Enquanto São Paulo anuncia 'o maior carnaval do país', blocos reclamam de desfiles acabando às 18h: 'É só o mais curto'

 

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Lideranças dos blocos de São Paulo classificaram as falas do prefeito da cidade, Ricardo Nunes (MDB), criticaram o horário permitido para a festa, já que a prefeitura determina o encerramento dos desfiles às 18h. Nunes minimizou as reclamações de blocos de rua em relação ao edital de fomento à cultura voltado a pequenas concentrações. Dos 627 blocos previstos para desfilar na capital neste carnaval, 100 poderão receber os R$ 2,5 milhões destinados ao programa, o equivalente a R$ 25 mil para cada um.

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— O maior carnaval que acaba às 18 horas não é o maior, é o mais curto — disse Lira Alli, liderança do Arrastão dos Blocos, coletivo que reúne cerca de uma centena de blocos de rua da cidade de São Paulo.

Apesar de as críticas terem chegado ao Executivo, Nunes, criador do programa, afirmou que não há previsão de aumento do valor e defendeu que os blocos adotem um “olhar mais empreendedor” para captar recursos.

— Cada bloco precisa ter suas iniciativas de procurar o seu patrocínio. É isso que a cidade de São Paulo incentiva: que as pessoas tenham esse despertar de empreendedorismo. Ficar acomodado, querendo tudo do governo, não é por aí. Então tem que ter sua parte de buscar o patrocínio — afirmou Nunes durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira. A fala do prefeito foi encarada como uma "piada" pela liderança do Arrastão dos Blocos.

A posição do prefeito foi endossada pelo secretário municipal da Cultura, Totó Parente, que disse respeitar as queixas, mas as classificou como injustas. Segundo o secretário, além do fomento financeiro, a prefeitura já oferece infraestrutura e logística para a realização do evento.

A queda de braço entre a prefeitura e os blocos de rua não é novidade. Organizadores relatam um “sufoco” para angariar recursos, já que, com a institucionalização do carnaval, e o foco da prefeitura nos "megablocos" os pequenos grupos enfrentam dificuldades para firmar parcerias.

— Antes da política pública do carnaval de rua, o bloco ensaiava perto de um bar, e o bar financiava o bloco, junto com os comerciantes locais. Hoje, com a venda do patrocínio oficial da festa para a Ambev, quem revende as cotas é a própria empresa, e os blocos encontram muito mais dificuldade, porque não podem negociar fora — afirmou Alli.

Segundo ela, há ainda entraves para o acesso aos benefícios oferecidos pela prefeitura, principalmente em relação às exigências burocráticas e aos prazos para apresentação da documentação. Neste ano, afirmou, o prazo foi inferior a uma semana.

— Os blocos que mais precisam não conseguiram se cadastrar, porque foram exigidos quase 40 documentos. É mais do que a Lei Rouanet pede. Como um pequeno bloco vai conseguir se organizar em seis dias? — questionou, pontuando que o trabalho realizado por esses pequenos blocos as vezes é o segundo ou terceiro trabalho de uma pessoa.

Na mesma linha, a vice-presidente da União dos Blocos, Bell Xavier, afirmou em nota que o carnaval de rua de São Paulo atingiu um “grau de maturidade” que demanda um debate mais profundo sobre seu modelo de financiamento.

“O chamado ‘espírito empreendedor’ já faz parte do DNA dos blocos. Operamos em um modelo de alto risco para entregar uma festa que movimenta bilhões na economia da cidade e sustenta uma ampla cadeia produtiva. O que defendemos é que o fomento público seja compreendido como investimento estruturante, e não como benefício pontual”, afirmou.

Ao classificar a infraestrutura oferecida pela prefeitura como fundamental para a operação do carnaval, a dirigente ressaltou que o fomento direto é o que viabiliza a produção cultural.

“Atender cerca de 100 agremiações em um universo muito maior de blocos evidencia um gargalo relevante. O desafio é construir mecanismos que ampliem o acesso e garantam sustentabilidade também aos blocos médios e pequenos. O carnaval é uma atividade contínua, com custos permanentes ao longo do ano”, concluiu.