Entre lembranças e atos de protesto, família cobra explicações após morte de bebê em hospital de Niterói: 'Já tinha visto tudo para a festa de 2 anos'
A roupinha verde e estampada ainda está guardada como ficou naquele domingo. Pequena, delicada, com marcas da secreção que a mãe, Rayanna Britto, de 20 anos, não teve coragem de lavar. Ao lado dela, brinquedos, cadeirinhas, fotos e vídeos no celular ajudam a contar a história da pequena Valentinna, de 1 ano e 7 meses, que morreu após ser internada no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN). Enquanto tentam lidar com o luto, os familiares transformam a saudade em um clamor por respostas: eles acreditam que falhas no atendimento podem ter contribuído para a morte da menina e cobram investigação.
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Valentinna deu entrada no hospital na sexta-feira (27), após apresentar crises convulsivas. Segundo a mãe, a criança foi encaminhada para a unidade de terapia intensiva e chegou a apresentar melhora no dia seguinte.
Na madrugada de domingo, no entanto, o quadro mudou. Rayanna conta que percebeu algo que a deixou em alerta ao observar a medicação que estava sendo administrada à filha por meio de uma bomba de infusão.
— Na etiqueta estava escrito “Valentina”, mas com outro sobrenome e com a data de nascimento de 2018. Minha filha tinha apenas 1 ano e 7 meses — relata.
Rayanna Britto na comemoração do primeiro aniversário da filha Valentinna; bebê morreu após internação no CHN
Arquivo Pessoal
A suspeita da família é que o medicamento pudesse estar destinado a outra paciente. Segundo Rayanna, havia uma criança de 7 anos, também chamada Valentina, internada na mesma UTI naquele fim de semana.
A mãe afirma que questionou a equipe de enfermagem ao notar a diferença.
— Falei que aquilo estava estranho. A enfermeira disse que era só a etiqueta que estava trocada e que a medicação estava correta. Mesmo assim, ela tirou a seringa da bomba e voltou com outra com o nome da minha filha — diz.
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Pouco depois, conta Rayanna, a menina começou a apresentar sinais preocupantes.
— Ela começou a inchar. As pernas, os braços, os olhos… parecia que ela ia explodir — lembra.
A família relata ainda que, em outro momento da internação, um medicamento aplicado na veia teria vazado, causando uma queimadura no braço da criança.
Horas depois, de acordo com a mãe, o estado de saúde da menina voltou a piorar. Valentinna passou a receber oxigênio e acabou sendo entubada.
Rayanna conta que havia ido até uma delegacia registrar uma denúncia quando recebeu a ligação do pai da criança avisando sobre a gravidade do quadro. Pouco depois, a bebê morreu.
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O hospital teria informado à família que a causa da morte estaria relacionada a epilepsia, pneumonia e broncoespasmo. A mãe, no entanto, contesta essa versão.
— Ela fez um raio-X pouco tempo antes, e o pulmão estava limpinho — afirma.
Desde fevereiro de 2025, Valentinna tinha diagnóstico de epilepsia e apresentava crises convulsivas. Por causa da condição e de problemas respiratórios, já havia sido internada oito vezes no próprio CHN, segundo a família.
A menina também fazia acompanhamento neurológico no Hospital Universitário Antonio Pedro e estava na fila para investigação de uma possível doença rara, já que tinha dificuldade para ganhar peso.
O CHN afirma que todos os procedimentos foram corretos e adequados ao caso. Diante das dúvidas sobre o atendimento prestado, a família passou a ser representada pela advogada Lorena Baptista, do escritório Baptista & Haubrich Sociedade de Advogados. Segundo ela, já foi ajuizada uma medida judicial para garantir a preservação de provas relacionadas ao caso.
A ação pede a chamada produção antecipada de provas, mecanismo que permite assegurar que elementos importantes sejam preservados e analisados com rigor técnico.
— Diante dos relatos da família e de elementos iniciais que levantaram dúvidas sobre a assistência prestada pelo hospital, nós ajuizamos uma medida justamente para garantir que todos os fatos sejam apurados com transparência — diz Lorena.
Ela afirma que já houve uma primeira decisão judicial reconhecendo a urgência do caso:
— A Justiça determinou, entre outras providências, a realização do exame necroscópico e a apresentação integral do prontuário médico e dos registros hospitalares, que já foram obtidos.
A advogada ressalta que o processo corre em segredo de Justiça e que ainda é cedo para qualquer conclusão definitiva.
— O caso está em fase inicial de investigação. Qualquer conclusão vai depender da análise das provas médicas e periciais, especialmente do laudo do Instituto Médico-Legal e do Instituto Carlos Éboli.
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Segundo ela, existem relatos que levantaram a suspeita de possível troca de medicação, mas essa hipótese precisa de confirmação técnica.
— A confirmação ou não vai depender da análise do prontuário, que é extenso e complexo, e principalmente das perícias. Caso as investigações confirmem falha na assistência médica ou troca de medicamento, essa responsabilidade deverá ser apurada judicialmente — frisa.
Festa de 2 anos planejada
Na casa da família, no Morro da Cocada, no Badu, as lembranças da menina estão espalhadas pelos cômodos. Rayanna costuma dizer que a filha transformou sua vida. Antes do nascimento da criança, a jovem enfrentava um período difícil. Após perdas familiares, fazia uso de medicação controlada, se cortava e chegou a tentar tirar a própria vida algumas vezes. A chegada da filha, conta ela, mudou tudo.
— A Valentinna me salvou. Depois que ela nasceu, eu encontrei força para continuar — diz.
Segundo Rayanna, a menina também acabou aproximando parentes que antes estavam distantes:
— Ela juntou a nossa família. Todo mundo se uniu por causa dela.
O pai, Ian Alencar, de 21 anos, mostra no celular um vídeo em que Valentinna aparece brincando enquanto assiste a um vídeo musical. Em outro registro, feito poucos dias antes da internação, a menina encosta as perninhas e tenta se firmar — um pequeno avanço motor comemorado por todos, já que ela ainda não andava.
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Para os parentes, cada conquista da criança tinha um significado especial.
Valentinna nasceu muito pequena, com cerca de 1,5 quilo, e desde os primeiros meses de vida enfrentou desafios de saúde. Tinha dificuldade para ganhar peso e precisava de acompanhamento médico constante.
A bebê também tinha fissura labiopalatina e aguardava atingir o peso necessário para realizar uma cirurgia corretiva. Na semana em que morreu, havia tomado uma vacina preparatória para o procedimento, e a família aguardava ansiosa pelo momento em que ela chegaria aos sete quilos exigidos para a operação — ela estava com cerca de 6,8 quilos.
A rotina da casa girava em torno dos cuidados com a menina. A lata do leite especial que ela precisava consumir custava cerca de R$ 300 e durava apenas três dias. Para manter o tratamento, parentes, amigos e até pessoas que não conheciam a criança se mobilizavam para ajudar.
Nos períodos em que a menina precisava ser internada, correntes de oração eram organizadas por igrejas e grupos de amigos. A família diz que a fé tem sido um apoio importante neste momento de luto.
— A gente acredita que tudo tem um propósito. Durante um ano e sete meses ela foi muito amada e trouxe muito amor para a nossa família. Ontem mesmo a pastora da minha mãe esteve aqui e falou muito sobre isso — conta Rayanna.
A mãe também lembra do cuidado que tinha com a filha no dia a dia.
— Ela andava sempre muito arrumadinha, igual a uma princesa que era. Mas no CTI ela não teve esse tratamento — diz.
Rayanna conta que fazia planos para celebrar o próximo aniversário da filha. A menina completaria 2 anos no dia 8 de julho, e a família já sonhava com a festa.
— Eu imaginava como seria a festinha de 2 anos dela. Já tinha visto tudo para pagar — conta a mãe.
Para a avó, Elza Maria Figueiredo, a história da neta também deixa uma mensagem sobre a vontade de viver.
— Eu queria apresentar a Valentinna para todas as pessoas que pensam em tirar a própria vida. Ela tinha tanta vontade de viver... Assim como curou a mãe, também uniu a nossa família — afirma.
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Segundo Elza, quem convivia com a menina logo se encantava:
— Quem a conhecia se apaixonava por ela.
Apesar da fragilidade física, os familiares dizem que a criança demonstrava alegria e força.
— A gente fala que ela fazia jus ao nome. Ela era muito valente — diz a avó.
No dia seguinte à morte da menina, parentes e amigos realizaram um protesto em frente ao CHN, no Centro. Com cartazes e pedidos de esclarecimentos, eles cobraram investigação sobre o atendimento prestado. Outras manifestações estão previstas.
— Não é só pela Valentinna. É para que isso não aconteça com outras crianças — diz a mãe.
O que diz o CHN
Em nota, o Complexo Hospitalar de Niterói informou que “lamenta profundamente o falecimento da menor V.B.A, paciente que já esteve em diversas ocasiões sob os cuidados da instituição”. O hospital afirma que foram empregados todos os esforços e as condutas terapêuticas necessárias. Reforça, ainda, que durante a internação as prescrições médicas foram administradas de forma correta, uma vez que a unidade conta com um sistema de rastreabilidade da dispensação dos medicamentos.
“Desde o primeiro momento, a instituição tem colaborado integralmente com as autoridades competentes, disponibilizando as documentações solicitadas para elucidação do caso. O hospital segue em contato com a família, que também recebeu cópia do prontuário médico.
O hospital considera de fundamental importância o resultado do laudo do Instituto Médico-Legal (IML) para dirimir quaisquer dúvidas e reitera seu compromisso com a segurança dos nossos pacientes”, diz a nota.
O caso foi encaminhado para a 76ª DP (Icaraí).
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