Reeleito governador do Ceará no primeiro turno em disputa em que teve Ciro Gomes (PSDB) como seu principal oponente, Elmano de Freitas (PT) defende um endurecimento das políticas adotadas pela esquerda para combater facções criminosas. O petista lamentou a posição do rival de contestar o resultado da eleição por causa de uma decisão da Justiça que reviu direitos de resposta que haviam sido concedidos durante a campanha.
Elmano ainda classificou como “tolice” a defesa que a ex-senadora Kátia Abreu fez de uma menor presença da primeira-dama Janja da Silva e maior do vice Geraldo Alckmin na campanha de Lula. 'Mea culpa' petista vai além da campanha: Os erros de gestão e articulação que custaram caro a Lula no 1º turno
'Decisões tendenciosas contra a nossa candidatura': Lula critica TSE por derrubar canal de WhatsApp Como o senhor viu o fato de o Ciro Gomes não o ter cumprimentado pela vitória?
Ele não cumprimentou, não ligou e depois soltou um manifesto que eu só posso lamentar muito. Dizendo que houve um roubo na eleição.
Quando alguém questiona um resultado sem nenhuma razoabilidade é desacreditar o processo democrático. Houve um bate-boca no debate.
Como o senhor avalia o nível da campanha? Eu acho que nós tivemos alguns episódios que não expressam a maioria da campanha.
Evidentemente que, como governador, alguém chega para colocar o dedo na sua cara, utiliza adjetivo muito desrespeitoso, é evidente que você tem que impor um limite, estabelecer que tem coisa que não tem como aceitar. Mas tivemos dois candidatos com conhecimento muito razoável da máquina pública e condição de debater os desafios do estado.
Houve momentos de muito atrito e momentos de elevado nível de debate de propostas. Então diria que a campanha ocorreu em um patamar aceitável.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador do Ceará, Elmano de Freitas, durante ato de campanha em Fortaleza Ricardo Stuckert
O presidente Lula teve três pontos percentuais a menos no Ceará em comparação a 2022 (66,76% a 63,77%). A que o senhor atribui?
Houve uma atenção muito grande na candidatura ao governo do estado e acho que houve uma abstenção e desistência pelas filas, um pouco diferente de 2022. E acho que teve essa confusão da candidatura do Ciro, que de alguma maneira atacava o PT e o Lula de maneira indireta, quando atacava o (ex-ministro da Educação) Camilo (Santana).
Isso pode ter tido algum grau de influência. Agora a eleição é só presidencial aqui no Ceará, é só Lula versus Flávio.
Temos a esperança de levar o presidente Lula até pelo menos 70% dos presentes no dia da votação. Por que o PT tem força no Nordeste, como se reflete na votação no Lula e dos governadores, e não consegue ter essa força no resto do país?
Eu vejo que a principal diferença é o nível de conquistas que temos no Nordeste. É a combinação de gestão com trabalho político, de comunicação e social.
Quando fazemos algo em parceria, comunicamos ao povo que é essa ação nossa junto com o presidente Lula. Pela primeira vez no Ceará temos mais trabalhadores de carteira assinada do que beneficiários do Bolsa Família.
O que os petistas e lideranças de outras regiões do país teriam que aprender com os do Nordeste? Acho que devemos trocar experiências.
Só fazer a gestão não garante resultado político posterior. As coisas têm que estar articuladas.
A grande diferença nossa é ter essa combinação sempre presente de trabalho político combinado com entrega e melhoria. Evidentemente, há coisas a aprender com o PT do Nordeste, como também temos que aprender com outras regiões.
Um dos calcanhares de Aquiles da esquerda nas disputas nacionais é a segurança. No Ceará há um problema grave de atuação de facções.
Por quê? A direita faz uma propaganda de ataque à segurança e acho que há uma lacuna de elaboração da esquerda quanto à segurança pública.
Mas o maior fracasso de segurança pública do país é da direita, no Rio de Janeiro. Chefes de facção do Ceará estão quase todos escondidos no Rio de Janeiro, onde as forças de segurança não são capazes de prendê-los.
Agora, reconhecemos que este é um problema nacional, que as facções não diminuíram seu poder quando Bolsonaro foi presidente. Mas isso não quer dizer que não temos que enfrentar isso como um grande desafio como um governo de esquerda.
Mas o que deve ser feito nessa questão? Sou da tese de que devemos fazer um grande acordo nacional, inclusive com a direita, para enfrentarmos as organizações criminosas como o maior problema do Estado brasileiro.
Acho que nós da esquerda devemos alterar muito significativamente o nosso entendimento porque é isso que estou vivenciado como governador. Temos que ter efetivamente a política de enfrentamento.
A direita não resolveu a segurança em nenhum canto, como nós da esquerda também temos que reconhecer que não resolvemos. Qual é a lacuna da esquerda que o senhor citou?
A esquerda elaborou pouco sobre políticas de enfrentamento. Precisamos deixar claro que o Estado precisa de mais presídios, que temos que endurecer as penas contra o crime organizado, e que a ameaça feita por um faccionado em um território não pode ser tratada como uma discussão comum.
Esse faccionado tem que ser preso e permanecer preso. Endurecimento para ele permanecer na cadeia.
É preciso ter uma política de enfrentamento muito mais dura. O Anuário de Segurança Pública de 2025 mostra o Ceará como o terceiro estado com mais mortes violentas e há três cidades cearenses no ranking das mais violentas.
Por que isso acontece? Esse anuário traz dados de 2025.
Nos dados do Ministério da Justiça de 2026, o Ceará é o 13º estado em índice de homicídios. Fortaleza, que era a quarta capital mais violenta, hoje é a 20ª ou 23ª.
Nenhuma das 10 cidades mais violentas do Brasil com mais de 100 mil habitantes é do Ceará. Tivemos a maior redução de roubos e homicídios do Brasil, mas agora vamos atacar com força a situação de ameaça que as facções realizam nos territórios.
O governo federal demorou para agir nessa questão? O presidente Lula acertou demais em apoiar o projeto da Lei Antifacção, que foi aprovada por amplíssima maioria no Congresso.
A PEC da Segurança Pública é muito importante para integrar as forças. A PEC e a criação do Ministério da Segurança Pública, que desde o começo eu apoio, são importantes para uma nova fase desse enfrentamento que precisa ser realizado.
Por que o presidente Lula ficou atrás do Flávio Bolsonaro no primeiro turno na sua avaliação? Os resultados em São Paulo, Minas e Rio foram muito significativos para a vitória do Flávio no primeiro turno.
Nos três maiores colégios do Nordeste, Bahia, Ceará e Pernambuco, as disputas foram muito acirradas. Agora no segundo turno temos condições de diminuir a diferença no Sudeste e ampliar a maioria no Nordeste, agora que a eleição de governador está resolvida nos maiores estados da região.
Houve erros de estratégia na campanha? Erros de campanha se discutem internamente.
Evidentemente que tem erro da campanha, tem coisas para aperfeiçoar e melhorar, mas temos que tocar isso internamente. O que interessa no segundo turno é comparar as duas experiências de governo, do Bolsonaro e do Lula.
A vida de cada candidato, a história de Lula e a história de Flávio. E o ponto mais importante: o que vai fazer?
Como viu a declaração de Kátia Abreu de que a campanha deveria ter “menos Janja e mais Alckmin”? Uma tolice, que só serve para atrair câmera e ganhar manchete em jornal.
Não ajuda em nada. A primeira-dama cumpre um papel importante, evidentemente que a figura central tem que ser a do presidente e é.
A Janja cumpre um papel importante como o Alckmin. Todos têm que trabalhar e dialogar com a sociedade.
Sendo esta a última eleição de Lula, como vê a sucessão no PT e no campo da esquerda? Liderança não se decide em gabinete nem em reunião partidária.
Quem quer ser líder nacional tem que viajar pelo país e vivenciar as realidades nos estados. Quem se planeja para ser governador ou presidente é quase certo que não será.
Tem que dar o melhor de si onde você está. Camilo Santana é um nome?
O Camilo tem todas as qualidades para ser esse nome, assim como outros companheiros do PT como (Alexandre) Padilha, (Fernando) Haddad e Rui Costa. A questão principal é ter a disposição de rodar o Brasil e conhecer de perto todas as regiões.
O Globo