Sempre que seu pai viajava a trabalho, o francês Emmanuel Carrère e suas duas irmãs levavam colchões e almofadas para o quarto da mãe, para dormir com ela. Hélène Carrère d’Encausse (1929-2023) batizou o ritual de “brincar de colcoz”, um gracejo com os empreendimentos agrícolas coletivistas da União Soviética. Na casa dos Carrère, a Rússia era um assunto de família. Hélène descendia de liberais georgianos e aristocratas russos que se refugiaram na França depois da Revolução Bolchevique (1917) e se tornou referência em história russo-soviética (ela previu a derrocada do comunismo). Seu imenso prestígio só foi abalado duas vezes: no fim da vida, quando tentou convencer a opinião pública francesa de que Vladimir Putin jamais invadiria a Ucrânia, e anos antes, quando seu filho escritor revelou, no livro “Um romance russo”, que o pai dela, o georgiano Georges Zourabichvili, colaborou com os nazistas e foi morto pela Resistência Francesa. Mãe e filho ficaram dois anos sem se falar. Best-seller: John Green fala sobre envelhecimento e conta como se protege de 'reações negativas' a seu trabalho Siri Hustvedt: Em livro sobre luto, viúva de Paul Auster fala de traumas familiares e machismo no meio literário Carrère fala de si e dos outros sem censura em seus romances sem ficção: narrou conversão ao catolicismo e posterior abandono da fé em “O reino”, expôs seu diagnóstico de transtorno bipolar em “Ioga” e perfilou um ativista de extrema direita russo cuja trajetória espelha a acidentada história de seu país em “Limonov”. Combinar o pessoal e o político é um dos trunfos da literatura de Carrère, como atesta seu novo livro, “Colcoz”, que é ao mesmo tempo uma biografia familiar — da qual a mãe é protagonista — e um ensaio sobre a história da Rússia (e, por extensão, da Europa), do século XIX à invasão da Ucrânia. Lançado em 2023, “Ioga” transformou o escritor de 68 anos em best-seller no Brasil. Seus oito livros publicados no país já venderam mais de cem mil cópias. Em setembro, ele participou de uma série de encontros com leitores, no Rio e em São Paulo, em meio às comemorações dos 40 anos de sua editora, a Companhia das Letras. Num hotel na capital paulista, conversou com o GLOBO enquanto aproveitava um suco de maracujá (ele adorou as frutas brasileiras). Falou sobre sua busca pela verdade, de sua paixão por personagens convictos de suas crenças e por que se recusa a escrever sobre os filhos (ele tem três).
O escritor francês Emmanuel Carrère durante passagem por São Paulo Edilson Dantas Os escritores franceses mais populares no Brasil hoje são você, Annie Ernaux e Édouard Louis. Embora os projetos sejam diferentes, os três fazem autobiografia. Essa obsessão pela “verdade” é francesa? Admiro os autores que você citou, mas nossas experiências são diferentes. Eles são trânsfugas de classe, esse é o tema deles. Eu não sou. Considero magnífico o esforço de Annie Ernaux de fazer a experiência individual ressoar no coletivo em “Os anos”, que é uma das maiores obras da literatura francesa contemporânea. Também desejo dizer alguma verdade sobre mim, sobre o lugar de onde eu vim, e inscrevê-la na experiência coletiva. Embora partamos de lugares diferentes, tentamos fazer algo parecido. Mas que verdade você busca? Em “Colcoz”, você escreve: “Se uma pessoa questiona ou neva a versão de outra, essas duas versões não são contraditórias.” Essa é uma questão filosófica. Cada um tem a sua verdade, a sua versão da história. Nesse ponto, sou relativista. Meu trabalho como escritor é apresentar e tornar compreensíveis verdades divergentes. Ao mesmo tempo, sou muito sensível à frase de Kafka: “Certamente sou ignorante, a verdade permanece de qualquer forma.” Acho que existe uma verdade profunda, mas que não está necessariamente ao nosso alcance. George Saunders retrata horas finais de negacionista em novo livro: 'Ser bom também é ser transformador’ Você diz se interessar pelas relações entre as gerações e escreve muito sobre seus antepassados. Pretende escrever sobre a próxima geração? Para mim, escrever sobre meus filhos é um tabu, uma proibição quase religiosa. Eles ainda estão se tornando eles mesmos, não quero congelá-los numa narrativa. Meu interesse e meu afeto por eles não podem assumir uma forma literária. Além disso, é mais fácil falar sobe os mortos. Em “O reino”, você fala do esforço de ser fiel a si mesmo. Nos seus livros, você tenta ser fiel não só a si mesmo, mas também aos personagens reais sobre quem você escreve, não? Em relação a mim mesmo, reconheço que tenho o direito e o dever de mudar de opinião, de não ser tão fiel a mim mesmo, mas sim ao fluxo da vida. Em relação aos outros, prefiro falar de lealdade: não trair, tentar não ferir as pessoas sobre quem escrevo. Nesse aspecto, sou moralista, o que não quer dizer que sempre faça o bem. É como escreveu São Paulo: “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço.” É da condição humana. Em “Um romance russo”, ultrapassei limites que não deveria. Não foi nenhuma catástrofe, mas não é algo que eu gostaria de repetir. Me causou uma espécie de mal-estar moral. Acredita que o nacionalista e antiliberal Eduard Limonov (1943-2020) se tornou um personagem mais atual desde a publicação do livro, em 2011? A revolta dele contra as elites é plataforma da extrema direita hoje, não? Sim, é verdade. Limonov me desprezava profundamente! Ele dizia: “Gosto de você, mas, se estivesse no poder, te fuzilaria. Você é um tipo de social-democrata frouxo.” A posição política dele era bizarra: ele se opunha corajosamente a Putin, mas concordava com ele sobre tudo! O que o impediu de ter uma carreira política bem-sucedida, embora tenha tentado, foi a mesma coisa que o torna um personagem simpático: ele era um looser, estragava toda oportunidade que tinha. “Colcoz” revela que sua mãe foi próxima de Maurice Bardèche (1907-1998), nome influente da extrema direita francesa. No livro, você ressalta o fascismo dele, mas também seu bom humor e sua devoção à esposa. Por que é necessário humanizar figuras que se opunham aos valores democráticos? Bardèche não era só fascista, ele foi pioneiro do negacionismo do Holocausto. Acho bom mostrar a complexidade das pessoas, como elas desenvolvem ideias detestáveis a partir do que não é, em si mesmo, o mal. No caso de Bardèche, tinha a ver com sua fidelidade ao cunhado (Robert Brasillach, condenado à morte por colaborar com os nazistas). Meu trabalho não é julgar nem condenar, é olhar para as pessoas, tentar ver quem elas são, quais são as suas razões. Um personagem de “A regra do jogo”, o filme de Jean Renoir, diz: “O problema da vida é que todo mundo tem suas razões.” Você diz que uma constante na sua família é “estar sempre do lado menos simpático da política”. De que lado você está? Sou um social-democrata frouxo, como Limonov me acusou (risos)! Acho que estou entre os últimos europeus favoráveis aos valores da democracia. Uma característica dos seus personagens — de Limonov, dos primeiros cristãos, de sua mãe — é ter convicções fortes, inabaláveis. Por que essas figuras te atraem? Talvez porque eu não tenha muitas convicções. É uma qualidade e um defeito: entendo com facilidade as razões dos outros, tenho a mente aberta, mas não sustento minhas próprias convicções. Em “O reino”, a narrativa gira em torno de uma dupla: São Paulo, porque, se houve um homem convicto de alguma coisa neste mundo, foi ele, e São Lucas, que era como eu, um homem que tenta compreender e constrói uma narrativa. Sua relação com a religião mudou depois da morte dos seus pais? Não. Continuo agnóstico. É preciso muita convicção para ser ateu. Estou afastado da religião, mas continuo apegado ao Evangelho. Não é preciso ser crente para amar as palavras de Cristo e orientar a vida a partir delas. É o discurso mais subversivo já pronunciado na Terra, é muito curioso que tenha dado origem à uma instituição. Paradoxos do cristianismo. Você suspeita que, como você, seu avô também era bipolar. Depois do seu diagnóstico, passou a ter mais empatia com seus personagens problemáticos? Não sei, mas é certo que as coisas mudam quando você recebe um diagnóstico que corresponde ao que você viveu durante anos e encontra um remédio que o ajuda a se sentir melhor. Você percebe que é uma pessoa melhor do que achava que era. É como se ganhasse uma nova chave de leitura da própria vida. Não sou psiquiatra, mas tudo na correspondência do meu avô indica que ele era bipolar. Seu avô odiava Tolstói e parecia o “homem do subsolo”, o personagem de Dostoiévski... Ele era o próprio homem do subsolo! A ruminação, a amargura... Cresci num meio que cultuava Dostoiévski e desprezava Tolstói. Mas um dia eu me emancipei. A estrela de Dostoiévski se empalideceu para mim e o sol de Tolstói brilha cada vez mais no meu céu de leitor. Numa entrevista à imprensa brasileira, você disse que sua obsessão pela Rússia terminou com “Colcoz”... Acho que me expressei mal. Durante a maior parte da minha vida, sentia um sopro romanesco vindo da Rússia. Mas a face que a Rússia mostrou nos últimos anos, a violência, a falta de liberdade, me fez perder o apetite. Não tenho vontade de voltar à Rússia. Não sei se algum outro país poderia tomar o lugar que a Rússia tinha para mim. Talvez o Brasil (risos)? Serviço: 'Colcoz' Autor: Emmanuel Carrère. Tradução: Mariana Delfini. Editora: Alfaguara. Páginas: 352. Preço: R$ 89,90.
O Globo