247 – Apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de domingo (25), passaram a divulgar listas de empresas e comerciantes que deveriam ser boicotados por supostamente terem apoiado a reeleição do petista.
A campanha, disseminada em redes sociais e grupos de mensagens, provocou denúncias de ameaças, constrangimentos e receio de prejuízos financeiros, inclusive entre empresários que afirmam nunca ter declarado publicamente suas preferências políticas. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, publicada nesta quarta-feira (28), as listas circulam em cidades como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de municípios do interior paulista e mineiro.
Empresários atingidos relatam episódios de hostilidade e estudam medidas judiciais contra os responsáveis. Em alguns estabelecimentos, porém, a exposição também desencadeou manifestações de solidariedade e atraiu novos consumidores.
Um dos casos ocorreu em Ourinhos, no interior de São Paulo, onde a empresária Paula Ramos, de 38 anos, proprietária de um negócio no setor de beleza, descobriu por meio de uma cliente que seu estabelecimento havia sido incluído em uma relação de empresas a serem evitadas. Paula afirma que nunca divulgou seu posicionamento eleitoral justamente para preservar o respeito aos clientes de diferentes orientações políticas.
Apesar disso, passou a ser identificada como eleitora de Lula. “As pessoas estão deduzindo que sou de esquerda, que votei no PT [Partido dos Trabalhadores], simplesmente por eu não ter me manifestado.
E, mesmo que eu tivesse me manifestado, não poderia ser assim”, declarou. A empresária criticou a tentativa de transformar preferências políticas, reais ou presumidas, em motivo para prejudicar atividades comerciais.
“É muito triste você ver seu nome numa lista como se fôssemos criminosos. Criminosos são essas pessoas que querem rebaixar o trabalho de outras”, afirmou.
Em Ourinhos, Flávio Bolsonaro conquistou 61,82% dos votos válidos no segundo turno, enquanto Lula recebeu 38,18%. Apesar da tentativa de boicote, Paula relatou uma reação inesperada: recebeu mensagens de solidariedade e contatos de novas clientes interessadas em contratar seus serviços.
Ela procurou orientação jurídica para avaliar possíveis providências contra os responsáveis pelas publicações. “O respeito precisa ser mantido, porque senão a gente vai terminar numa guerra”, alertou.
Empresário relata intimidação e pretende buscar indenização Em Serrana, também no interior paulista, o empresário Francisco Meghelli, de 34 anos, proprietário do grupo Meghelli, afirma que a imobiliária de sua família foi incluída nas listas depois de ele ter manifestado publicamente suas posições políticas.
Após divulgar um vídeo denunciando o episódio, Meghelli recebeu relatos de pessoas que afirmavam não pretender mais adquirir imóveis por intermédio da empresa. Até o momento da entrevista, entretanto, ele não havia identificado perdas financeiras concretas.
O empresário também denunciou uma abordagem que considerou ameaçadora, feita por familiares de uma pessoa que havia compartilhado a relação de estabelecimentos. Segundo ele, essas pessoas procuraram-no para solicitar a retirada de sua publicação nas redes sociais.
Diante do episódio, Meghelli afirmou que pretende registrar um boletim de ocorrência e buscar reparação judicial. Outros comerciantes atingidos também avaliam medidas semelhantes.
Ele destacou que a campanha pode provocar consequências especialmente graves para pequenos estabelecimentos, cuja receita depende diretamente da frequência dos consumidores. Como exemplo, mencionou uma cabeleireira que teria perdido três agendamentos depois da divulgação das listas.
Também relatou que funcionários de um estabelecimento especializado na venda de açaí foram alvo de ofensas. A repercussão das denúncias, segundo Meghelli, contribuiu para enfraquecer parte da mobilização.
Um dos grupos utilizados para compartilhar as mensagens foi excluído após a divulgação de seu vídeo. Na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro obteve 54,69% dos votos válidos em Serrana, contra 45,31% de Lula.
Livraria Martins Fontes reafirma apoio a Lula Entre os estabelecimentos mencionados nas listas está a livraria Martins Fontes, de São Paulo, que declarou apoio à candidatura de Lula tanto em 2022 quanto em 2026.
O proprietário, Alexandre Martins Fontes, de 65 anos, afirmou que não pretende abandonar o posicionamento político público em razão das ameaças de boicote. “Eu respeito totalmente a decisão dos nossos clientes de votarem em quem eles quiserem, como eu gostaria que eles respeitassem a nossa decisão de publicamente dizer quem é o nosso candidato”, declarou.
Segundo o empresário, a livraria já havia recebido mensagens de consumidores anunciando que deixariam de comprar livros por discordarem de sua posição eleitoral. Ele ressaltou, no entanto, que a manifestação de apoio a candidatos está relacionada aos valores que considera fundamentais para a empresa, especialmente a defesa da educação, da leitura, dos livros e da cultura.
Fontes também destacou que o estabelecimento comercializa obras de diferentes orientações ideológicas, incluindo autores de direita e apoiadores de Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. “Acredito que o papel da livraria é justamente expor tudo que se produz de cultura, de pensamento”, afirmou.
O empresário disse não temer os efeitos econômicos da campanha e ressaltou que a Martins Fontes registrou crescimento nos últimos quatro anos. Para ele, os clientes que reconhecem a importância do trabalho desenvolvido pela livraria continuarão frequentando o espaço, independentemente de divergências políticas.
Mensagens hostis e receio de ataques em Curitiba Em Curitiba, um estabelecimento vegano que preferiu não ser identificado também apareceu em listas de boicote.
O local possui elementos de decoração com referências políticas e já havia enfrentado campanhas semelhantes anteriormente. Os responsáveis afirmaram que o boicote comercial, isoladamente, não representa a principal preocupação.
O receio está relacionado à possibilidade de ataques e à circulação de mensagens hostis em grupos de apoiadores da direita. Em episódios anteriores, o estabelecimento recebeu uma série de avaliações negativas na internet.
Desta vez, embora não tenha sido diretamente ameaçado, foi alertado por pessoas que tiveram acesso às conversas. Capturas de tela de um grupo de Curitiba mostram manifestações de hostilidade contra consumidores identificados como eleitores de esquerda.
Um dos participantes chegou a afirmar que cobraria preços 30% maiores de clientes petistas e que eles não seriam bem-vindos em seu estabelecimento. Os responsáveis pelo negócio vegano disseram que, por enquanto, não pretendem recorrer à Justiça, mas poderão reconsiderar essa decisão caso ocorram ataques direcionados à empresa.
Na capital paranaense, Flávio Bolsonaro venceu o segundo turno com 62,29% dos votos válidos, diante de 37,71% de Lula. Comerciantes de Mato Grosso preparam denúncia ao Ministério Público
No interior de Mato Grosso, a proprietária de uma farmácia relatou ter sido incluída pela segunda vez em listas destinadas a afastar consumidores de empresas associadas à esquerda. A comerciante, que pediu anonimato, afirmou que evitava manifestações políticas públicas por respeito às opiniões de clientes e funcionários.
Mesmo assim, passou a enfrentar comentários negativos e mensagens incentivando a população a deixar de frequentar seu estabelecimento. Emocionada ao relatar a situação, demonstrou preocupação com os possíveis efeitos da campanha sobre a sobrevivência do negócio e os empregos dos trabalhadores.
Segundo ela, a intimidação produz um ambiente em que comerciantes se sentem pressionados a esconder suas convicções políticas para evitar retaliações. A empresária também denunciou a circulação de mensagens ofensivas contra nordestinos.
Pessoas atingidas pelas publicações estão reunindo capturas de tela, vídeos e números de telefone para documentar os episódios. O material deverá embasar uma denúncia ao Ministério Público.
Os envolvidos também estudam ações individuais contra participantes dos grupos por mensagens consideradas homofóbicas e xenofóbicas. Um dos grupos utilizados para organizar a campanha foi excluído depois que seus participantes souberam da possibilidade de medidas legais.
Parte das conversas, entretanto, já havia sido preservada pelos comerciantes. Em Mato Grosso, Flávio Bolsonaro recebeu 66,06% dos votos válidos no segundo turno, enquanto Lula alcançou 33,94%.
Justiça já condenou responsáveis por listas semelhantes em 2022 A disseminação de listas de boicote político contra comerciantes possui um precedente judicial relevante em São Paulo.
Em julho de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) condenou, em segunda instância, dois homens acusados de produzir e divulgar uma relação de comerciantes identificados como apoiadores da esquerda em Cafelândia, no interior do estado, depois das eleições presidenciais de 2022.
Os réus foram condenados pelo crime de perseguição, com penas estabelecidas em regime aberto e suspensão condicional. A decisão também determinou o pagamento de indenizações individuais equivalentes a dois salários mínimos para cada uma das sete pessoas que formalizaram reclamações.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público, os comerciantes incluídos na lista sofreram constrangimentos, perturbações em suas atividades profissionais e prejuízos financeiros. O episódio teve desdobramentos graves.
Uma lanchonete mencionada na relação chegou a ser associada a um ataque realizado com uma pequena bomba contra o estabelecimento.
Brasil 247