.
“O projeto começou no ano passado, mas a Serasa já está na vertical de fraudes há pelo menos seis anos”, afirma.
“Das 17 aquisições recentes da companhia, quatro startups atuavam no segmento de prevenção.
De uma só vez, somamos dados, talentos, além de completar o portfólio de ponta a ponta ao envolver biometria, documentoscopia e outras tecnologias.”
Giovana Giroto, da Serasa: contra fraudes, soluções que usam dados, talentos, biometria e documentoscopia
Divulgação
A solução utiliza IA e é capaz de analisar, de bate-pronto, o número do celular que enviou a mensagem, sua geolocalização, além de aplicativos instalados no aparelho de origem.
Também verifica o contexto e a linguagem utilizada, examinando se há componentes de coerção, senso de urgência, falsa autoridade e indução ao erro.
Já na Aviva, empresa do setor de hotelaria e entretenimento com mais de 60 anos de atuação, a grande sacada foi propor um novo modelo de time-share (ou tempo compartilhado) em um dos hotéis localizado na Costa do Sauípe (BA).
Para isso, reconfigurou o produto, dando a ele características de residência.
Originalmente, o empreendimento tinha 330 unidades.
Com o retrofit, os apartamentos foram ampliados, diminuindo o número para 190, mas aumentando o espaço das unidades.
O investimento foi R$ 250 milhões.
Ainda que as obras comecem apenas no ano que vem, o projeto foi um sucesso de vendas.
Já no ano passado, o InCanto Residence Club levantou R$ 144 milhões em vendas.
“Diferente do modelo tradicional de time-share, no qual a pontuação é engessada e vinculada a um hotel específico, o InCanto Residence Club funciona como um banco de pontos anual, semelhante a um programa de fidelidade, o que assegura liberdade e flexibilidade para o usuário configurar suas férias”, explica Alessandro Cunha, CEO da Aviva.
Na região de Sauípe, onde a rede tem quatro hotéis com 1.500 apartamentos, o plano é investir R$ 470 milhões, para inaugurar, até o final do ano que vem, um parque aquático aos moldes do Hot Park, que já possui em Rio Quente (GO), a origem do grupo hoteleiro.
“A inovação para nós, da Aviva, não precisa ser uma grande invenção.
Ela pode ser expressa em soluções práticas que resolvam questões simples, do cotidiano dos nossos hotéis”, diz Cunha.
Na Simpress, a busca constante por inovações e otimização também tem como foco o dia a dia.
Com 1.800 técnicos espalhados em 3.500 clientes, a companhia, especializada em outsourcing de equipamentos de TI, se debatia com o alto número de chamadas que sua central recebia da equipe em campo.
Até que se propôs a mudar a forma como esses analistas poderiam receber informações sobre a enorme variedade de hardwares com que têm de lidar diariamente Brasil afora.
A novidade foi a criação da SimFix, uma plataforma na qual o funcionário externo busca toda sorte de informações por autoatendimento, sem a necessidade de entrar em contato com uma central telefônica.
“A SimFix centraliza manuais, guias, vídeos, histórico de intervenções, utilizando também realidade aumentada e visualização 3D”, diz Vittorio Danesi, CEO da Simpress.
“O sistema orienta o técnico na ponta, reduzindo a dependência da matriz para diagnósticos, o que é melhor, pois é o técnico em campo que sabe o que está efetivamente acontecendo com o equipamento.”
Danesi conta que o projeto permitiu realocar funcionários para outras funções, já que a companhia cresce há 25 anos a dois dígitos anualmente e, assim, não necessitou realizar demissões.
Ele destaca também que o número de visitas da equipe externa da Simpress a clientes, mesmo com logísticas complexas, como São Paulo, passou da média de cinco para até seis no mesmo dia.
Um projeto de logística, aliás, foi o case escolhido para a Accenture, que também integra o top 5 das empresas mais inovadoras do Brasil no setor de serviços.
A companhia desenvolveu uma solução de otimização de frota marítima, que denominou como cargas náuticas sustentáveis, durante quatro meses, para um cliente da área de mineração, com a utilização de computação quântica.
A iniciativa também traz, embutida, a meta de reduzir em 33% as emissões de carbono da mineradora.
O diferencial foi unir o conhecimento técnico de computação quântica à infraestrutura de que a empresa dispõe no exterior, com acesso corrente a um supercomputador em Washington, nos EUA, unindo ao entendimento do setor minerador que a Accenture detém.
“Trata-se de um caso real de aplicação quântica para resolver um problema matemático e de escala de dados astronômica, envolvendo rotas, combinação de navios e tecnologias de economia de combustível, para o qual não existia uma ferramenta tradicional de mercado”, comenta Rodolfo Eschenbach, CEO da Accenture.
“Esperamos uma economia estimada em mais do que cinco dezenas de milhões de dólares, para o cliente, na sua estratégia logística de longo prazo.”
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