Entre o futebol e a sátira social, José Roberto de Castro Neves e Roberto Feith lançam seus novos romances

 

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Aos 11 anos de idade na Copa do Mundo de 1982, o hoje advogado e imortal da ABL José Roberto de Castro Neves era um entre tantos jovens que decoraram ruas, se reuniam para ver os jogos e não tinham nenhuma dúvida de que o escrete de Zico, Júnior, Falcão e Sócrates voltaria para a casa com o tetracampeonato. A idade é a mesma de Daniel, personagem de seu segundo livro de ficção, “Onar ’82”, que o acadêmico autografa hoje na Travessa do Leblon, às 19h, em lançamento duplo com o jornalista e editor Roberto Feith, que publica seu romance de estreia, “Filhos da mãe gentil”, ambos pela Editora Intrínseca.

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Traumatizado com a “Tragédia do Sarriá”, como todos de sua geração, Castro Neves reescreve no romance o destino da Seleção sem os três gols de Paolo Rossi na fatídica derrota para a Itália em 5 de julho de 1982, assim como a própria relação de Daniel com o pai, o jornalista esportivo Samuel Janowitz, impedido de cobrir a Copa por uma crise de diverticulite a dias da viagem. Ao deixar um manuscrito ao pai com o título de “Onar” (como os antigos gregos chamavam o sonho, visto como um momento de transcendência ou revelação), Daniel dá um final feliz à campanha do Brasil em 1982 e à própria relação familiar, marcada por um longo distanciamento entre os dois.

— Em 1982 a Seleção era muito melhor que as outras, então foi o contrário de 1970, quando o time saiu desacreditado e voltou com o Tri. Me lembro de pintar as ruas, colecionar as figurinhas do (chiclete) Ping-Pong. Não é que achávamos que iríamos ganhar, a gente tinha certeza — lembra o autor. — Era um time lindo de ver jogar. Eu revejo aquele jogo contra a Itália ainda como se o Brasil fosse ganhar, sem acreditar que o Paolo Rossi vai fazer o terceiro gol.

Em meio à ficção futebolística — que permite ao autor vascaíno até escalar no ataque canarinho o ídolo Roberto Dinamite, mantido na reserva durante toda a Copa pelo técnico Telê Santana — Castro Neves mescla outras referências, como as peças “Sonho de uma noite de verão” e “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare. O imortal pesquisa a obra do bardo há anos e a menciona inclusive em seus livros de Direito.

— Shakespeare era um grande contador de histórias. Em “Sonhos de uma noite de verão” os quatro jovens brigam com os pais e fogem para a floresta, é um enredo sobre a busca por liberdade. “Romeu e Julieta” também tem esse embate familiar — analisa Castro Neves. — O livro tem esse quebra-cabeças, para que os leitores possam ir montando a partir das suas referências. E a questão do afeto, que é muito importante. Para mim, o grande gol seria alguém ler o livro e decidir fazer as pazes com quem está afastado, entender que não dá para esperar.

Capa de 'Onar'82'

Divulgação

O livro chega às prateleiras um ano após “Ozymandias”, sua estreia na ficção:

— Essas histórias aparecem prontas na minha cabeça, com uma grande riqueza de detalhes. Aí é mais ter tempo para sentar e botar no papel. E a parte de pesquisa também. Para esse, além de Copa do Mundo, pesquisei muito sobre tarot e baralho cigano.

Crise do jornalismo

Já Roberto Feith faz uma sátira de costumes em seu primeiro livro ficcional, trazendo do noticiário (e, em parte, da própria trajetória profissional) tipos como o filho jovem de um banqueiro do jogo do bicho que quer afastar a imagem da contravenção ou um senador que investe em obras de arte como forma de lavar recursos sem origem legal. Correspondente da TV Globo entre 1977 e 1984, editor-chefe do Globo Repórter e, mais tarde, fundador da Editora Objetiva, Feith cria um jornalista como protagonista da trama: o veterano Roberval Pompermayer, que já teve papel de destaques na imprensa carioca e, vivendo de frilas, aceita assessorar Wozinton Polozola, filho de um bicheiro, a se destacar longe da influência do pai.

— Ainda que não esteja explícito no livro, a crise do Roberval é, também, a crise do jornalismo. Ele ainda se envolve com uma startup de inteligência artificial, e tenta navegar por esse cenário turbulento, como todos nós estamos tentando — ressalta Feith. — Quis fazer, de forma bem-humorada, um comentário do momento, do crescimento do crime organizado, da degradação de algumas instituições. Tive medo de carregar nas tintas, mas a realidade muitas vezes é mais surpreendente.

Capa de 'Filhos da mãe gentil'

Divulgação

O jornalista e editor levou cerca de um ano estruturando a trama, a partir de personagens e situações que vinha anotando há dois anos.

— Uma hora ganhou velocidade de cruzeiro, senti realmente vontade de sentar e escrever. E fui aprendendo a criar ficção, infinitamente mais complexo que uma narrativa baseada na apuração de fatos — compara. — Em alguns momentos me senti levado, como um surfista pegando uma onda, a narrativa ia fluindo. Acho que, para a ficção, não basta ter uma ideia, você tem que estar de tal maneira embrenhado na história que precisa escrever.

'Onar ’82'

Autor: José Roberto de Castro Neves. Editora: Intrínseca. Páginas: 224. Preço: R$ 79,90.

'Filhos da mãe gentil'

Autor: Roberto Feith. Editora: Intrínseca. Páginas: 352. Preço: R$ 79,90.