Empresário grava momento em que israelenses são convocados para a guerra em Morro de São Paulo, paraíso na Bahia; vídeo viraliza
Um oásis, refúgio ou até “terra prometida” para jovens viajantes? Morro de São Paulo, no litoral da Bahia, acostumou-se a ver mochilas, festas eletrônicas e conversas em hebraico espalhadas pelas praias. Mas um vídeo gravado no último fim de semana mostrou um momento incomum nesse cenário: dezenas de turistas israelenses deixando a ilha às pressas, em meio à escalada da tensão envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã.
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As imagens, publicadas nas redes sociais e já com mais de 1,4 milhão de visualizações, mostram jovens com malas e mochilas caminhando pelo deck e se preparando para partir. Nos comentários, internautas misturam curiosidade, empatia e surpresa diante da cena registrada em um dos destinos mais populares entre israelenses no Brasil.
Confira:
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O vídeo foi gravado por Alaim Miller, dono da empresa de passeios de barco Morro SP Tur. Em conversa com o GLOBO, ele contou que a movimentação começou de forma inesperada enquanto trabalhava, como faz diariamente, aguardando turistas para os passeios.
— A gente fica ali na ponte esperando o pessoal para os passeios. Já é muito comum encontrar israelenses por toda parte, nos restaurantes, nas ruas. Eles têm um ritmo diferente, dormem durante o dia porque passam a noite nas festas eletrônicas — contou.
Segundo ele, por volta do meio-dia, algo parecia diferente.
— Nesse dia começou uma movimentação grande no deck. Muita gente com mala. Parei para conversar e tentar entender o que estava acontecendo.
Como muitos dos turistas não falam português, a conversa aconteceu com ajuda de aplicativos de tradução. Foi assim que ele entendeu que parte do grupo pretendia voltar para Israel.
— Pelo que consegui entender, muitos estavam indo embora por causa da guerra. Alguns falaram que tinham que retornar por conta da guerra. Não sei se já tinham passagem ou se viria algum voo especial, mas a conversa era toda sobre voltar — disse.
Montagem com os turistas deixando Morro de São Paulo
Captura de tela/Instagram/@morrosptur
Até o momento, não há confirmação oficial de que os jovens tenham sido convocados ou obrigados a deixar o Brasil. Ainda assim, a gravação rapidamente viralizou e reacendeu discussões sobre a forte presença israelense na ilha.
Nos comentários da publicação, muitas mensagens demonstram solidariedade. “Eu morei em Morro há alguns anos e conversei com israelenses. Eles diziam que ninguém quer estar na guerra, mas nasceram vivendo isso”, escreveu uma usuária.
Outro comentário destacou o impacto econômico da presença deles. “São jovens que vêm para curtir, movimentam o turismo e o comércio local.”
Houve também mensagens de apoio. “Encontraram nesse lugar um sonho de paz, mesmo que por um tempo.”
E outras que falam da relação criada com a comunidade. “Voltem sempre, vocês são amados por nós.”
Uma ilha que virou destino israelense
A presença maciça de turistas israelenses em Morro de São Paulo não é recente. O movimento ganhou força após a gravação da série israelense Malabi Express, em 2012. A produção mostrava jovens que, depois de cumprir o serviço militar obrigatório, viajavam ao Brasil e começavam uma nova vida na ilha.
A repercussão da série transformou o destino em uma espécie de rota quase obrigatória para jovens israelenses em mochilões pela América do Sul.
— Depois dessa série, muita gente começou a querer conhecer Morro. Hoje existem até agências em Israel que vendem pacotes específicos para cá — afirmou Alaim.
Com o aumento do fluxo, parte do comércio local se adaptou. Restaurantes passaram a oferecer cardápios em hebraico e pratos ajustados às tradições alimentares judaicas, como a ausência de carne de porco e a separação entre carne e laticínios. A ilha também ganhou uma sinagoga e eventos voltados para esse público.
Os números mostram o tamanho do fenômeno. Em março de 2024, durante o período pós-Carnaval, 54% dos turistas estrangeiros em Morro de São Paulo eram israelenses, segundo dados da prefeitura de Cairu.
A relação com o destino vai além do turismo. Em alguns pontos da ilha, adesivos com fotos de soldados mortos em conflitos são colados em postes e muros, em homenagens feitas por amigos que visitam o local.
— Quando eles planejam viajar e algum amigo não consegue porque morreu na guerra, acabam homenageando aqui. É uma forma de lembrar — explicou o empresário.
O contraste entre festa e conflito
Grande parte dos visitantes israelenses é formada por jovens que acabaram de concluir o serviço militar obrigatório ou que estão na reserva. Muitos usam o dinheiro economizado durante o período para viajar pelo mundo antes de iniciar a vida profissional.
Em Morro de São Paulo, eles encontram um cenário que virou marca registrada: praias, festas de música eletrônica e uma comunidade acostumada a recebê-los.
— Eles chegam para descansar, curtir. Fazem muitas festas, principalmente de música eletrônica. É um estilo que eles gostam muito — disse Alaim.
Guerra no Oriente Médio
A movimentação ocorre em meio à escalada de tensão no Oriente Médio. Israel vive uma sequência de confrontos que se intensificaram após ataques do Hamas em outubro de 2023, que deixaram mais de 1.400 mortos no país e levaram à captura de reféns. A resposta militar israelense resultou em milhares de mortos na Faixa de Gaza.
Agora, o conflito também envolve novos episódios de tensão regional com o Irã e operações que contam com apoio dos Estados Unidos, aumentando o temor de uma ampliação da guerra.
Mesmo a milhares de quilômetros dali, o impacto acaba chegando a destinos inesperados — inclusive a uma ilha turística no litoral baiano.
— Morro sempre foi visto por eles como um paraíso, um lugar para esquecer um pouco a realidade — disse Alaim.
Ainda não se sabe quantos turistas deixaram a ilha ou quantos pretendem retornar nos próximos dias. O que se sabe é que, por algumas horas, o paraíso tropical virou cenário de despedidas apressadas — e de um vídeo que rodou o mundo.
