Enfermeiro diz em depoimento que injeção letal foi para 'diminuir o sofrimento' da vítima
Em depoimento à Polícia Civil do Distrito Federal, o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, apontado como o responsável pela aplicação de substâncias em sobredose que levaram à morte de três pacientes no Hospital Anchieta, em Taguatinga, apresentou versões contraditórias para os crimes. Primeiro, alegou que o hospital estava tumultuado e que isso o deixava nervoso; depois, afirmou que teria agido, supostamente, para “diminuir o sofrimento” das vítimas, versão revelada na terça-feira pelo “Jornal Nacional”, da TV Globo.
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A investigação agora aposta na extração de mensagens dos celulares dos técnicos de enfermagem presos para esclarecer a motivação dos crimes. Além de Marcos, também são investigadas Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos, e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22, que, segundo a polícia, teriam facilitado as ações.
Marcela e Marcos chegaram a admitir os crimes após serem confrontados com gravações de câmeras de segurança. Amanda negou envolvimento, mas, na avaliação da polícia, as imagens obtidas pela investigação confirmam sua participação. Todos foram demitidos do hospital, mas Marcos já se encontrava trabalhando em outra unidade de saúde quando foi preso, na segunda-feira.
— (Vamos analisar os celulares) Para que a gente possa, então, finalizar realmente o que aconteceu com essa última peça do quebra-cabeça, que foi a motivação dessas pessoas terem agido dessa forma — disse à CNN Brasil Maurício Iacozzilli, delegado responsável pela investigação.
Professora e servidores
As vítimas foram identificadas como a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, e os servidores públicos João Clemente Pereira, de 63, e Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33. Eles residiam residiam em Taguatinga, Riacho Fundo e Brazlândia, respectivamente.
Ao portal g1, familiares de João Clemente contaram que ele deu entrada no hospital em 4 de novembro com tonturas. O paciente drenou um coágulo na cabeça, mas enfrentou complicações respiratórias, tendo passado por uma traqueostomia. Passados 13 dias da chegada à unidade, ele morreu na UTI após uma parada cardíaca.
— Todo mundo achou estranho porque ele entrou com um problema na cabeça, não era nada no coração. Ele fazia acompanhamento médico, então a gente sabia que não tinha nada que justificasse uma parada cardíaca — disse um parente ao site.
O Hospital Anchieta de Taguatinga informou que instaurou, “por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência”, um comitê interno de análise que “conduziu investigação célere e rigorosa”. Segundo a nota, a apuração “em menos de 20 dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes”.
A unidade médica acrescentou que entrou em contato com as famílias das vítimas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. AInda de acordo com o hospital, o caso tramita em segredo de Justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais.
Busca por novas vítimas
Segundo os investigadores, os suspeitos davam remédios não prescritos por médicos aos pacientes. Uma das principais frentes de apuração, agora, é identificar se o número de afetados pela atuação criminosa do trio é maior.
— Vamos investigar se há outras vítimas naquele hospital. Também vamos ver se há vítimas em outros hospitais em que eles trabalharam. Eles atuaram por cerca de cinco anos em hospitais diversos, públicos e privados. Vamos fazer um levantamento com as pessoas que morreram com características parecidas com esses homicídios — disse o delegado Wisllei Salomão.
Marcos Vinícus teria se aproveitado de momentos em que o sistema do hospital estava aberto na conta de um médico para receitar substâncias “erradas”. Ele mesmo buscou os itens na farmácia e aplicou nas três vítimas sem consultar a equipe médica. Dois pacientes morreram no dia 19 de novembro, e o outro no dia 1 de dezembro.
— Ele preparou o medicamento, colocou na seringa, colocou também no jaleco para esconder e aplicou nas vítimas. Ele contou também com a conivência dessas outras duas técnicas de enfermagem que estavam no local no momento das aplicações. Uma, inclusive, ajudou a buscar essa medicação na farmácia e também estava presente no momento que foi ministrado o medicamento — completou Salomão.
O técnico de enfermagem chegou a injetar desinfetante dez vezes em Miranilde Pereira da Silva, com uma seringa. As aplicações foram feitas no mesmo dia, após a paciente ter várias paradas cardíacas.
As autoridades confirmaram que a suspeita do crime partiu da própria unidade de saúde, que, ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos na UTI, iniciou a apuração interna. Diante do resultado, o hospital solicitou a abertura de um inquérito policial.
