Candidato apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pelo governo de Santa Catarina, o ex-deputado estadual Gelson Merísio (PSB) fez para a própria campanha um Pix de valor 53% maior que o próprio patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.
O empresário doou o total de R$ 1 milhão, enquanto seus bens registrados no sistema somam quase R$ 653 mil.
Faça o teste do GLOBO: Com qual candidato ao governo do Rio você mais se identifica?
O voto 'Tarula': Tarcísio atrai parte do eleitorado à esquerda e lulista, reduzindo dependência do bolsonarismo em SP
Procurada pelo GLOBO, a campanha de Merísio afirmou que tanto a declaração patrimonial quanto a doação de campanha feita em seu nome "seguem perfeitamente as regras eleitorais e a legislação vigente".
Em nota, a equipe ressaltou que o regime de comunhão universal de bens pelo qual o político se casou há 38 anos estabelece limites para o registro do patrimônio familiar.
"O Código Civil impede a constituição de sociedade entre cônjuges casados nesse regime.
A empresa de administração do patrimônio familiar, criada em 2013, está portanto apenas no nome de sua esposa e dos seus filhos.
A legislação eleitoral exige a declaração dos bens que estejam, total ou parcialmente, em nome do próprio candidato.
E não exige declaração de patrimônio no nome do cônjuge ou dos filhos", destacou.
Sobre a autodoação em si, a campanha disse que Merísio atua como alto executivo de empresa privada e tem remuneração mensal na faixa dos R$ 300 mil.
"Ao final de cada ano, autorizado pelo regime matrimonial, ele utiliza a sobra desses recursos para aumento de capital da empresa da esposa e dos filhos", acrescentou a equipe.
O patrimônio declarado pelo candidato, de quase R$ 653 mil, inclui uma casa em São Paulo de R$ 430 mil e participação societária de R$ 95 mil numa empresa de materiais de construção batizada com seu sobrenome.
Declaração de receitas de Gelson Merísio (PSB)
Reprodução/Divulgacand
Com apoio de Lula (PT), Merisio volta a concorrer a um cargo eletivo após permanecer oito anos fora das urnas.
Em 2018, ele perdeu a eleição para o ex-governador Carlos Moisés da Silva, filiado ao mesmo partido de Jair Bolsonaro na época, o PSL — na ocasião, o empresário declarou voto no ex-presidente.
Com a derrota, afastou-se do bolsonarismo nos anos seguintes e aproximou-se do ex-presidente do Sebrae Décio Lima (PT), hoje candidato a uma das vagas catarinenses ao Senado.
Merísio investe no apoio do PT e de Lula, além da própria trajetória política no estado, para tentar furar o predomínio da direita em Santa Catarina.
De acordo com pesquisa Quaest divulgada nesta terça-feira, na disputa pelo Executivo, o governador Jorginho Mello (PL) aparece com vantagem confortável, com 50% das intenções de voto, enquanto João Rodrigues (PSD), que também disputa o apoio da direita, tem 17%.
Já Merísio (PSB), escolhido para encabeçar o palanque petista no estado, marca 4%.
Senado em família: candidatos escalam parentes, empresários e líderes religiosos como suplentes
Faça o teste do GLOBO e descubra: Com qual candidato a presidente você mais se identifica?
Enquanto articulava a pré-campanha, Merísio publicou nas redes sociais um vídeo em que classificava a mudança política como um "privilégio de quem está vivo" e citou o "abandono" do estado pelo governo Bolsonaro e "posturas descabidas" do mandato do ex-presidente.
"Quando muitos se omitem, se radicalizam e afrontam a democracia, fica mais claro ver que o caminho está errado e que é preciso alterar a rota", escreveu.
O que diz Gelson Merisio, na íntegra
"A candidatura ao governo de Santa Catarina, Gelson Merisio (PSB), esclarece que tanto a declaração patrimonial quanto a doação de campanha feita em seu nome, seguem perfeitamente as regras eleitorais e a legislação vigente.
Sobre a declaração patrimonial:
Gelson Merisio é casado há 38 anos sob o regime de comunhão universal de bens.
E o Código Civil impede a constituição de sociedade entre cônjuges casados nesse regime.
A empresa de administração do patrimônio familiar, criada em 2013, está portanto apenas no nome de sua esposa e dos seus filhos.
A legislação eleitoral exige a declaração dos bens que estejam, total ou parcialmente, em nome do próprio candidato.
E não exige declaração de patrimônio no nome do cônjuge ou dos filhos.
Sobre a doação de recursos próprios para a campanha eleitoral:
Trata-se de receita corrente do ano vigente.
O candidato é um alto executivo de empresa privada, com remuneração mensal na faixa dos trezentos mil reais.
Ao final de cada ano, autorizado pelo regime matrimonial, ele utiliza a sobra desses recursos para aumento de capital da empresa da esposa e dos filhos."
Ranking
Até o registro da autodoação de Merísio, o professor e jurista Edvaldo Pereira Brito (PSD) liderava o ranking.
Ele repassou R$ 533 mil à campanha de Jaques Wagner (PT) à reeleição ao Senado na Bahia, depois de ser escolhido como primeiro suplente na chapa do candidato petista.
Caberá a ele assumir a cadeira de Wagner na Casa legislativa em eventuais períodos de ausência prolongada ou quaisquer afastamentos por saúde ou decisão judicial.
Brito é pai do deputado federal Antonio Brito, líder do PSD na Câmara, e contou com o apoio de correligionários, como o senador Otto Alencar, na corrida.
Para assumir a primeira suplência de Wagner, ele superou outros nomes cotados — como a colega de Câmara Lídice da Mata (PSB-BA), que tenta a reeleição, e a vereadora Aladilce Souza (PCdoB), nomeada segunda suplente.
Prevaleceu o arranjo do PT com o PSD no estado, que apoia a chapa majoritária dos petistas Jerônimo Rodrigues ao governo e Rui Costa à outra vaga do Senado.
Aos 88 anos, Brito é conhecido pela trajetória jurídica, como advogado particular e professor de Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Mas também se engaja há décadas na seara política: foi vereador, vice-prefeito de Salvador (BA) e secretário estadual de diferentes áreas da Bahia.
Primeiro suplente fez autodoação para chapa de Jaques Wagner
Reprodução/Divulgacand
Entre 1978 e 1979, foi prefeito da capital baiana em um cargo biônico, sistema vigente durante parte do regime militar.
Brito foi nomeado para a cadeira pelo então governador Roberto Santos após eleição indireta na Assembleia Legislativa estadual.
Depois de ficar na suplência durante a Constituinte, ao fim da ditadura, já nos anos 1990, Brito foi nomeado secretário municipal de Negócios Jurídicos em São Paulo na gestão de Celso Pitta.
A revista Veja reportou que o advogado chegou a defender o chefe do Executivo municipal no Supremo Tribunal de Justiça (STJ) em meio ao "Pittagate", um escândalo de corrupção e compra de votos.
À Justiça Eleitoral, Brito declarou este ano ter mais de R$ 12,5 milhões em bens, incluindo uma casa em Salvador (BA) de R$ 2,8 milhões e um apartamento em São Paulo (SP) de R$ 560 mil.
Além do aporte do primeiro suplente, a campanha de Jaques Wagner já declarou ter recebido outros R$ 50 mil da Direção Estadual do PT.
