Entenda por que cientistas deram cocaína a salmões — e os riscos da poluição para a vida aquática

 

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Cientistas implantaram dispositivos que liberavam cocaína e substâncias derivadas da droga em salmões juvenis para investigar um problema crescente nos rios e lagos do mundo: a contaminação da água por resíduos de entorpecentes descartados no esgoto. O resultado repercutiu após a publicação da pesquisa em 20 de abril, chamando a atenção pela reação dos peixes ao principal metabólito do entorpecente: eles nadaram até 1,9 vez mais por semana e se afastaram mais do ponto de soltura do que os animais não contaminados.

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A pesquisa, publicada na revista Current Biology, acompanhou 105 salmões do Atlântico em um lago natural na Suécia, o Vättern. Os animais receberam implantes de liberação lenta com cocaína, com benzilecgonina — principal produto da decomposição da droga no organismo e no ambiente, como é encontrado em águas poluídas — ou com nenhuma substância, no caso do grupo de controle. Depois, foram monitorados por telemetria acústica durante oito semanas.

Segundo os pesquisadores, o objetivo não era “drogar” os peixes de forma artificial, mas sim simular a exposição contínua a compostos que já têm sido detectados em ambientes aquáticos, principalmente em regiões urbanas abastecidas por sistemas de esgoto insuficientes para remover contaminantes químicos.

Pesquisador segura cápsulas de liberação lenta — algumas contendo cocaína, outras com um composto gerado quando o organismo metaboliza a droga — do tipo implantado em dezenas de salmões de 2 anos

Jörgen Wiklund via The New York Times

Os dados mostraram que a benzilecgonina provocou efeitos ainda maiores do que a própria cocaína. Os salmões expostos ao metabólito se deslocaram até 12,3 quilômetros a mais do que os peixes não expostos, ampliando sua área de circulação no lago.

Impactos ambientais

Para os cientistas, essa mudança de comportamento pode trazer impactos ecológicos relevantes. Ao gastar mais energia nadando e se deslocando para áreas incomuns, os peixes podem encontrar habitats inadequados, ficar mais vulneráveis a predadores e comprometer o crescimento e a alimentação.

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A bióloga Rachel Ann Hauser-Davis, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que não participou do estudo, mas lidera pesquisas semelhantes no Brasil, avaliou que a pesquisa representa um avanço importante por mostrar efeitos em ambiente natural, e não apenas em laboratório. Ela ponderou, porém, que o uso de implantes de liberação lenta não reproduz perfeitamente a forma como a contaminação ocorre na natureza.

Os autores alertam que o problema pode atingir outras espécies aquáticas. Estudos anteriores, como o da Fiocruz, já identificaram efeitos de drogas ilícitas e medicamentos em enguias, crustáceos e até tubarões. A conclusão é que resíduos humanos lançados nos cursos d’água podem alterar cadeias alimentares e dinâmicas populacionais de forma ainda pouco compreendida.

Além da poluição química, o salmão do Atlântico já enfrenta pressões como mudanças climáticas, perda de habitat e barragens. Para os pesquisadores, a contaminação por cocaína e seus derivados pode se somar a esses fatores e agravar a situação da espécie.