Emendas turbinadas pré-votação contemplaram senadores que vinham evitando declarar apoio a Messias, inclusive da oposição
Nas duas semanas que antecederam a derrota da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acelerou a liberação de emendas parlamentares ao Senado. A verba empenhada — isto é, reservada para uso — atingiu a cifra de R$ 2,3 bilhões entre 10 de abril, um dia após a sabatina de Messias ser marcada, e a última quarta-feira, quando o advogado-geral da União foi rejeitado pelos senadores com 42 votos contrários.
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O levantamento do GLOBO inclui verbas de emendas individuais, de comissões do Senado e de comissão mista do Congresso Nacional. A lista de senadores mais contemplados no período inclui nomes da oposição ao governo Lula e um parlamentar da base, Cid Gomes (PSB-CE), que se ausentou da votação. Como o voto é secreto, não é possível saber quem ficou contrário à indicação de Messias.
Entre os senadores que mais receberam emendas em abril está Weverton Rocha (PDT-MA), aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e relator da indicação do AGU na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Desde o dia 10, o governo empenhou R$ 58,2 milhões em emendas individuais de Weverton, e ainda contemplou indicações do senador em emendas de comissão.
No dia da sabatina de Messias, por exemplo, houve um empenho de R$ 4,9 milhões da Comissão de Desenvolvimento Regional para obras de pavimentação no município maranhense de Paço do Lumiar. A nota de empenho registra Weverton como “solicitante” do recurso.
Veja os principais beneficiados
Arte O Globo
Nomes da oposição
Entre os dez senadores mais contemplados nos dias que antecederam a votação de Messias, três estão na oposição ao governo Lula: Romário (PL-RJ), Wellington Fagundes (PL-MT) e Marcos do Val (Avante-ES). Os dois últimos haviam declarado voto contrário a Messias até a véspera da votação, conforme levantamento do GLOBO; Romário não havia respondido.
As ações do governo não impediram a derrota de Messias, que teve a sua indicação ao STF rejeitada com 42 votos contra e 34 a favor, sete a menos do que o necessário. Ele foi o sexto nome recusado pelo Senado para a Corte em toda a história da República — todas as outras ocorreram no século XIX.
O placar contrário ao indicado de Lula evidenciou traições e ausências na própria base governista. Aliado do Planalto, Cid Gomes foi um dos quatro senadores que faltaram à votação. Antes, o cearense havia afirmado ao GLOBO que não iria se posicionar se era a favor ou contra a indicação.
No período que antecedeu a derrota de Messias, Cid viu o governo empenhar R$ 54,1 milhões em emendas individuais, além de também contemplar indicações suas para emendas de comissão.
O empenho é a primeira fase da despesa pública, antecedendo a liquidação e o pagamento do recurso. No ano passado, o governo federal não havia feito empenhos em período similar no mês de abril. Como o Orçamento anterior foi aprovado apenas em março de 2025, o Planalto demorou a iniciar a liberação da verba naquele ano.
Em 2024, o desembolso em abril chegou a R$ 2 bilhões, reajustados pela inflação. Já em 2023, a quantia empenhada no mesmo período foi de R$ 7,9 milhões.
Base em xeque
Os empenhos de verba de emendas do governo também contemplaram senadores do MDB, como Eduardo Braga (AM), Jader Barbalho (PA) e Renan Calheiros (AL), que haviam prometido votar em Messias. Após a derrota do AGU, Renan divulgou nota chamando de “mentirosas as especulações” de que ele, Braga e o senador Renan Filho (MDB-AL) teriam ficado contra Messias na votação.
Outro aliado de Lula contemplado com liberações de emendas antes da votação foi Omar Aziz (PSD-AM), que vinha evitando até a véspera declarar sua posição no Senado.
A rejeição de Messias ocorreu em meio a uma articulação de bastidores atribuída ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para barrar a indicação de Lula. Senadores ouvidos sob reserva pelo GLOBO relataram que Alcolumbre entrou em contato com parlamentares de centro, oposição e indecisos ao longo do dia, pedindo voto contrário a Messias. Após Alcolumbre ter marcado a sabatina de Messias, no início de abril, o Planalto empenhou R$ 15,5 milhões em emendas individuais do presidente do Senado.
Segundo antes de o placar ser aberto no painel do Senado, o microfone da Mesa Diretora captou Alcolumbre dizendo que Messias perderia por oito votos. Em nota, Alcolumbre diz que foi questionado pelo líder do governo, senador Jaques Wagner (PT), sobre o placar da votação e, “como outros parlamentares que, ao longo dos últimos dias, vinham fazendo avaliações, deu sua opinião”.
“Isso só reafirma e demonstra a experiência do presidente da Casa em votações”, diz a nota.
