Entre ameaças e desconfiança, negociações põem à prova compromisso de EUA e Irã com o fim da guerra; Entenda

 

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Cinco dias depois do presidente dos EUA, Donald Trump, sustar uma ameaça existencial contra o Irã e anunciar um cessar-fogo de duas semanas, delegações dos dois países se encontram neste sábado em Islamabad, no Paquistão, em busca de um acordo que leve ao fim do conflito. O caminho não poderia ser mais acidentado: há divergências sobre os termos que nortearão as conversas, um impasse sobre a inclusão do Líbano, além de demandas complexas, de lado a lado.

— Estamos ansiosos pela negociação. Acho que será positiva. Veremos, é claro — disse na sexta-feira o vice-presidente americano, JD Vance, que lidera a delegação do país em Islamabad, acrescentando ter recebido “diretrizes bastante claras” de Trump. — Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa fé, certamente estaremos dispostos a estender a mão, isso é um fato. Se eles tentarem nos enganar, descobrirão que a equipe de negociação não está tão receptiva.

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O primeiro desafio, talvez o maior deles, será entender o que está à mesa.

Quando Trump anunciou a pausa após 39 dias de combates, ele mencionou que um plano de 10 pontos, atribuído aos iranianos, nortearia as conversas. Mas o discurso começou a mudar quando Teerã divulgou detalhes da proposta, e quando alguns comentaristas, políticos e até rivais sugeriram que sua aceitação favorecia Teerã.

“O simples fato de Trump ter concordado em discutir um plano de 10 pontos já representa uma vitória para os iranianos”, escreveu o ex-presidente russo Dmitry Medvedev, na quarta-feira, em sua conta no Telegram (aplicativo proibido na Rússia).

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Além do fim dos ataques ao país, o regime exige manter o controle sobre o Estreito de Ormuz (ainda fechado), a retirada militar dos EUA do Oriente Médio, a liberação de bens congelados no exterior e, ao menos na versão original, em persa, o reconhecimento do direito ao enriquecimento de urânio — quando lançou a guerra, o republicano prometeu que o Irã não desenvolveria mais atividades nucleares. Trump e assessores rapidamente foram a público alegar que as demandas não eram as mesmas apresentadas pelos iranianos.

“Há apenas um grupo de ‘PONTOS’ relevantes que são aceitáveis ​​para os Estados Unidos, e nós os discutiremos a portas fechadas durante essas negociações”, disse Trump, na tarde de quarta-feira, em sua rede social, o Truth Social. “Esses são os PONTOS que servem de base para o acordo de cessar-fogo.”

Duas semanas antes da trégua, os EUA enviaram uma proposta de 15 pontos aos iranianos, centrada no fim do enriquecimento de urânio, nos limites aos arsenais de mísseis balísticos, na reabertura do Estreito de Ormuz e no fim das alianças com milícias regionais. À ocasião, um representante de Teerã disse à rede al-Jazeera que a proposta era “maximalista” e “não era bonita sequer no papel”.

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Talvez leve décadas até que se descubra quem estava com a razão — ou que ninguém a tinha em mãos —, mas os negociadores em Islamabad neste sábado têm pressa para resolver dois pontos que põem o cessar-fogo em risco a curtíssimo prazo.

A começar pelo Líbano. Irã e o governo paquistanês afirmam que a trégua inclui o conflito contra o Hezbollah, iniciado no começo de março, mas Israel e os EUA não concordam. Um dia depois da pausa nos ataques ao Irã, os israelenses lançaram um ataque de grande porte que deixou mais de 300 mortos, atingindo áreas onde o grupo político-militar não atua diretamente. Em resposta, os iranianos voltaram a suspender a passagem por Ormuz e ameaçaram retomar os bombardeios. Diante da iminência do fracasso da trégua, Trump disse ter pedido a Israel que aja “mais discretamente”.

— O alcance do cessar-fogo, incluindo ou não o Líbano, não foi acordado por escrito, e essa ambiguidade está agora causando exatamente o problema sobre o qual alertamos — disse um funcionário do Departamento de Estado, em condição de anonimato, à rede iraquiana al-Hurra, financiada pelos EUA. — Não estou otimista, mas a alternativa é uma guerra sem fim. E não assinaremos nada que nos prenda a uma estrutura que a Guarda Revolucionária Islâmica possa revogar na manhã seguinte.

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Outro impasse, surgido horas antes das conversas, foi anunciado pelo principal representante iraniano no Paquistão, o conservador presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. Em publicação na rede social X (proibida no Irã), disse que não conversaria sem uma sinalização sobre o Líbano e se os EUA não liberarem os “ativos bloqueados do Irã”, um dos itens do plano de 10 pontos.

Estima-se que Teerã tenha US$ 100 bilhões em bens e depósitos no exterior — ao menos US$ 2 bilhões estariam nos EUA. Em 2023, Trump chamou a liberação de US$ 6 bilhões em bens iranianos feita pelo então presidente Joe Biden, como parte das negociações para a libertação de reféns, de “dinheiro de resgate”. Posteriormente, afirmou, sem evidências, que o dinheiro ajudou a financiar os ataques do Hamas contra Israel em outubro daquele ano.

Embora Vance — potencial candidato à sucessão em 2028 — tenha embarcado para o Paquistão expressando confiança, o presidente usou a sexta-feira para despejar falas bélicas. Ao New York Post, disse que retomará a guerra se um acordo não for atingido, e que está “ carregando os navios com a melhor munição, as melhores armas já fabricadas”. No Truth Social, acusou o Irã de ser “melhor em lidar com a mídia de notícias falsas e em "relações públicas" do que em lutar”.

O tom agressivo soou como resposta indireta aos que o acusaram de, mais uma vez, recuar no último momento, prática que tem sigla própria, “Taco”, ou “Trump sempre amarela”.

“Os iranianos parecem não perceber que não têm outras cartas na manga, além de uma extorsão de curto prazo contra o mundo através do uso das vias navegáveis ​​internacionais. A única razão pela qual ainda estão vivos hoje é para negociar!”, escreveu o presidente, ao fim de mais uma sequência raivosa de publicações.

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Na segunda-feira, quando Trump afirmou que “uma civilização pode morrer”, se referindo ao Irã, horas antes do ultimato para a reabertura do Estreito de Ormuz expirar, os iranianos não cederam publicamente à ameaça. Agora, com a sensação de que obtiveram uma vitória inicial ao garantir as conversas, a disposição para capitular é ainda menor. A Guarda Revolucionária repete que “o dedo está no gatilho” e que assim continuará. A imprensa oficial evitou dar destaque às conversas em Islamabad, e um editorial da rede estatal Press TV declara que o país caminha para ser uma “potência global”.

A percepção de que os EUA enganaram Teerã nas últimas duas tentativas de negociação, ambas interrompidas por ofensivas militares, eleva a pressão sobre os negociadores, que terão menos margem para oferecer concessões que possam ser interpretadas internamente como derrotas.

— Esta fase de negociações é crucial para alcançarmos um cessar-fogo permanente — disse, em pronunciamento, o premier paquistanês, Shehbaz Sharif, que media o diálogo. — Está tudo nas mãos de Deus.