Entrevista: Moro nega desconforto com caso ‘Dark Horse’, mas diz que ‘se vierem fatos, Flávio precisa ser cobrado’

Entrevista: Moro nega desconforto com caso ‘Dark Horse’, mas diz que ‘se vierem fatos, Flávio precisa ser cobrado’ - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O governador eleito do Paraná em primeiro turno, Sergio Moro (PL-RJ) afirmou em entrevista ao GLOBO que o colega de partido e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, não trabalhou para obstruir as investigações do Banco Master e que não há qualquer desconforto na relação entre os dois.

O ex-juiz da Lava Jato, por outro lado, disse que o candidato, que disputa o segundo turno com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), terá que ser cobrado caso as investigações comprovem ilícitos. — Flávio apresentou as explicações dele e, diferentemente do Lula, não trabalhou para obstruir as investigações – disse Moro, em entrevista ao GLOBO, antes de fazer uma ressalva: — Agora, se houver investigação e vierem fatos, tem que cobrar do Flávio as explicações, não de mim. No livro “O combate à corrupção”, o senhor criticou uma decisão do STF que suspendeu investigação que mirava Flávio. Porque agora decidiu apoiá-lo para a Presidência? Mantém a avaliação que ele deveria ser investigado pelo caso das rachadinhas? Isso é um assunto que já foi superado em 2022. Fui eleito senador, fui convidado por Jair Bolsonaro no segundo turno a acompanhá-lo para derrotar o Lula. Inclusive fui nos debates presenciais. Naquela ocasião ele declarou e eu declarei que as divergências existem e estão no passado. Agora, o importante é derrotar o projeto político de poder do PT e do Lula. Infelizmente, em 2022 isso acabou não se concretizado, e agora nós temos em 2026 essa revanche política com a chance de aposentar efetivamente o Lula. Ninguém fez mais mal ao país do que o Lula. Famílias endividadas, a inflação, principalmente de alimentos, altíssima. Flávio é alvo de um inquérito que apura corrupção e lavagem de dinheiro por ter pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse. Isso não prejudica o discurso de combate à corrupção? Flávio apresentou as explicações dele e, diferentemente do Lula, não trabalhou para obstruir as investigações. Assinaram as CPIs, eu assinei todas. Estava na CPI do crime organizado requerendo medidas investigatórias em relação às suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e ministros Supremo Tribunal Federal. Eu não vi movimentos no Congresso provenientes de Flávio Bolsonaro e do PL para que essas investigações não fossem feitas. Me parece um movimento oposto ao que fez o Lula em relação ao filho. (Lula) Falava abertamente que o filho tinha que ser investigado, mas, isso eu fui testemunha ocular na CPMI do INSS, que eu era integrante, o Lula atuava orientando a base dele para que os requerimentos de diligências probatórias contra o Lulinha ou contra a tal da (lobista Roberta) Luchsinger não fossem aprovados. Me parece que o comportamento (de Flávio) é diferente. Agora, se houver investigação e vierem fatos, tem que cobrar do Flávio as explicações, não de mim. Flávio disse ontem que pretende usar a maioria no Congresso para mudar a Constituição e 'redemocratizar' o país. Que mudanças seriam essas? O que achou da fala? Eu não sei exatamente qual é a ideia. Não posso interpretar o que ele disse, nem acompanhei essa fala. O que a gente viu em 2022, quando parte da jogada eleitoral do Lula era ameaça à democracia, hoje esse discurso foi muito esvaziado porque quem ameaçou a democracia na verdade foram essas extravagâncias de violações do Estado de Direito, do governo de leis, pelo próprio governo Lula. Houve uma aliança entre o Lula e parte de ministros do Supremo, que acabaram colocando várias questões de legalidade em jogo. A gente aprovou aquele projeto de lei da dosimetria e até hoje não foi aplicado. A lei foi aprovada e não é aplicada, qual é a justificativa para isso? O caso do próprio Deltan, com mandato ameaçado mais uma vez. Esse negócio de ameaça à democracia não existe. A Constituição pode ser reformada, o que não falta na Constituição é emenda constitucional desde 1988. É o defeito de ter uma Constituição que é muito minuciosa, muito extensiva. Esse é um dos problemas, quando se discute a reforma do judiciário, está se falando em alterar a Constituição. Defende que Jair Bolsonaro possa concorrer à Presidência em 2030? Isso é especulação. Não vou responder especulação. O senhor já criticou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, por ter sido “condenado por suborno” no Mensalão. Agora está no partido. Mantém a crítica? O Valdemar foi condenado e cumpriu a pena. Depois nunca mais ouvi qualquer envolvimento dele em algo negativo. Vieram essa história das emendas (ele foi alvo de uma operação da PF por suspeitas de movimentar emendas sem ter mandato de deputado) recentemente, mas não vi nada sólido ali em relação a isso. Me pareceu mais espuma do que qualquer coisa concreta. De todo modo, eu sou agradecido a ele porque me deu a legenda para concorrer no Paraná e nós vamos fazer do Paraná um modelo para o país de prevenção e de combate à corrupção. É a favor do impeachment de Moraes e outros ministros do STF? Quais ministros precisam ser investigados? Nós vimos nesses quatro anos uma série de decisões judiciais extravagantes. E nós precisamos restaurar algo no Brasil que é essencialmente importante: a legalidade. O juiz está vinculado à lei. Infelizmente nós vimos situações de decisões heterodoxas e agora também suspeitas envolvendo alguns ministros do Supremo. O que eu defendo em relação a essas suspeitas é que elas sejam investigadas. Tem que ser investigado. Se não for vigiado pela Polícia Federal ou pela Procuradoria-Geral da República, tem que ser investigado pelo Senado em um processo de impeachment. Se abre, se apura, dá oportunidade de defesa e se extrai as consequências. O que não dá é para gente varrer esses assuntos todos para debaixo do tapete Moraes, Toffoli e Nunes Marques foram citados em mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Eles precisam ser investigados? Temos que ter investigação em relação ao que apareceu, o que a gente viu nos últimos tempos, as suspeitas em relação ao ministro Alexandre e ao ministro Toffoli. Nunes Marques, não? Não vi nada muito significativo a respeito dele. Parte dos aliados de Flávio acusa o senhor de fazer alianças pontuais com ministros do STF e cita a falta de oposição clara na sabatina de Flávio Dino. Qual é a estratégia adotada? Eu tenho grande respeito pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Judiciário, fui juiz por 22 anos. Ninguém é contra o STF, temos que fortalecer o STF. Isso não significa varrer pra debaixo do tapete suspeitas que tem que ser apuradas. Eu acho que um Judiciário forte é imprescindível, mas o próprio Supremo está com dificuldade até de fazer reunião no plenário. Como é que vai conviver com uma situação dessa espécie? O senhor vota a favor da PEC do fim da escala 6x1 se ela for pautada para semana que vem? Sou contra que seja deliberado isso durante o período eleitoral. É uma matéria que tem que ter muita ponderação, muito equilíbrio para votação. Isso não pode ser tratado como uma pauta populista para favorecer um lado. Flávio erra ou acerta ao tentar adiar a votação da PEC do fim da escala 6x1? Isso pode prejudicá-o eleitoralmente? Pelos resultados do primeiro turno, Lula teria muita dificuldade para reverter esse resultado. Mesmo lá no Paraná, a vantagem que o Flávio teve em relação ao Lula comparativamente com o pai dele no primeiro turno em 2022 cresceu muito. Isso reflete o sentimento do país inteiro e a vitória de vários senadores, de vários governadores de oposição no primeiro turno também é ilustrativo de que houve uma surra eleitoral. Eleição ninguém tem bola de cristal, ninguém pode dizer exatamente o resultado final, mas o indicativo é de uma derrota do Lula nesse segundo turno. Eu sempre disse que o governo Lula nasceu velho e não tem projeto país. Morre decrépito porque continua sem qualquer projeto. O senhor saiu do União Brasil, que faz federação com o PP, por não ter o apoio do partido para ser candidato a governador. Na campanha disse que PSD e MDB são aliados do PT. Vê chance de construir maioria no Paraná com esses partidos? Certamente. Passadas as eleições, o importante é a construção em prol do Paraná e os projetos que a gente quer realizar. A gente já recebeu ligações de diversos deputados eleitos por outros partidos, se colocando à disposição e eu creio que o espírito tem que ser esse, da democracia. Claro que durante a campanha às vezes os ânimos se exaltam, mas eu fiz uma campanha muito limpa, sem ataques, apenas colocava a realidade política daquele momento.

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