Entenda como Bad Bunny se tornou um dos maiores opositores de Donald Trump nos EUA
Qualquer fã de Bad Bunny que se preze sabe que sempre há mais coisa — muita coisa — por trás da música do cantor porto-riquenho. Além da presença de palco elegante e dos ritmos latinos cheios de energia, o astro do reggaeton vencedor do Grammy — que foi a atração principal do show do intervalo do Super Bowl no último domingo (8) — ofereceu ao público uma série de easter eggs (como se diz, em inglês, acerca das "referências ocultas" ou "mensagens escondidas" numa obra artística) que remetem à sua herança latina, à complexa história política de Porto Rico. Tudo isso ajuda a explicar por que o artista se tornou um dos mais contundentes opositores de Donald Trump na cultura pop.
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Recusa: Após sucesso de Bad Bunny no Super Bowl, Trump critica apresentação: 'Afronta à grandeza americana'
A apresentação no intervalo do Super Bowl funcionou como uma espécie de manifesto estético e político. Ao transformar o maior palco da cultura pop americana numa vitrine da identidade porto-riquenha, Bad Bunny reafirmou um discurso que atravessa sua carreira: o de resistência cultural diante do colonialismo, da gentrificação e da marginalização histórica da ilha. Estão aí temas que o colocam, inevitavelmente, em rota de colisão com Donald Trump.
Desde os primeiros minutos do show, o cantor deixou claro que o espetáculo não seria apenas uma sequência de hits. O cenário que remetia aos canaviais de Porto Rico, os dançarinos caracterizados como trabalhadores rurais e o uso do tradicional "chapéu pava" — símbolo ligado ao campesinato e à identidade jíbara (como é chamado o campesinato porto-riquenho) — funcionaram como um retorno às origens e uma afirmação de pertencimento. Não por acaso, o acessório já havia sido ressignificado por Bad Bunny no Met Gala de 2025, quando apareceu com uma versão estilizada combinada a um terno de grife.
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A cultura cotidiana da ilha também ganhou protagonismo na apresentação do Super Bowl. Carrinhos de coco e de "piraguas" — sobremesa típica feita de gelo raspado — surgiram como parte do cenário durante "Titi me preguntó", reforçando a ideia de que a identidade porto-riquenha vai muito além do exotismo frequentemente vendido ao mercado internacional. São detalhes que, para o público mais atento, funcionam como easter eggs carregados de significado político.
Artista mais ouvido no mundo em 2025, de acordo com a plataforma Spotify, o cantor ainda fez questão de se colocar dentro de uma linhagem histórica do reggaeton. Ao homenagear Daddy Yankee, Tego Calderón e Don Omar, Bad Bunny lembrou que o gênero nasceu nos bairros populares de Porto Rico e se tornou uma das maiores exportações culturais da ilha. "Vocês estão ouvindo música de Porto Rico. Dos bairros e das comunidades", disse, em espanhol, antes de entoar um trecho de "Gasolina", clássico que ajudou a popularizar o ritmo nos anos 2000.
O cantor Bad Bunny no show de intervalo do Super Bowl no Levi's Stadium
Thearon W. Henderson/AFP
A narrativa política se intensificou quando o show passou a abordar diretamente a relação de Porto Rico com os Estados Unidos. Em "Lo que le pasó a Hawaii", interpretada por Ricky Martin, Bad Bunny evocou o medo de que a ilha siga o mesmo caminho do arquipélago americano, marcado pela perda de autonomia e pela gentrificação. A letra fala de rios privatizados, praias tomadas e da expulsão simbólica — e literal — de moradores locais, num recado claro contra políticas que favorecem interesses externos.
Outro momento emblemático veio com "El apagón", música que denuncia os problemas crônicos do sistema elétrico porto-riquenho. No palco, fios falsos explodiam enquanto o cantor empunhava uma bandeira de Porto Rico com o triângulo azul-claro — tonalidade frequentemente associada à soberania e à independência política da ilha. O gesto reforçou a dimensão simbólica do espetáculo: não se tratava apenas de entretenimento, mas de posicionamento.
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Esse engajamento ajuda a explicar por que Bad Bunny se tornou uma das vozes mais contundentes contra Donald Trump no universo pop. Durante o primeiro mandato do republicano, o artista criticou duramente a resposta do então presidente à devastação causada pelo furacão Maria, em 2017, quando Porto Rico enfrentou meses sem energia elétrica e assistência federal adequada. Desde então, o cantor passou a se manifestar com frequência contra o colonialismo, a transfobia e as políticas que afetam diretamente a população da ilha.
Aliás, nunca havia ocorrido um show totalmente em espanhol no Super Bowl — e o presidente Donald Trump, inclusive, achou a escolha "terrível", como disse. Mas não tem jeito: desde que surgiu, há exatos dez anos, com o trap "Diles", Bad Bunny manteve-se fiel à língua oficial do país onde nasceu e vive até hoje. Uma ilha de pouco mais de três milhões de habitantes, "território não incorporado" dos Estados Unidos a partir do fim da Guerra Hispano-Americana, em 1898. Por esse status, os porto-riquenhos são considerados cidadãos americanos, mas não têm representantes nas casas legislativas estadunidenses, tampouco podem votar para presidente de lá. Uma condição de colônia, sobre a qual Bad Bunny ancora sua produção musical, especialmente nos álbuns Un verano sin ti" (2022) e, ainda mais fortemente, "Debí tirar más fotos".
Em 2019, Bad Bunny interrompeu uma turnê europeia para voltar a Porto Rico e participar dos protestos que levaram à renúncia do governador Ricardo Rosselló. Mais recentemente, no álbum “Debí Tirar Más Fotos” (2025), manteve o ativismo político ao abordar o futuro incerto da ilha em letras, videoclipes e num curta-metragem codirigido por ele, que discute o impacto da gentrificação na economia local e no modo de vida dos moradores.
Para a pesquisadora Petra Rivera-Rideau, professora do Wellesley College e especialista em reggaeton, o posicionamento de Bad Bunny não é oportunista nem performático. "Ele se manifesta sobre essas questões porque é um cidadão preocupado, não porque, como celebridade, sinta que tem a obrigação de fazê-lo", afirmou ao USA Today.
— Ele sempre se posicionou contra injustiças e a favor de causas importantes para ele. Isso não parece impactar seu status de celebridade, o que vai contra muitas expectativas. Presume-se que grandes estrelas tentem evitar controvérsias. Isso só o faz parecer autêntico e identificável pelos fãs ao redor do mundo — ressaltou a especialista, ao GLOBO.
Na montagem, o presidente dos EUA, Donald Trump; e o cantor porto-riquenho Bad Bunny
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS e JOSH EDELSON / AFP
Ao levar esse discurso para o Super Bowl — vitrine máxima da cultura americana —, Bad Bunny deixou claro que sua oposição a Trump não se resume a declarações pontuais, mas está entranhada em sua obra. É um embate travado com música, símbolos e memória histórica — e que transforma o pop em ferramenta política. Trump sentiu o recado.
Diante do sucesso da apresentação e da repercussão sobre a abordagem política do porto-riquenho, o magnata atirou nas redes sociais: "Uma afronta à grandeza americana".
Trump, que optou por não comparecer à popular final do Super Bowl, escreveu em sua conta na rede social Truth Social, imediatamente após a apresentação do artista de reggaeton, que "ninguém entendeu o que esse cara estava dizendo". Em outras redes sociais, no entanto, parece que o público não só entendeu como aderiu em peso ao assunto. No X (antigo Twitter), por exemplo, Bad Bunny está entre os primeiros tópicos mais comentados até esta segunda-feira (9).
