A Entre Investimentos e Participações, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, declarou ao Banco Central o equivalente a R$ 2,2 bilhões (US$ 442,2 milhões) em ativos no exterior, dos quais R$ 2,19 bilhões (US$ 431,5 milhões) correspondem a uma participação societária em uma empresa sediada nas Bahamas, considerado um paraíso fiscal no Caribe. A Entre entrou na mira da Polícia Federal após realizar remessas para um fundo americano ligado ao financiamento do filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Procurada, a defesa de Freixo não se manifestou. A Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) da empresa foi entregue ao Banco Central em 7 de abril de 2026 e identifica a Entre Investimentos como titular de 100% do capital da Entre Investments & Arbitrage Ltd., nas Bahamas. Segundo os dados informados, a companhia estrangeira tinha patrimônio líquido de US$ 431,5 milhões, resultado da diferença entre ativos de US$ 520,4 milhões e passivos de US$ 88,9 milhões. O documento registra ainda US$ 10,7 milhões em participações em fundos de investimento nos Estados Unidos. Os valores foram declarados pela própria Entre Investimentos e não representam uma avaliação independente do patrimônio pela autoridade monetária. A documentação também não estabelece relação entre os ativos mantidos nas Bahamas e o financiamento do filme. As transferências identificadas pela Polícia Federal partiram da empresa brasileira para um fundo sediado nos Estados Unidos. Freixo é apontado pela PF como um operador financeiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em setembro, firmou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), no qual confirmou ter realizado sete remessas para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, que totalizaram US$ 12,3 milhões em 2025. Segundo o relato do empresário, as transferências foram feitas a pedido de Vorcaro. O Havengate, sediado nos Estados Unidos, é administrado por Paulo Calixto, advogado próximo do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e foi utilizado no financiamento de Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente. Ao analisar a movimentação financeira, a PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato que previa investimento de US$ 24 milhões no filme, dividido em 14 parcelas.
Em uma das conversas identificadas na investigação, Vorcaro orientou que um pagamento relacionado ao filme fosse realizado "via Entre". Poucos dias depois, os investigadores localizaram um comprovante de transferência de US$ 2 milhões da empresa para o Havengate, com indicação de que o dinheiro era destinado à produção. Operador conhecido como 'pioneiro nas Bahamas' A declaração de ativos no exterior acrescenta um novo dado sobre a atuação internacional de Freixo. Como O GLOBO revelou em setembro, a PF informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o empresário era descrito como "pioneiro nas Bahamas", em razão de estruturas offshore que teria montado no país caribenho. A referência consta de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citado pela PF ao pedir a abertura de inquérito sobre o financiamento de Dark Horse. No documento, os investigadores destacaram o histórico de Freixo na montagem de estruturas financeiras internacionais. A relação entre Freixo e Vorcaro, segundo a corporação, antecedia os pagamentos ligados ao filme. A PF apontou que os dois mantinham um histórico de operações compartilhadas e considerou relevante a escolha da Entre Investimentos para realizar as transferências para a produção cinematográfica. Freixo também foi alvo, em setembro, da terceira fase da Operação Carbono Oculto, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo estruturas financeiras utilizadas por integrantes da chamada máfia dos combustíveis. Segundo a apuração, empresas ligadas a ele participaram de operações destinadas a ocultar os verdadeiros responsáveis por ativos e negócios no setor. A manutenção de empresas e investimentos no exterior não constitui, por si só, indício de irregularidade. No caso de Dark Horse, a investigação busca esclarecer a origem e a destinação dos recursos transferidos para o financiamento da produção. O financiamento de Dark Horse também passou a ser investigado após a identificação de conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, e Vorcaro sobre a obtenção de recursos para a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em um áudio revelado pelo site Intercept Brasil e confirmado pelo GLOBO, Flávio cobrou Vorcaro, em 8 de setembro de 2025, por atrasos nos pagamentos destinados ao filme. "Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme", afirmou o senador na mensagem enviada ao banqueiro. Dois meses depois, Flávio voltou a procurá-lo e demonstrou preocupação com compromissos assumidos com integrantes da produção. "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh, o diretor]. Os caras renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim", disse. Segundo o Intercept, Vorcaro respondeu que resolveria a pendência até o dia seguinte. Após a divulgação das mensagens, Flávio admitiu ter procurado Vorcaro para obter recursos para o filme, mas negou irregularidades.
Os diálogos foram encontrados no material analisado pela PF e passaram a integrar as apurações sobre os pagamentos relacionados à produção. Em julho, a corporação pediu ao STF a abertura de uma investigação específica sobre o financiamento internacional do filme, para apurar a eventual prática de crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
O Globo