Entrevista: Lula 'demorou demais' a decidir sobre posição do PT no Rio Grande do Sul, reclama ex-governador Tarso Genro
Após a retirada da pré-candidatura de Edegar Pretto ao governo do Rio Grande do Sul, em meio à pressão da direção nacional do Partido dos Trabalhadores para apoiar Juliana Brizola, o ex-governador Tarso Genro afirma que Luiz Inácio Lula da Silva “demorou demais” a se posicionar sobre o impasse no estado. Em entrevista ao GLOBO, ele minimiza a tese de intervenção no diretório gaúcho, critica a condução da crise pela cúpula petista e defende a construção de uma frente ampla em torno da reeleição de Lula, apesar dos desgastes internos.
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Por que Edegar Pretto seria um candidato melhor que a Juliana Brizola?
O Edegar teve uma votação surpreendente nas eleições ao governo em 2022. Ele se comportou como um verdadeiro líder político, articulou várias relações na sociedade e quase foi ao segundo turno, com uma diferença de só dois mil votos, em um momento altamente negativo para a esquerda no estado. Isso fez a base partidária e intelectual concluir que ele seria um candidato vitorioso desta vez, mas aí entraram os contrapontos. Corretamente ou não, a direção nacional entendeu que trazer a Juliana pode fortalecer o projeto de reeleição do presidente Lula, mas isso só será testado nas urnas.
Na segunda-feira, o senhor declarou que ninguém no Rio Grande do Sul aceitaria uma intervenção. Qual a sua percepção agora?
Não houve intervenção, pois isso só ocorre quando há a destituição da direção partidária local. Eu reitero que não aceitaria algo do tipo. Essa foi, na verdade, uma orientação para que nosso partido se movimente na direção da unidade, mesmo que represente tirar nosso candidato. O Edegar fez a formulação mais importante do que precisa ser construído aqui no Rio Grande do Sul, que é a unificação em torno da reeleição do presidente Lula.
Como o senhor recebeu a orientação do PT Nacional para o diretório gaúcho apoiar Juliana Brizola ao governo?
Hoje paira sobre o país o perigo do fascismo. Isso nos obrigou a fazer uma reflexão profunda, com a necessidade de promover uma integração entre esses dois projetos neste momento. Na minha opinião, o Edegar tomou uma decisão politicamente adequada ao aceitar, de bom grado, a orientação que veio da Executiva Nacional. Seria uma perda política para o Rio Grande do Sul esses partidos terem dois candidatos.
O senhor acredita que o presidente Lula demorou a se posicionar sobre esse racha?
Acho que demorou demais. Pelo o que eu sei, o Lula sugeriu ao Edinho que se fizesse um esforço em torno da Juliana. Tenho a impressão que pelos seus afazeres, com a crise mundial e o acúmulo de tarefas problemáticas que seu governo está tendo,ele foi deixando um pouco. Acho que essa seria uma definição mais tranquila e com uma absorção menos custosa se fosse feita com mais antecipação e de uma maneira mais clara. O resultado final é a formação de uma ampla frente política, embora isso tenha criado determinados percalços nos nossos debates internos. Isso tudo é superável, e agora temos que olhar para a frente.
O presidente nacional, Edinho Silva, classificou como “etnocentrismo político" a resistência a Juliana. O que pensa sobre essa declaração?
Ele é um quadro qualificado dentro do partido, mas penso que esse é um argumento equivocado, de quem não estudou com profundidade a história do Rio Grande do Sul. É uma visão de fora. Aqui, nós estamos acostumados a ter embates bem duros dentro do partido, mas sem perder o respeito. Troquei ideias com membros da Executiva Nacional, inclusive com Edinho, de quem sou amigo pessoal. Informei de maneira permanente o que estávamos fazendo, sobre o nosso candidato ser escolhido pelas instâncias locais do partido.
O que o PDT precisa fazer para conquistar o apoio dos partidos que estavam com Edegar?
O PDT nunca nos enganou. Eles sempre disseram que não teriam condições de aderir a candidatura do PT, já que as bases internas não estavam acostumadas com essa aproximação entre nós. Preliminarmente, eu acho que eles devem apresentar um programa claro para o primeiro ano de governo. Quando eu governei, o PDT ocupava cargos de primeiro escalão, mas saíram da gestão e, nas eleições seguintes, apoiaram meu adversário. Então, uma exigência que deve se ter é firmar um acordo político, já no primeiro ano, para percorrer os três posteriores juntos e pensar na reeleição ou em ter outro candidato unitário.
Muitos petistas definem Juliana como sendo "aliada ao neoliberalismo" e, há alguns anos, ela teceu críticas públicas ao PT. Como fica a imagem dela agora?
Uma frente política é uma frente entre desiguais. Esse sistema de aliança não se faz em nome do socialismo, mas em nome da democracia, da defesa da soberania e da proteção aos pobres e excluídos, o que é perfeitamente adequado à doutrina do PDT. Se nós queremos tirar pessoas de caminhos que consideramos errados, temos que recebê-las de braços abertos, e não cobrar o passado. A Juliana é qualificada, lutadora e representa as parcelas mais avançadas do PDT. Se ela é a candidata mais adequada ou não, a eleição vai demonstrar.
Em 1998, o PT Nacional interveio no Rio de Janeiro para determinar que o diretório local apoiasse Garotinho, o que o núcleo rejeitava. Quais as diferenças e semelhanças o senhor avalia entre o que ocorreu aqui e o que está em andamento aí?
A diferença é substancial. No Rio, determinaram ao partido uma conduta. Aqui no Rio Grande do Sul foi diferente, pois veio uma orientação política a ser aplicada pelo diretório regional, dentro das normas partidárias, sem arbítrio.
