Entenda ligação de Vorcaro com bicheiros e como ele cooptou agentes da Polícia Federal no Rio

 

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As investigações da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que prendeu o pai de Daniel Vorcaro nesta quinta-feira (14), identificaram uma ligação da organização atribuída ao banqueiro com operadores do jogo do bicho no Rio de Janeiro. A apuração ainda apontou o uso de policiais federais do Rio para obtenção de informações sigilosas e ações de intimidação em Angra dos Reis. Os detalhes constam em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a que a CBN teve acesso.

Segundo a PF, a organização criminosa investigada possuía dois braços operacionais: um núcleo presencial, chamado “A Turma”, voltado a ameaças, monitoramento e obtenção de dados sigilosos, e outro tecnológico, conhecido como “Os Meninos”, responsável por ataques cibernéticos, invasões telemáticas e monitoramento digital ilegal.

As investigações apontam que o braço no Rio de Janeiro da organização era liderado por Manoel Mendes Rodrigues, descrito no documento como “operador do jogo do bicho” no estado. A PF afirma que ele comandava um grupo local ligado ao núcleo “A Turma”, composto por pessoas ainda não identificadas e possivelmente formado por operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais.

De acordo com a decisão, esse grupo teria sido usado em ações de intimidação física contra desafetos de Vorcaro. Um dos episódios citados ocorreu em Angra dos Reis, em junho de 2024. Segundo a PF, integrantes da organização foram até a Marina Bracuhy ameaçar o comandante de embarcação Luis Felipe Woyceichoski e depois seguiram para o Hotel Nacional Inn para intimidar o ex-chefe de cozinha Leandro Garcia.

As investigações apontam que, antes das abordagens, houve levantamento de dados pessoais e familiares das vítimas, além de discussões internas sobre monitoramento e acompanhamento dos alvos. Testemunhas relataram a presença de um homem identificado como Manoel, apontado como ligado ao jogo do bicho e próximo de Vorcaro.

A decisão do STF também detalha o suposto uso da estrutura da Polícia Federal no Rio em favor da organização. Um dos investigados é Anderson Wander da Silva Lima, agente da PF da ativa lotado na Superintendência Regional da corporação no Rio. Segundo a investigação, ele realizava consultas indevidas em sistemas internos da PF e repassava informações reservadas ao policial aposentado Marilso Ronseno da Silva, apontado como líder operacional do núcleo “A Turma”.

A PF afirma que Anderson atuava como uma espécie de ligação interna do grupo dentro da corporação e tinha acesso privilegiado a bancos de dados sigilosos.

Outro nome citado é o de Sebastião Monteiro Júnior, policial federal aposentado apontado como integrante do núcleo investigado. Segundo a decisão, ele participava das articulações do braço presencial e policial-informacional da organização.

Também são investigados Francisco José Pereira da Silva, agente aposentado da PF, e a delegada federal Valéria Vieira Pereira da Silva, esses de Minas Gerais. A Polícia Federal afirma que os dois teriam realizado consultas indevidas ao sistema e-Pol e repassado informações sigilosas ao grupo criminoso.

Segundo a decisão, a organização buscava acessar detalhes de investigações em andamento envolvendo integrantes do grupo. Em um dos episódios citados, Marilson Roseno teria acionado policiais para obter informações sobre um inquérito que envolvia Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.

A PF afirma ainda que o esquema continuou operando mesmo após as primeiras fases ostensivas da Operação Compliance Zero, com manutenção de pagamentos, reuniões e troca constante de mensagens entre os investigados.

A CBN procurou a Polícia Federal para uma posição sobre o uso dos servidores e do sistema no Rio e aguarda retorno.

O que diz a defesa de Henrique Vorcaro

A defesa de Henrique Vorcaro, representada pelo advogado Eugênio Pacelli, disse que operação realizada hoje foi baseada em fatos que ainda não tiveram sua legalidade comprovada no processo, e também ainda não foi demonstrada que ela tinha um motivo econômico legítimo.

Segundo a nota, essas informações ainda não foram solicitados à defesa e nem a Henrique Vorcaro.

Ainda de acordo com o advogado Eugênio Pacelli, o ideal seria ouvir as explicações antes de medida de prisão, considerada por ele grave e desnecessária. Ele também disse que a defesa cuidará para demonstrar o que essa nota tem a dizer.