Entidades brasileiras negam parceria militar secreta com a China, citada em documento do Congresso americano

 

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Um relatório do Comitê do Congresso dos EUA sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês, publicado na semana passada, afirma que a China manteria suposta presença militar secreta no Brasil, por meio de parcerias com empresas e universidades brasileiras. Procurados, os brasileiros negaram a suposta relação com finalidade militar ou de vigilância sobre os EUA.

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O comitê é formado por congressistas dos partidos Republicano, de Donald Trump, e Democrata. Na semana passada, o grupo publicou o relatório "China no nosso quintal: empurrando a América Latina para a órbita da China", com casos no Brasil, na Venezuela, na Bolívia, no Chile e na Argentina.

Os dois casos brasileiros trazem poucos detalhes e se limitam a mencionar acordos comerciais e memorandos de entendimentos de cooperação técnica e científica.

O primeiro se trata da suposta Estação Terrestre Tucano, na Bahia, criada em conjunto pela startup brasileira Ayla Nanosatellites, de monitoramento de imagens por satélite, e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology. Os congressistas citam que a chinesa é afiliada tanto à Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (China Academy of Space Technology) quanto à Corporação de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China (China Aerospace Science and Technology Corporation).

Segundo publicações coletadas pelo comitê, a parceria visava ao fornecimento de dados sobre voos espaciais tripulados e satélites de reconhecimento. Do lado da Ayla, a estação vai servir para sua constelação de 216 satélites a serem lançados em órbita, para observação da Terra. O empreendimento ainda está em fase de pesquisa, conforme esclareceu a empresa.

Além da parceria com a empresa chinesa, o comitê cita que a empresa firmou um memorando de entendimento com a Força Aérea Brasileira, o que incluiria treinamento de pessoal e o uso de antenas da Força Aérea. Para os congressistas, essa integração "oferece à República Popular da China (RPC) um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira, ao mesmo tempo em que estabelece uma presença permanente em uma região vital para a segurança nacional dos Estados Unidos".

Segundo o comitê, nesse cenário, o Partido Comunista Chinês "poderia desenvolver uma capacidade de alta vigilância, capaz de identificar ativos militares camuflados e rastrear objetos espaciais estrangeiros em tempo real".

Em nota publicada pelo site Bahia Notícias, a CEO e fundadora da empresa brasileira, Aila Raquel Cruz, negou a suposta associação secreta.

"As interpretações que associam a empresa a atividades secretas de vigilância estratégica ou aplicações militares não refletem sua atuação. A Alya Space opera sob princípios estritamente civis, comerciais e alinhados às legislações nacionais e internacionais aplicáveis", explicou Aila, colocando a empresa à disposição das autoridades.

A CEO ainda esclareceu que participa de iniciativas internacionais "voltadas ao uso sustentável do espaço e à cooperação tecnológica global" e reforçou que a empresa "conduz seus processos em estrita observância às legislações brasileiras e internacionais aplicáveis, atuando junto à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para licenciamento de radiofrequências e coordenação internacional junto à União Internacional de Telecomunicações (UIT)".

Parceria científica com universidades da Paraíba

O segundo caso citado pelo comitê é o do Laboratório Conjunto China-Brasil de Tecnologia em Radioastronomia, em um acordo entre a China Electric Science and Technology Network Communication Research Institute (CESTNCRI) e as universidades federais da Paraíba (UFPB) e de Campina Grande (UFCG).

O acordo formalizou a colaboração bilateral em pesquisa avançada em radioastronomia, tecnologias de observação do espaço profundo e planejamento de projetos científicos de grande escala. Mas, segundo o comitê americano, "as aplicações tecnológicas mais amplas desses sistemas de observação do espaço profundo podem ter capacidades de uso para inteligência militar, consciência situacional espacial (SSA) e rastreamento de alvos não cooperativos".

O laboratório se baseia no projeto Bayron Acoustic Oscillation in Neutral Gas Observations (BINGO), para construir um telescópio especial para detecção de gás neutro a ser usado na Serra do Urubu, em Pernambuco. O projeto tem ainda contribuições de instituições de pesquisa da África do Sul, Reino Unido, Suíça e França.

Procurada, a UFPB disse que "desconhece a existência de bases militares secretas chinesas",  confirmou uma "assinatura de acordo e memorandos de entendimento com instituições da China no sentido de viabilizar uma cooperação científica internacional". A parceria, esclareceu, ainda está em fase inicial e sequer tem projeto em execução no momento.