Um número sem precedentes de empresas dos EUA está emitindo títulos na Europa, atraídas pela liquidez e por condições favoráveis, enquanto seu mercado doméstico sofre pressão devido a uma enxurrada de dívidas relacionaas à IA. A Amazon.com Inc. está concluindo nesta quarta-feira a venda de seu primeiro título denominado em libras esterlinas, enquanto a Uber Technologies Inc. está prestes a finalizar sua estreia no mercado de euros. Elas se juntaram a outras quatro empresas. É a primeira vez que a Europa registra um número tão grande de emissores dos EUA em um único dia, segundo dados compilados pela Bloomberg. Empresas dos EUA, incluindo bancos, buscam fontes alternativas de financiamento à medida que o maior mercado de títulos do mundo sente a pressão do enorme endividamento de companhias envolvidas na corrida da inteligência artificial. Uma enxurrada de dívidas de "hyperscalers" (grandes provedores de nuvem) acabou por ofuscar outros emissores e foi apontada como um dos fatores que impulsionaram a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries). Mesmo antes das operações desta quarta-feira, os mercados de títulos europeus já haviam registrado 149 bilhões de euros (US$ 173 bilhões) em dívidas de empresas sediadas nos EUA neste ano — um volume superado apenas pelo recorde anual de 2025, segundo dados compilados pela Bloomberg. "Para as empresas, faz sentido tentar encontrar financiamento onde for possível", disse Juan Valencia, estrategista de crédito do Société Générale. As empresas dos EUA estão se tornando ativas em "qualquer mercado que ofereça boa liquidez, e o mercado de euros é a melhor alternativa ao dólar", afirmou ele. O custo do serviço da dívida em euros é muito menor para um tomador de crédito de alta classificação ("high-grade") do que pagar juros sobre dívidas denominadas em dólares — um fator crucial para empresas multinacionais com receitas na moeda comum europeia. Ainda assim, captar recursos em euros e depois convertê-los para dólares usando contratos a termo de câmbio custou praticamente o mesmo que tomar dólares emprestados diretamente nas últimas semanas, com base em dados compilados pela Bloomberg. A Europa oferece outra vantagem para as empresas dos EUA. As avaliações têm sido relativamente atraentes porque a maior parte das emissões de "hyperscalers" até o momento ocorreu nos EUA. Investidores alertaram, no entanto, que essa vantagem pode diminuir se a Europa absorver uma parcela muito maior da dívida. Captar recursos em libras esterlinas não oferece as taxas competitivas do mercado de euros, mas o Reino Unido continua atraindo novos emissores. A Amazon planeja captar 4,25 bilhões de euros (US$ 5,8 bilhões) em sua emissão de estreia, o que a tornaria, da noite para o dia, uma das maiores tomadoras de empréstimos do mercado — assim como ocorreu com a Alphabet Inc., outra "hyperscaler", no início deste ano. A Amazon, cujos gastos devem totalizar US$ 220 bilhões este ano, concluiu suas necessidades de captação em dólares para 2026 com uma oferta de US$ 25 bilhões no mês passado. Quaisquer outras emissões de dívida nessa moeda seriam oportunísticas. "As pressões técnicas no mercado de títulos em dólares têm sido penosas", escreveram analistas da CreditSights, incluindo Jordan Chalfin, em nota aos clientes nesta quarta-feira. "Grandes emissões de grande porte ("jumbo deals") em dólares geralmente exigem concessões significativas que pressionam a curva de rendimentos para cima. Como resultado, as 'hyperscalers' têm diversificado suas fontes de financiamento", escreveram eles. Vale ressaltar que a participação de empresas dos EUA no mercado europeu de títulos de grau de investimento é apenas ligeiramente superior (menos de um ponto percentual) à registrada no início de 2025, uma vez que as empresas europeias também aproveitaram a forte demanda por títulos corporativos. Ainda assim, a emissão de dívida por empresas dos EUA no exterior — especialmente por "hyperscalers" — deve continuar à medida que as projeções de gastos de capital no setor de IA são revisadas para cima. Esse fator, somado às tentativas de evitar o pior da volatilidade provocada por questões políticas, deve manter os investidores ocupados. "A continuidade das emissões relacionadas à expansão da infraestrutura de IA, bem como a antecipação de captações antes das eleições francesas, devem gerar um impacto líquido real", afirmou Marco Stoeckle, chefe de estratégia de crédito do Commerzbank.
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Empresas dos EUA lançam onda inédita de emissão de títulos na Europa
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Valor
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