Entre botox, implantes e preenchimentos, ultra-ricos parecem cada vez menos preocupados em esconder seus excessos

 

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Modelos em um desfile da marca de luxo Matières Fécales na Semana de Moda de Paris, no mês passado, caricaturaram o 1% mais rico usando próteses que imitavam rostos pós-operatórios, incluindo olheiras grotescas, pele repuxada nas têmporas e lábios que pareciam artificialmente inflados e costurados nas bordas. South Park retratou Kristi Noem com um rosto tão cheio de Botox que derrete e desaparece. Do Met Gala ao Oscar e em todos os tapetes vermelhos, esses rostos ricos estão por toda parte.

Um “rosto rico” é esticado ao extremo, muitas vezes incapaz de expressões variadas e com preenchimento, implantes ou enxerto de gordura da própria pessoa. Outrora, esse rosto pertencia a uma classe vilã de elites em representações de ficção científica de um futuro distópico. Em “Jogos vorazes”, os moradores da capital que se deleitam no luxo e nos excessos às custas de outros distritos empobrecidos frequentemente exibem rostos esculpidos e alterados. Em “Doctor Who”, uma socialite rica de um futuro distante passou por tantas cirurgias plásticas que se tornou pouco mais que um rosto esticado sobre uma fina camada de pele montada em uma estrutura, mantida com hidratante constante.

'Rosto de Mar-a-Lago’

Os ultra-ricos parecem cada vez menos preocupados em esconder seus excessos. Eles estão mais ricos do que nunca, e figuras como Lauren Sánchez Bezos e o presidente Trump lhes dão permissão para ostentar seus espólios da nova Era Dourada. Afinal, o fascínio tácito dos procedimentos estéticos reside no fato de que não se trata apenas de parecer “melhor”, “corrigir” algo ou tentar manter a competitividade em ambientes de trabalho que discriminam por idade. Trata-se de se entregar a um tipo específico de autocuidado infinitamente personalizável e acessível apenas a um grupo seleto. Isso simboliza extrema riqueza e pertencimento a uma elite poderosa que opera sob um conjunto diferente de normas e regras sociais.

Antes, ostentar status era privilégio de um vestido de coquetel de US$ 18 mil (R$ 89.500) ou uma bolsa de grife de US$ 50 mil. Agora, o pequeno número de VIPs, que representam 40% das vendas de luxo, parece estar direcionando uma parcela maior de seus recursos tão desejados para seus rostos.

Os tratamentos estéticos atuais, habilmente comercializados, incluem a “micro-otimização facial global”, que envolve inúmeros procedimentos para ajustar tudo, desde o ângulo dos olhos até a forma como a luz se reflete na mandíbula, e custa entre US$ 150 mil e US$ 300 mil. Existem também os liftings faciais “para sempre 35”, “mini lifting de diamante” ou “lifting de fim de semana”. Cirurgiões plásticos em Washington, estão lidando com um aumento na procura pelo “rosto de Mar-a-Lago”.

As massas querem participar. Os millennials que dizem não ter condições de comprar casas estão investindo em seus rostos. Revistas como Vogue e Allure não estão mais apenas aconselhando suas leitoras sobre cores de esmalte e sandálias de grife para a primavera, mas também sobre quando — e não se — elas devem fazer um lifting facial.

Rinoplastias, liftings faciais e blefaroplastias (cirurgias nas pálpebras) foram os três procedimentos faciais mais populares de 2025, e o número total de procedimentos faciais aumentou cerca de 19%. O setor de luxo, por sua vez, contraiu 2% no ano passado.

A moda de grife parece ser vista com mais constrangimento do que os procedimentos estéticos — um sentimento que a jornalista Sujata Assomull chama de “eca do luxo”. Muitas marcas de luxo aumentaram significativamente os preços nos últimos anos, a uma taxa cerca de duas vezes maior que a inflação, sem qualquer melhoria aparente na qualidade. (Uma bolsa Chanel pode agora custar mais de US$ 11 mil — quase o dobro do preço em 2016.) E algumas se envolveram em escândalos de exploração de mão de obra. A liquidação de amostras da The Row em Nova York inspirou paródias que viralizaram. O mercado próspero de produtos de segunda mão, réplicas e falsificações ofusca todo o glamour. E quando marcas como Celine e Chloé relançam modelos antigos de bolsas, por que se dar ao trabalho de comprar algo novo?

Em décadas anteriores, os papéis eram invertidos: a cirurgia plástica era motivo de piada. “Fiz tanta cirurgia plástica que, quando eu morrer, vão doar meu corpo para a Tupperware”, brincou Joan Rivers certa vez. Agora, ela parece estar à frente de seu tempo. Os procedimentos são um sinal de sucesso da maneira mais Kardashian possível — enriqueça e depois compre um rosto. Estrelas como Kris Jenner viralizam por seus procedimentos estéticos. Questionada se havia feito o novo estilo de lifting facial aparentemente onipresente, Jennifer Lawrence disse ao The New Yorker: “Não. Mas, acredite, eu vou fazer!”

As redes sociais turbinaram a normalização dos procedimentos estéticos. Um cirurgião plástico disse que seus pacientes da Geração Z tiram selfies em suas consultas “como se fosse um show. Eles querem que todo mundo saiba”. Assim como os vlogs de compras, é uma forma de dizer: “Olha o que eu acabei de comprar”.

É claro que o rosto de rica varia regionalmente. As estrelas do reality show “Real Housewives”, do canal Bravo, são do Upper East Side e dos Hamptons. Elas têm uma aparência mais discreta do que suas contrapartes em “Members Only: Palm Beach”, da Netflix, que sonham com acesso a Mar-a-Lago.

Às vezes dá errado

Quer as estrelas admitam ou não seus procedimentos estéticos, a especulação na internet fornece valiosa publicidade tanto para elas quanto para seus cirurgiões. Muitos desses médicos são celebridades. Toda essa mídia convida espectadores a se perguntarem quando foi a última vez que aplicaram preenchimento labial e se seus maxilares parecem mais definidos do que na semana anterior.

Às vezes, é claro, os procedimentos podem dar errado. Sharon Osbourne certa vez chamou um lifting facial de “a pior coisa que já fiz”. Khloé Kardashian disse que o preenchimento a deixou com uma aparência “louca”.

Bolsas de grife podem ser extravagantes, caras e, muitas vezes, produzidas de forma antiética. Mas, pelo menos, há pouca ou nenhuma chance de desfigurarem você. Talvez o risco de um resultado desastroso seja parte do fascínio para os ultra-ricos, que têm condições de pagar pelo melhor tratamento, além de procedimentos adicionais caso algo dê errado. O luxo de encarar um lifting facial menos como uma cirurgia importante e potencialmente catastrófica e mais como um item rotineiro da lista de tarefas é o símbolo máximo de status.