Entre assinaturas e impostos, o custo do streaming pesa no bolso

 

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O que antes parecia uma alternativa mais barata à TV por assinatura hoje se transformou em uma soma mensal que pode ultrapassar R$150 ou até R$200 para muitos brasileiros. Com a multiplicação de plataformas de streaming e reajustes sucessivos, consumidores adotam estratégias para equilibrar entretenimento e orçamento, enquanto o setor enfrenta discussões sobre regulação e tributação no país.


Jaqueline Virgolino, 21 anos, empreendedora e moradora do bairro Centro, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém (RMB), atualmente mantém duas assinaturas: Netflix e HBO Max, ambas no valor de R$44,90 por mês. O gasto individual seria de quase R$90 mensais, mas ela divide as contas com o namorado.


“Eu usava Netflix, HBO Max, Disney Plus e Prime. Quando percebi, já estava pagando aproximadamente R$ 200 por mês”, conta. A solução foi cancelar parte dos serviços e priorizar os dois mais utilizados. Mesmo assim, admite que considera reduzir ainda mais: “Os aumentos influenciaram muito. Hoje penso em cancelar e assinar apenas uma plataforma que tenha maior variedade”.


Além da escolha por catálogo, a marca também pesa, diz Jaqueline. “O nome influencia pela experiência de navegar na plataforma”, afirma. O compartilhamento de contas é outro fator determinante. Ela divide o acesso com o namorado e utiliza espelhamento na televisão para que as famílias de ambos também assistam.


A chamada "rotatividade" passou a ser uma estratégia de economia, especialmente com catálogos divididos em partes e reajustes feitos regularmente (Thiago Gomes/O Liberal)


Em Belém, o secretário legislativo Johnattan Correa, 36 anos, mantém três assinaturas: HBO, Globoplay e Amazon Prime Video. Ele estima gastar cerca de R$ 150 por mês.


“Eu costumo ter várias assinaturas ao mesmo tempo, porque tem séries, novelas e esportes que estão em canais diferentes”, explica. Ainda assim, já precisou cortar serviços para priorizar os conteúdos de maior interesse: “O preço deu para sentir no bolso. Já deixei dois de fora para conseguir manter os que mais uso".


Assim como Jaqueline, ele também compartilha contas com amigos e familiares, prática que considera vantajosa e que influencia na permanência da assinatura.


Mercado saturado e estratégias do consumidor


O cenário descrito pelos entrevistados revela um comportamento cada vez mais comum: alternar assinaturas conforme lançamentos, dividir planos com familiares ou cancelar serviços temporariamente. A chamada “rotatividade” virou estratégia de economia diante de catálogos fragmentados e reajustes periódicos.


Atualmente, séries, filmes e eventos esportivos estão disponíveis em várias plataformas diferentes, o que faz com que usuários tenham que assinar mais de um serviço ao mesmo tempo (Thiago Gomes/O Liberal)


A expansão do mercado trouxe mais concorrência, mas também dispersou conteúdos exclusivos. Séries, filmes e eventos esportivos passaram a ser distribuídos entre diferentes plataformas, incentivando múltiplas assinaturas simultâneas.


O debate regulatório


Enquanto consumidores fazem contas, o setor enfrenta discussões no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF). O chamado PL do Streaming — Projeto de Lei 2331/2017 — propõe regulamentar os serviços de vídeo sob demanda no Brasil, criando regras para plataformas como Netflix, YouTube e Amazon Prime Video.


Entre os principais pontos estão:


Estabelecimento de cota mínima de conteúdo nacional nos catálogos;

Cobrança da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional);

Ampliação do poder de fiscalização da Ancine.


Paralelamente, há uma disputa tributária envolvendo ISS (municipal) e ICMS (estadual), discutida no STF, sobre qual imposto deve incidir sobre o streaming. Estados defendem que o serviço poderia ser enquadrado como comunicação, o que elevaria a carga tributária.


Em meio a esse embate, a Netflix chegou a atribuir parte da pressão sobre seus resultados financeiros à carga tributária brasileira, em um contexto de discussão sobre tarifas para operar no país. Especialistas avaliam, no entanto, que o Brasil segue tendência internacional ao buscar maior regulação das plataformas digitais, exigindo contrapartidas e participação no financiamento da produção audiovisual nacional.


Entre o bolso e a política


Para o consumidor, a equação é direta: quanto mais plataformas, maior o gasto mensal. Para as empresas, o debate envolve margem de lucro, investimentos e regras do jogo. Enquanto o Congresso discute cotas e tributos, e o STF analisa a incidência de impostos, milhares de brasileiros seguem fazendo malabarismos digitais: cancelam aqui, assinam ali, dividem senhas — tudo para continuar assistindo às séries favoritas sem comprometer o orçamento doméstico.