Desde a redemocratização, a inflação tem sido um fator relevante nas disputas pela reeleição presidencial. Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil registrou picos inflacionários significativos em 2021 e 2022, especialmente nos preços de combustíveis, alimentos e energia. Apesar do aumento nas transferências emergenciais e dos cortes de impostos sobre combustíveis realizados antes das eleições de 2022, a avaliação do eleitorado sobre o desempenho econômico do governo de Jair Bolsonaro contribuiu para sua derrota nas urnas. Bolsonaro foi o primeiro presidente brasileiro a perder uma disputa pela reeleição desde que a reeleição consecutiva foi autorizada, em 1997. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas Em 2026, a inflação e o poder de compra estão no centro dos debates como fatores-chave na avaliação dos eleitores sobre a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Não há dúvidas de que a inflação está menor do que há quatro anos. Enquanto a inflação acumulada (IPCA) foi de cerca de 27% durante o governo de Jair Bolsonaro, com a alimentação subindo mais de 46%, no terceiro mandato de Lula ela foi de cerca de 14% nos três primeiros anos (2023–2025), com alta de 12% na alimentação. Os dados também mostram um aumento significativo no poder de compra. De acordo com estimativas de Marcos Dantas Hecksher a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), durante o governo Bolsonaro (2019–2022), o poder de compra médio caiu 1,4% ao ano, como mostra a Figura 1. Já no governo Lula 3 (2023–2025), houve um crescimento médio de 5,4% no poder de compra. Em resumo, houve recuperação e expansão do poder de compra em todos os setores da economia e entre as diferentes modalidades de trabalho durante o governo de Lula 3. Em contraste, durante a gestão de Bolsonaro, houve quedas na maioria desses grupos. Figura 1: Variação do poder de compra considerando o tipo de emprego nos governos Bolsonaro e Lula
Fonte: Estimativas de Marcos Dantas Hecksher utilizando dados do IBGE Como explicar que, mesmo em um contexto econômico favorável, Lula esteja atrás na disputa pela reeleição e com taxas de aprovação próximas ao que Jair Bolsonaro teve no mesmo período? Mesmo que a inflação esteja melhor e o poder de compra tenha aumentado em relação à gestão anterior, a avaliação do governo é condicionada às expectativas dos eleitores sobre a economia. E, mais importante, as expectativas do eleitorado são dinâmicas e mudam ao longo do tempo. Para compreender este ponto, vamos analisar brevemente as expectativas de inflação no ano eleitoral de 2022, quando Jair Bolsonaro disputava a reeleição contra Lula, e compará-las às do período atual. Como o Indicador de Expectativa de Inflação do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV IBRE) mede a inflação esperada para os 12 meses seguintes, a Figura 2 apresenta lado a lado esse indicador e o IPCA acumulado em 12 meses. Em 2022, a inflação acumulada em 12 meses atingiu 12,1% em abril e caiu para 6,5% em outubro, mês do primeiro turno, após três meses consecutivos de deflação (julho a setembro), associados aos cortes de impostos sobre combustíveis e energia. As expectativas dos consumidores, por sua vez, subiram de 9,9% em janeiro para 11,4% em julho e só começaram a recuar em agosto, chegando a 9,3% em outubro, quase 3 pontos percentuais acima da inflação observada. Em síntese, embora a inflação tenha desacelerado mais rapidamente no último ano do governo Bolsonaro, as expectativas dos consumidores não acompanharam a velocidade dessa queda. Em 2026, ao contrário, tanto a inflação quanto as expectativas têm se mantido relativamente estáveis. O IPCA acumulado em 12 meses oscilou entre 3,8% e 4,7% e estava em 4,6% em setembro. Já o indicador de expectativas permaneceu entre 5,2% e 6,2% e estava em 5,7% em setembro, o mesmo nível de janeiro. Entre janeiro e setembro, a variabilidade das expectativas em 2026 foi menos da metade da observada em 2022 (desvio padrão de 0,26 p.p., contra 0,59 p.p.). Ainda assim, as expectativas ficaram acima da inflação observada em todos os meses do ano, em 1 a 2 pontos percentuais. Figura 2: Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo e Indicador de Expectativa de Inflação nos governos Bolsonaro e Lula
Quais são os motivos para a desaceleração da inflação ser mais lenta durante o governo Lula 3? Em parte, isso se deve à política monetária. Enquanto o Banco Central iniciou um ciclo agressivo de alta da Selic (de 2% a 13,75%) no governo Bolsonaro para conter choques pós-pandemia que levaram o IPCA a superar 12% ao ano, a autoridade monetária optou por manter a taxa em patamares restritivos (entre 10,5% e 15%) de 2023 a 2026. Isso ajuda a explicar por que, a despeito do recuo, a inflação brasileira tem demorado mais para ceder do que a de outros países durante esse mesmo período. Em trabalhos anteriores, temos argumentado que, na ausência de choques externos significativos, o desempenho econômico influencia a aprovação e o voto dos presidentes incumbentes no Brasil. A comparação dos dois mandatos, porém, mostra que o desempenho que pesa não é apenas o observado (como evidencia a Figura 2). No governo Bolsonaro, as expectativas dos consumidores subiram e caíram junto com o IPCA, ainda que com defasagem, e ficaram, em média, apenas 0,6 ponto percentual acima da inflação observada. No terceiro mandato de Lula, essa distância mais que triplicou: com o IPCA oscilando entre 3% e 6% ao ano, os consumidores esperaram, em média, uma inflação 2,1 pontos percentuais acima da inflação observada. Nossos dados não permitem identificar a causa dessa distância, mas ela sugere que, para o eleitor, a inflação que pesa não é apenas a medida pelo IBGE, mas também a que ele espera enfrentar. Há vários motivos pelos quais estes achados são importantes. Primeiro, mesmo quando o IPCA recua em determinados meses, a percepção dos consumidores sobre a trajetória da economia pode não mudar na mesma medida. Segundo, os estudos reforçam que aumentos no IPCA não prejudicam todos os brasileiros igualmente: seus impactos variam conforme a faixa de renda. Figura 3: IPCA, Índice de Expectativa de Inflação e Agregador de Aprovação do JOTA durante os governos Bolsonaro e Lula
A ciência política também aponta um fator importante: o alinhamento partidário atua como filtro na avaliação econômica. Eleitores da oposição tendem a avaliar o cenário econômico de forma significativamente mais pessimista, limitando o teto de aprovação do incumbente, mesmo em períodos de expansão do PIB e do emprego. No caso do Brasil, os dados reforçam isto. Como não há microdados disponíveis para 2026, voltamos à disputa de 2022. Há diferenças importantes nas expectativas sobre a inflação dependendo do candidato que os entrevistados indicam ter a intenção de apoiar. Com base na pesquisa nacional do Datafolha realizada em junho de 2022 (2.556 entrevistas, microdados do CESOP/Unicamp ponderados pelo peso amostral do instituto), apenas 24% dos eleitores que têm o PL como partido de preferência esperavam que a inflação aumentasse dali em diante, e 42% esperavam que ela diminuísse. Entre os simpatizantes do PT, 67% esperavam uma alta da inflação. O padrão se repete ao comparar as intenções de voto: 50% dos eleitores de Bolsonaro no segundo turno esperavam alta da inflação, contra 68% dos eleitores de Lula. Essa diferença, de cerca de 19 pontos, entre os grupos se mantém mesmo após controlar por escolaridade, renda, região, sexo, idade e recebimento do Auxílio Brasil. Os eleitores ainda sem candidato definido reforçam esse padrão. Entre os que pretendiam votar em branco, anular ou ainda não sabiam em quem votar no segundo turno (cerca de 10% do eleitorado), 79% esperavam que a inflação aumentasse e 52% que o poder de compra dos salários caísse. São parcelas superiores às observadas entre os eleitores de Lula (68% e 37%) e muito superiores às dos eleitores de Bolsonaro (50% e 26%). Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email À luz desse quadro, o debate eleitoral de 2026 deve se voltar à consolidação econômica que se impõe para o próximo ciclo. Marcado por um histórico de perda do poder de compra, o eleitor reconhece a importância da estabilidade das contas públicas. Ao mesmo tempo que esse eleitorado exige responsabilidade fiscal, ele o busca sem abrir mão da proteção social. Cabe aos candidatos demonstrar quem tem a melhor capacidade de conduzir os ajustes econômicos necessários preservando o bem-estar da população. A eleição de 2026 deve, portanto, transformar a responsabilidade fiscal em um contrato social transparente e chancelado pelo voto.
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