Empresas de IA intensificam campanhas de influência para impactar medidas regulatórias nos EUA e Europa
Impulsionadas por milhões de dólares, as empresas de inteligência artificial multiplicaram suas propostas de políticas públicas e intensificaram suas campanhas de influência para terem voz neste momento crucial de elaboração de regulamentações nos Estados Unidos e na Europa.
A OpenAI, empresa americana que disponibilizou ao público em geral seu robô conversacional ChatGPT no final de 2022, apresentou no início do mês um documento de 13 páginas com as medidas que propõe para adaptar a sociedade americana à era da IA.
As ideias variam desde o aumento dos impostos sobre os ganhos de capital das empresas até a criação de um fundo público para a redistribuição de lucros e o fortalecimento das medidas de proteção social.
"Um exercício de marketing", observa Margarida Silva, do Centro de Pesquisa sobre Empresas Multinacionais (Somo), em Bruxelas.
Essa opinião é compartilhada por Charles Thibout, professor de ciência política na Sciences Po Strasbourg, que acredita que o grupo americano busca principalmente "melhorar simbolicamente sua imagem".
A OpenAI foi recentemente criticada por assinar um acordo com o Pentágono que permite o uso de seus modelos para fins militares.
Sua concorrente, a Anthropic, liderada por Dario Amodei, nega que sua tecnologia esteja sendo usada pelo governo dos EUA para realizar vigilância em massa de cidadãos ou para desenvolver armas totalmente autônomas.
A empresa liderada por Dario Amodei está fazendo campanha separadamente, enfatizando a IA segura e regulamentações mais rigorosas.
Recursos financeiros colossais
O mesmo fenômeno é observado na Europa. A startup francesa Mistral acaba de apresentar em Bruxelas um roteiro com 22 medidas destinadas a acelerar a IA no continente.
"É um período crucial", e um momento em que as empresas do setor devem "fazer todo o possível para tentar aprovar medidas que sejam favoráveis aos seus interesses", afirma a advogada Alexandra Iteanu, especialista em direito digital.
As posições públicas assumidas por empresas como a Mistral e a OpenAI somam-se a um esforço de lobby subjacente, que não é novidade, mas que se intensificou recentemente.
Nos Estados Unidos, um quarto dos lobistas federais em Washington trabalhava em questões relacionadas à IA em 2025, representando aproximadamente 3.500 pessoas. Isso representa um aumento de 170% em três anos, de acordo com a ONG Public Citizen.
Além disso, de olho nas eleições de meio de mandato nos EUA em novembro, a OpenAI e outros gigantes do setor estão investindo milhões de dólares em campanhas de influência destinadas a promover candidatos com ideias semelhantes.
Donald Trump, que tem defendido um paradigma de regulamentação mínima para a IA desde seu retorno à Casa Branca, conta entre seus doadores o presidente da OpenAI, Greg Brockman, e o cofundador Sam Altman.
Na Europa, onde se debate a forma como as regulamentações da IA estão sendo implementadas, as despesas com lobby por parte das empresas de tecnologia aumentaram 55% desde 2021, totalizando 151 milhões de euros em 2025, segundo um estudo do Corporate Europe Observatory e da Lobby Control.
'Canais privilegiados'
Essas empresas têm as mesmas estratégias de influência que as indústrias do tabaco ou do petróleo, com a diferença de que possuem "muito mais dinheiro para investir", observa Margarida Silva.
A título de comparação, a indústria do tabaco investe em média 14 milhões de euros anualmente na UE em suas campanhas de influência, de acordo com as associações Contre-feu e STOP.
Algumas gigantes da tecnologia, como Meta, Apple e Google, também controlam plataformas e ferramentas muito poderosas, o que significa que "elas controlam a infraestrutura da informação, e isso lhes dá muito poder sobre os governos", insiste o pesquisador.
Charles Thibout destaca a existência de "canais privilegiados" com os principais tomadores de decisão "tanto nas administrações públicas americanas quanto nas francesas".
Prova disso foi a presença dos grandes magnatas da tecnologia na posse de Donald Trump em janeiro de 2025, onde estiveram presentes Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google) e Elon Musk (X, Tesla, SpaceX), entre outros.
Ou a estreita relação entre o cofundador da Mistral, Arthur Mensch, e o presidente francês Emmanuel Macron.
Thibout acrescenta que os líderes políticos consideram prestigioso cercar-se da elite tecnológica e demonstrar que são capazes de atrair investimentos multimilionários para os seus respectivos países.
Essas campanhas de influência, que rotineiramente lutam contra a adoção de leis de interesse público relativas a normas ambientais e à proteção de dados pessoais, representam uma verdadeira "ameaça à democracia", afirma uma preocupada Margarida Silva.
Mas "o legislador também não é ingênuo", destaca Alexandra Iteanu.
Nos Estados Unidos, apesar dos enormes gastos das empresas de tecnologia, as pesquisas indicam que a opinião pública é muito cética em relação aos benefícios da IA, temendo a perda de empregos e o impacto dos centros de dados sobre recursos preciosos, a começar pela água.
