Entenda como Chernobyl e a fronteira entre as Coreias viraram refúgios para mais de 6 mil espécies selvagens
Ao imaginar grandes refúgios naturais, é comum que nomes como a Floresta Amazônica ou o Parque Nacional de Yellowstone venham à mente. No entanto, dois territórios marcados por tragédias e tensões políticas vêm desafiando essa lógica. A área ao redor da Zona de Exclusão de Chernobyl e a Zona Desmilitarizada da Coreia se transformaram, ao longo das décadas, em espaços onde a vida selvagem encontrou condições inesperadas para florescer.
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Quatro décadas após o acidente nuclear de 1986 e mais de 70 anos depois do armistício que dividiu a península coreana, esses locais compartilham um elemento central. A ausência humana prolongada. O que antes simbolizava risco e conflito passou a revelar um cenário que intriga cientistas e ambientalistas.
Na península coreana, a criação da faixa desmilitarizada em 1953 interrompeu completamente a circulação entre norte e sul. Com cerca de 248 quilômetros de extensão e quatro de largura, a área permanece altamente vigiada e repleta de minas terrestres. Ainda assim, essa barreira não se aplica à fauna e à flora.
Dados do Instituto Nacional de Ecologia da Coreia do Sul indicam que mais de 6 mil espécies ocupam o território, incluindo cerca de 38 por cento das espécies ameaçadas da península. Ao longo de décadas sem interferência humana direta, espécies raras passaram a habitar a região, além de plantas que só existem naquele ecossistema.
Sabe-se que cabras-monteses vivem na DMZ (Zona Desmilitarizada)
Reprodução/National Geographic
Seung-ho Lee, presidente do DMZ Forum, afirmou em entrevista à BBC que o isolamento acabou favorecendo o equilíbrio ambiental. — A natureza recuperou seu território e diversas espécies passaram a circular com mais liberdade enquanto a presença humana praticamente desapareceu —afirmou. Ele também ressaltou que aves como os grous utilizam a região como ponto estratégico e se deslocam por diferentes partes do mundo, acrescentou.
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Esse tipo de transformação não se limita à Ásia. Em Chernobyl, a explosão do reator em 1986 espalhou material radioativo por milhares de quilômetros e levou à retirada em massa da população. A área, que hoje soma cerca de 4 mil quilômetros quadrados, permanece desabitada e sob monitoramento constante.
Nos primeiros anos, os impactos ambientais foram intensos, com destaque para a chamada Floresta Vermelha, onde árvores morreram após absorver altos níveis de radiação. Com o passar do tempo, no entanto, os níveis mais críticos diminuíram, abrindo espaço para uma recuperação gradual da biodiversidade.
Cavalos-de-przewalski selvagens, espécie ameaçada de extinção nativa da Ásia, que prospera em áreas contaminadas por radioatividade, vagueiam perto de uma estrada florestal na zona de Chernobyl em 23 de abril de 2026
AFP
Jim Smith, professor da Universidade de Portsmouth, explicou à BBC que o cenário atual é marcado por uma radiação persistente, porém mais baixa. — As doses caíram rapidamente após o acidente e o que permanece é uma exposição contínua em níveis reduzidos ao longo das décadas — relatou. Segundo ele, isso impede a ocupação humana prolongada, mas não bloqueia o avanço de outras formas de vida, observou.
O pesquisador destacou que a diversidade biológica surpreende até especialistas. “A vida selvagem prospera e a região apresenta hoje uma abundância maior do que antes do desastre”, avaliou. Estudos com peixes e insetos aquáticos apontam que áreas mais contaminadas mantêm níveis semelhantes de diversidade quando comparadas a regiões menos afetadas, detalhou.
Entre os mamíferos, o padrão se repete, com exceção de um caso específico. — As populações são semelhantes entre diferentes áreas, mas os lobos aparecem em número muito mais elevado dentro da zona de exclusão — indicou.
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Para Germán Orizaola, da Universidade de Oviedo, a explicação está diretamente ligada à ausência de atividade humana. Em entrevista à BBC, ele destacou que o ambiente oferece condições raras para a fauna. — Trata-se de um espaço amplo, sem ruídos, luz artificial ou exploração econômica, o que favorece o desenvolvimento das espécies — explicou. Ele ainda reforçou que a pressão exercida por atividades humanas tende a ser mais prejudicial do que desastres pontuais.
Muitas plantas e animais vivem nas proximidades do reator nuclear de Chernobyl, que aparece aqui coberto pela estrutura de contenção de segurança
Germán Orizaola/Universidade de Oviedo
Smith segue a mesma linha ao apontar que a ocupação humana é o principal fator de degradação ambiental. — A presença humana representa o impacto mais significativo sobre os ecossistemas, enquanto outros elementos acabam tendo efeito secundário — comentou.
A experiência dessas áreas levanta questionamentos sobre modelos tradicionais de conservação. Orizaola observa que muitas reservas naturais convivem com turismo e exploração, o que reduz sua eficácia. — Se o objetivo é preservar, a estratégia mais eficiente continua sendo diminuir a interferência humana e permitir que os ecossistemas sigam seu curso — concluiu.
As entrevistas citadas foram concedidas à BBC. O texto original é de Daisy Stephens.
