“Todas as crianças entram na escola como pontos de interrogação e saem como pontos finais”. O trecho de The End of Education: Redefining the Value of School (no Brasil, O Fim da Educação: Redefinindo o Valor da Escola), de Neil Postman, causou furor ao ser publicado há 31 anos.
Hoje, o ditado citado pelo professor da Universidade de Nova York teria de ser revisitado à luz da popularização do uso de ferramentas de inteligência artificial entre crianças e jovens. Para Postman, que morreu em 2003, a escola ensinava os alunos a aceitar passivamente verdades absolutas, moldando-os para “parar de perguntar”.
Seria interessante conhecer sua análise após toda uma geração ter crescido sob o Efeito Google - lembramos menos do que pode ser facilmente recuperado com um clique. E, sobretudo, seu diagnóstico sobre os efeitos potencialmente ainda mais dramáticos para a nossa capacidade de perguntar, com a explosão da IA generativa a partir de 2022.
Talvez Postman dissesse que, mais que nunca, os professores precisam estimular nas crianças a capacidade do questionamento. Afinal, nunca tivemos tantas respostas disponíveis.
Mas e as perguntas? Somos uma espécie que evoluiu movida por suas interrogações. Saber fazer as perguntas certas tornou-se uma das soft skills mais críticas do mercado.
O que esperar se, desde cedo, deixamos de questionar “por que” ou “e se”? Por volta dos dois anos e meio, a criança transforma o mundo em um imenso interrogatório.
Um estudo da Macquarie University, na Austrália, mostrou que as perguntas, nessa fase, evoluem rapidamente da identificação de informações para a busca de explicações. Os pequenos não querem apenas saber o nome das coisas: querem entender por que acontecem.
Perguntar é reconhecer que não sabemos e, nessa idade, mobilizar a linguagem para compreender o mundo. O risco é essa disposição minguar antes de a curiosidade se desenvolver, afetando inclusive relações afetivas e de confiança com pais, os primeiros a receber perguntas, e mestres.
Muitos adultos já cresceram recorrendo ao Google antes de pais ou professores. Em 2012, 54% das crianças e jovens britânicos de 6 a 15 anos faziam isso, segundo o Birmingham Science City.
Hoje, muitos adolescentes trocaram os buscadores pelo TikTok: 64% da Geração Z o usam como buscador, aponta a Adobe. Na pista paralela, a IA avança.
Segundo a Pew Research Center, 57% dos adolescentes americanos usam chatbots para buscar informações. No Brasil, 65% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos com acesso à internet já usam IA generativa, revelou a TIC Kids Online Brasil.
O problema começa quando confundimos saber encontrar uma informação com saber o que fazer com ela. E escala quando tomamos as respostas como verdade absoluta.
Com a IA generativa, basta uma pergunta para receber, em segundos, uma resposta organizada, fluente e aparentemente correta. Combinadas, velocidade e aceitação acabam com o espaço entre a dúvida e a resposta.
Porém, é justamente nesse hiato que moram hipóteses e contradições: reconhecemos nossa ignorância e, às vezes, mudamos de ideia. Sem esse intervalo, trocamos o esforço do pensamento pela conveniência de uma explicação convincente.
Nas crianças, que ainda aprendem a distinguir o que sabem daquilo em que apenas acreditam, o risco aumenta. Se antes o crescimento lhes tirava na adolescência o ímpeto da pergunta pelo temor de parecer ignorante, isso agora se agrava inclusive pelo exemplo de pais, que aceitam a primeira explicação de IA que faz sentido, sem questionamento.
A tendência, portanto, é que essas crianças cresçam com mais dificuldade para formular as boas perguntas tão valorizadas no ambiente de trabalho. É também competência essencial da liderança.
Uma boa pergunta investiga pressupostos, explora cenários e traz à superfície aspectos humanos que uma discussão aparentemente racional pode ocultar. “O que estamos deixando de perceber?” expõe pontos cegos.
“Quem será afetado por esta decisão?” introduz pessoas que os números talvez não revelem. Um líder que acredita ter todas as respostas pode até decidir rápido.
Mas corre o risco de decidir a partir de premissas que ninguém examinou, informações incompletas e consensos que escondem discordâncias. Não se trata apenas do efeito da tecnologia na cognição de cada um.
Ele também se faz notar na inteligência de uma organização, medida pela liberdade que oferece para questionamentos. A IA amplia nossa capacidade de investigar, desde que não nos convença de que questionar se tornou desnecessário.
Seja professor, líder, pai ou mentor, cabe a quem educa e lidera ensinar não só o uso das novas ferramentas, mas a desconfiar delas com método. O problema não está no ponto final, mas em ignorar as interrogações antes mesmo de descobrir o que elas têm a revelar.
Afinal, uma espécie capaz de responder a quase tudo, mas que já não sabe o que perguntar, pode ser extraordinariamente eficiente...e perigosamente limitada. *Suzane Veloso é conselheira e mentora de líderes.
Foi VP de Marketing da Falconi, Diretora de Comunicação do Walmart.com e do Terra, e trabalhou nas maiores agências de publicidade do país Mais Lidas
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