Enquanto os Estados Unidos adotam medidas mais restritivas e caras para parte dos profissionais estrangeiros, a Itália segue uma direção diferente ao ampliar os canais de entrada de trabalhadores de fora da União Europeia. O país europeu prevê 497.550 entradas de estrangeiros para trabalho entre 2026 e 2028, sendo 164.850 somente em 2026, segundo o Decreto Flussi. O contraste ganha relevância em um momento em que uma parcela expressiva dos brasileiros considera viver fora do país: 40% dos entrevistados pelo Observatório Febraban/Ipespe afirmaram que pensam em emigrar. O levantamento, realizado com 3 mil pessoas nas cinco regiões brasileiras entre novembro e dezembro de 2025, mostra ainda que o desejo de deixar o Brasil é mais forte entre as gerações mais jovens. Entre os Millennials, nascidos entre 1981 e 1996, 50% consideram emigrar, enquanto entre a Geração Z, de 1997 a 2012, o percentual chega a 44%. Entre os destinos apontados, os Estados Unidos aparecem em primeiro lugar, com 37%, seguidos por Portugal, com 22%, e Itália, com 12%, colocando o país como a segunda opção europeia mais citada pelos brasileiros que consideram sair do país. O movimento ocorre em um contexto internacional de mudanças nas políticas migratórias. Nos Estados Unidos, uma proclamação presidencial de setembro de 2025 passou a exigir um pagamento de US$100 mil para determinadas novas petições H-1B, visto voltado a trabalhadores estrangeiros em ocupações especializadas. A regra é aplicável, de forma prospectiva, a petições apresentadas a partir de 21 de setembro de 2025, segundo o memorando do U.S. Citizenship and Immigration Services (USCIS). Na Itália, por outro lado, o governo estabeleceu uma política de entrada planejada para trabalhadores estrangeiros. O Decreto Flussi 2026-2028 estabelece 497.550 cotas ao longo de três anos: 164.850 em 2026, 165.850 em 2027 e 166.850 em 2028. As vagas contemplam trabalho subordinado sazonal e não sazonal e trabalho autônomo. "Existe uma mudança importante na forma como o brasileiro precisa olhar para a imigração. Não se trata simplesmente de escolher um país porque ele parece mais atrativo, mas de entender quais mercados estão criando oportunidades, quais são as exigências legais e quais caminhos permitem construir uma vida profissional de forma regular. A Itália aparece nesse cenário justamente porque combina uma demanda concreta por trabalhadores estrangeiros com uma comunidade brasileira e ítalo-brasileira já muito significativa", afirma Welliton Girotto, CEO da Master Cidadania. Itália busca trabalhadores em meio ao envelhecimento populacional A abertura de novas cotas para estrangeiros está diretamente relacionada a um dos principais desafios demográficos da Itália: o envelhecimento da população e a consequente necessidade de reposição da força de trabalho. Segundo o material da Master Cidadania, a estabilidade demográfica recente do país foi sustentada pelo saldo migratório positivo, que compensou o saldo natural negativo. Projeções também apontam para uma redução populacional significativa nas próximas décadas caso as tendências demográficas não sejam compensadas pela imigração. As 497.550 cotas previstas pelo Decreto Flussi são distribuídas entre diferentes modalidades de trabalho e setores da economia italiana. Entre as áreas contempladas estão agricultura, construção civil, turismo e hotelaria, transporte e logística, comércio, serviços domésticos e de cuidado, além de atividades industriais, entre outras. A política não significa, porém, que qualquer estrangeiro possa simplesmente entrar na Itália e começar a trabalhar. As cotas fazem parte de um sistema migratório regulado, no qual o empregador italiano tem papel central no processo de contratação e solicitação da autorização necessária para a entrada do trabalhador. Para brasileiros que possuem ascendência italiana, existe ainda uma possibilidade adicional: a avaliação do direito à cidadania italiana. O reconhecimento da cidadania pode representar uma alternativa distinta do processo migratório tradicional, uma vez que o cidadão italiano possui direitos de circulação e trabalho dentro da União Europeia. Cidadania pode ampliar as possibilidades profissionais O interesse brasileiro pela Itália não está restrito ao mercado de trabalho. A existência de uma grande comunidade de descendentes também ajuda a explicar a procura pelo reconhecimento da cidadania italiana. Dados reunidos pela Master Cidadania apontam que 918.999 cidadãos italianos estão inscritos nos consulados no Brasil, enquanto os pedidos de cidadania por descendência no Consulado-Geral da Itália em Curitiba chegaram a 4.869 em 2024, crescimento de 110,68% em relação ao ano anterior. A cidadania, entretanto, não deve ser confundida com uma autorização automática para exercer qualquer profissão. Para determinadas carreiras regulamentadas, especialmente aquelas que exigem formação específica, pode ser necessário realizar o reconhecimento do diploma e cumprir outras exigências profissionais estabelecidas pelas autoridades italianas. Esse processo ganha importância diante da busca de profissionais brasileiros por oportunidades fora do país. O reconhecimento acadêmico ou profissional da formação pode permitir que uma carreira construída no Brasil seja aproveitada no mercado europeu, desde que sejam cumpridos os requisitos correspondentes à profissão e ao país. "Para quem tem uma profissão consolidada no Brasil, o planejamento precisa ir muito além da documentação. É necessário entender se o diploma será reconhecido, quais registros profissionais serão necessários, qual é a demanda da área na Itália e qual modalidade migratória faz sentido para aquele perfil. A cidadania pode ser uma porta importante, mas ela precisa estar inserida em um planejamento maior de carreira e de vida", explica Girotto. Itália já está entre os destinos mais desejados pelos brasileiros A pesquisa Febraban/Ipespe também ajuda a dimensionar o potencial desse movimento. Embora os Estados Unidos ainda sejam o principal destino mencionado por brasileiros que pensam em emigrar, com 37%, a Itália aparece em terceiro lugar no ranking geral e como segunda opção europeia, atrás apenas de Portugal. O dado indica que a Itália já ocupa espaço relevante no imaginário de quem busca uma alternativa de vida fora do Brasil. Ao mesmo tempo, o país atravessa um processo de transformação demográfica que aumenta a necessidade de mão de obra estrangeira. Na avaliação da Master Cidadania, essa combinação ajuda a explicar por que a Itália pode ganhar espaço entre brasileiros que procuram alternativas internacionais. O movimento, porém, exige planejamento e conhecimento das regras, especialmente porque existem diferenças importantes entre emigrar com uma autorização de trabalho, reconhecer uma cidadania por descendência ou utilizar a formação profissional adquirida no Brasil no mercado europeu. O cenário também reforça uma mudança no perfil da decisão de emigrar. Para parte dos brasileiros, a escolha do destino deixa de ser baseada apenas em fatores como qualidade de vida ou proximidade cultural e passa a considerar elementos econômicos concretos, como empregabilidade, demanda por mão de obra, possibilidade de reconhecimento profissional e segurança jurídica. "Estamos diante de um momento em que o brasileiro precisa olhar para a imigração de maneira mais estratégica. A pergunta deixou de ser apenas 'para onde eu quero ir?' e passou a ser 'onde existem oportunidades compatíveis com o meu perfil e qual é o caminho legal para chegar até elas?'. A Itália tem características que merecem atenção, principalmente para quem possui ascendência italiana, qualificação profissional ou interesse em construir uma trajetória dentro da União Europeia", conclui o CEO da Master Cidadania.
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Enquanto EUA endurecem e encarecem vistos, Itália abre quase 500 mil vagas de trabalho para estrangeiros
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