A preocupação com o "Super El Niño" de 2026, o aquecimento muito acentuado das águas do Pacífico, já está mobilizando agricultores e gestores urbanos no Brasil, que temem secas, enchentes e deslizamentos.
Mas eventos deste tipo são só o começo da lista de preocupações, diz o cientista Lincoln Alves, um dos maiores especialistas do país na relação entre clima global e eventos locais.
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— Um El Niño muito forte não é um problema exclusivamente meteorológico nem agrícola.
Ele pode gerar uma cadeia de impactos sociais, econômicos, ambientais e de saúde — explica.
Licenciado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Alves assumiu no ano passado a coordenadoria-geral do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente (MMA), e está na linha de frente da preparação do país para lidar com o fenômeno.
Em entrevista ao GLOBO, o cientista conta o que podemos esperar.
O El Niño normalmente provoca seca na Amazônia e Nordeste, e chuvas fortes no Sudeste e no Sul.
O atual chamado "Super El Niño" deve seguir esse padrão?
Em linhas gerais, esperamos algo próximo do padrão clássico do El Niño, mas com uma ressalva importante: esse padrão não funciona como um mapa fixo.
No Brasil, o sinal mais consistente é de menos chuva em partes da Amazônia e do Nordeste e mais chuva no Sul.
No Sudeste e parte do Centro-Oeste, a relação é muito menos direta e varia bastante de um evento para outro e também ao longo das estações do ano.
Isso acontece porque o El Niño é uma influência importante, mas não é a única peça do sistema climático.
O Atlântico Tropical, a posição das frentes frias, a circulação sobre a América do Sul e podem reforçar, enfraquecer ou deslocar seus efeitos.
Que outros eventos extremos podem ser influenciados por ele?
No centro do Brasil, Norte e parte do Nordeste, preocupam sobretudo ondas de calor, períodos prolongados de baixa umidade, secas, redução de vazões e aumento das condições favoráveis a incêndios florestais.
No Sul, o problema pode ser quase o oposto: episódios repetidos de chuva intensa, cheias, enxurradas, deslizamentos e tempestades severas.
Também há efeitos indiretos sobre abastecimento de água, geração de energia, navegação, agricultura e saúde pública.
É importante usar sempre a expressão "aumenta a probabilidade".
O El Niño não provoca sozinho cada tempestade, incêndio ou onda de calor.
Ele altera o pano de fundo sobre o qual esses eventos acontecem.
O cientista Lincoln Alves, coordenador do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima no MMA
MMA/Divulgação
O impacto já começou? Quando as diferentes regiões do país devem esperar sentir de forma mais intensa a influência do El Niño em 2026?
Sim.
O El Niño já está estabelecido e seus primeiros sinais já fazem parte do sistema climático.
Em julho, a NOAA (agência climática dos EUA) registrava um índice semanal de cerca de acréscimo d 1,2°C e indicava que o fenômeno continuaria se fortalecendo ao longo de 2026.
Hoje, a expectativa é de fortalecimento até a primavera e o começo do verão, com pico provavelmente entre outubro e dezembro de 2026, e persistência do fenômeno no início de 2027.
Até que ponto faz sentido chamar o El Niño deste ano de "super"? Há já uma confirmação de que ele será mais forte que outros?
"Super El Niño" não é uma categoria oficial utilizada para classificar o fenômeno.
Tecnicamente falamos em eventos fracos, moderados, fortes ou muito fortes.
O que mudou em julho é que a possibilidade de um evento excepcional aumentou bastante.
A previsão oficial da NOAA divulgada em julho indica 81% de probabilidade de o El Niño atingir a categoria "muito forte" entre outubro e dezembro, o que o colocaria entre os maiores eventos do registro histórico.
O que ele tem de "super" é a combinação com um momento mais grave da mudança climática?
São duas coisas que precisamos separar.
Quando se classifica a intensidade do El Niño, estamos olhando principalmente para o comportamento do Pacífico tropical.
A mudança climática não entra na definição de um El Niño "forte" ou "muito forte".
Mas, quando passamos da classificação do fenômeno para os impactos, aí a mudança do clima se torna fundamental.
*O El Niño de 2026 está acontecendo em um planeta muito mais quente do que aquele dos grandes eventos de várias décadas atrás.
Isso significa que ondas de calor partem de temperaturas de fundo maiores, a evaporação pode ser mais intensa e a vegetação pode secar mais rapidamente.* Ao mesmo tempo, uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor de água, o que pode favorecer chuvas mais intensas quando as condições meteorológicas são propícias.
Como governos podem se preparar para enfrentar os impactos previstos? Há tempo para melhorias de infraestrutura?
É preciso diferenciar preparação operacional de grandes obras estruturais.
Não é realista imaginar que uma cidade vá construir um novo sistema de macrodrenagem ou resolver suas áreas de risco até outubro.
Mas há uma quantidade enorme de ações que pode ser feita para reduzir bastante os impactos.
É hora de revisar planos de contingência, verificar drenagens e sistemas de bombeamento, inspecionar encostas, limpar canais, atualizar rotas de evacuação e abrigos, avaliar reservatórios.
Ainda há tempo para reforçar equipes de Defesa Civil e saúde, organizar brigadas de incêndio e garantir comunicação rápida com a população.
Estados e União precisam trabalhar com os municípios, porque muitos deles simplesmente não dispõem sozinhos de estrutura técnica e financeira suficiente.
As preocupações mais salientes até aqui têm sido impacto na agropecuária e nas áreas de risco habitadas em cidades.
Há outros pontos de atenção?
Vários.
Eu colocaria segurança hídrica e incêndios florestais muito alto nessa lista.
Uma seca prolongada pode afetar rios, reservatórios, comunidades ribeirinhas, abastecimento urbano, navegação e geração de energia.
Outro ponto frequentemente subestimado é a saúde.
Ondas de calor aumentam a pressão sobre idosos, crianças e pessoas que trabalham ao ar livre.
Incêndios significam também fumaça e piora da qualidade do ar, inclusive a centenas de quilômetros das áreas queimadas.
Depois vêm infraestrutura de energia, telecomunicações, estradas, pontes...
Ou seja, um *El Niño muito forte não é um problema exclusivamente meteorológico nem agrícola.
Ele pode gerar uma cadeia de impactos sociais, econômicos, ambientais e de saúde*.
Qual foi o papel do Super El Niño no super vendaval que afetou o Rio em julho?
Eu teria bastante cuidado em fazer essa ligação.
A causa direta daquela ventania foi um sistema meteorológico, associado à passagem de uma frente e à circulação atmosférica de escala regional, não o El Niño atuando diretamente sobre Rio e São Paulo.
O El Niño pode modificar o ambiente de grande escala e alterar a frequência ou a trajetória de determinados sistemas meteorológicos.
Mas daí a afirmar que aquela ventania específica "foi causada pelo El Niño" existe uma distância grande.
Para isso precisaríamos analisar detalhadamente a circulação daquele episódio e, se quisermos falar de mudança climática, fazer um estudo de atribuição.
É verdade que o Sudeste é a região do Brasil onde é mais difícil de prever o impacto do El Niño?
Sim.
O Sudeste está praticamente em uma zona de transição entre sinais climáticos mais claros: ao sul, a tendência de aumento das chuvas; mais ao norte, a tendência de redução.
Além disso, o clima do Sudeste depende muito do Atlântico, da chegada de frentes frias e da condição de umidade do continente.
Em determinadas épocas do ano, esses fatores podem ter tanta ou mais importância que o El Niño.
Por isso, é arriscado dizer simplesmente "El Niño significa mais chuva no Sudeste".
Em São Paulo, Minas Gerais e Rio podemos ter respostas bastante diferentes entre si.
O Brasil possui um plano nacional de adaptação à mudança climática.
Ele vai ajudar no preparo contra o El Niño?
O Plano Clima Adaptação tem um papel importante porque ele ajuda a transformar uma reação episódica a um El Niño em uma política permanente de gestão de risco climático.
Isso é importante porque o El Niño passa, mas muitos dos riscos permanecem e tendem a aumentar com a mudança do clima.
Uma cidade não deveria preparar sua drenagem somente quando aparece a previsão de El Niño.
Da mesma maneira, agricultura, saúde ou recursos hídricos precisam incorporar risco climático permanentemente ao planejamento.
Um evento forte em 2026 pode inclusive funcionar como teste de estresse para a adaptação brasileira: mostrar onde temos boa capacidade de antecipação e onde ainda existem lacunas.
Na agricultura, quais culturas precisam de mais atenção?
Para os próximos meses, é preciso ter atenção com pastagens, culturas perenes e agricultura familiar no Norte, onde chuva abaixo da média e calor podem reduzir a umidade do solo.
No Nordeste, há preocupação com cultivos ainda em desenvolvimento e com água para a pecuária.
No Centro-Oeste, temperaturas elevadas e déficit hídrico no fim da estação seca exigem atenção às pastagens.
No Sudeste, o café merece atenção especial, E no Sul, culturas de inverno podem inicialmente se beneficiar da chuva, mas excesso de umidade aumenta o risco de doenças fúngicas e pode dificultar operações no campo.
Conforme entrarmos na safra de verão, será necessário acompanhar continuamente soja, milho e arroz, principalmente se a chuva se tornar muito persistente.
Nas áreas urbanas do país, quais são as zonas de risco prioritárias?
Mais do que fazer uma lista fixa de cidades, eu olharia para tipos de território.
São prioritárias as ocupações em encostas suscetíveis a deslizamentos, as áreas baixas e planícies de inundação, as margens de rios, córregos e canais e os bairros com drenagem insuficiente, além dos trechos urbanos onde a impermeabilização é muito alta.
No Sul, onde a expectativa de chuva acima da média é mais consistente, esse acompanhamento precisa ser particularmente próximo.
Mas o Sudeste também não pode baixar a guarda.
Rio de Janeiro, São Paulo e seus litorais possuem grande concentração de população e infraestrutura exposta a enxurradas, alagamentos e movimentos de massa sempre que ocorrem episódios de chuva intensa.
E há um segundo mapa de risco que não podemos esquecer: o do calor.
Bairros muito impermeabilizados, pouco arborizados e com população socialmente vulnerável tendem a sofrer mais durante ondas de calor, mesmo quando não estão em áreas clássicas de inundação ou deslizamento.
O painel de cientistas do clima da ONU, o IPCC, está preparando mais um relatório.
O que deve entrar de importante nele sobre a relação entre o El Niño e a mudança climática?
É cedo para dizer qual será o consenso do próximo relatório, porque o IPCC começou agora a avaliar toda a literatura disponível, incluindo os estudos publicados depois do último relatório.
Mas alguns temas provavelmente serão centrais.
Um deles é entender melhor como os impactos do El Niño mudam em um planeta mais quente, e não apenas se o Pacífico ficará mais ou menos quente durante um El Niño.
Para a América do Sul, eu esperaria um olhar ainda maior sobre eventos compostos: El Niño combinado com ondas de calor, seca e incêndios na Amazônia; ou El Niño combinado com uma atmosfera mais quente e episódios de chuva extrema no sudeste da América do Sul.
Também será importante entender melhor a interação entre Pacífico e Atlântico, porque ela é fundamental para explicar por que os impactos variam tanto dentro do continente.
Já se sabe se a mudança climática em si, que é causada pelo CO2 e o efeito estufa, pode elevar a frequência de El Niños?
Há uma resposta para isso, mas ela exige cuidado.
Ainda não podemos afirmar que a mudança climática simplesmente fará "haver mais El Niños" de maneira geral.
O sistema tem uma variabilidade natural muito grande, e o registro instrumental é relativamente curto para separar perfeitamente essa variabilidade do efeito do aquecimento causado pelo ser humano.
O último relatório de avaliação do IPCC concluiu que não existe consenso entre os modelos sobre uma mudança sistemática na amplitude da temperatura do Pacífico associada a El Niño e ao La Niña.
Também não encontramos, nas observações, uma tendência de longo prazo suficientemente clara que permita dizer que todo tipo de El Niño já esteja ficando mais frequente.
A evidência é mais forte quando falamos de eventos extremos e de seus impactos.
Há estudos indicando aumento da frequência dos El Niños extremos em um clima mais quente, embora ainda existam incertezas.
E há uma conclusão mais robusta: mesmo que a frequência total dos El Niños não mude muito, a variabilidade das chuvas associadas a eles tende a se tornar maior.
Ou seja, talvez a pergunta mais importante para a sociedade não seja apenas "teremos mais El Niños?", mas "quando um El Niño ocorrer, seus impactos extremos poderão ser maiores?".
Para essa segunda pergunta, a ciência já tem razões bem mais fortes para preocupação.
