Duas reações chamam atenção nos mercados globais após a “onda azul” nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos: a queda do dólar e a alta surpreendente do Nasdaq futuro, mesmo com a perspectiva de maior regulação da inteligência artificial. Parte dos investidores já aguardava esses movimentos nos mercados, mas a força dos democratas no Senado surpreendeu.
Na manhã desta quarta-feira, a oposição democrata já tem garantidos 54 assentos no Senado contra 44 dos republicanos. Duas cadeiras ainda estão indefinidas: uma no Alasca e outra no Mississipi, o que surpreende já que as pesquisas indicavam uma vitória republicana.
Por volta de 7h (de Brasília), o índice DXY do dólar cedia 0,52%, negociado aos 101,330 pontos, enquanto a taxa da T-note de dez anos caía 5 pontos-base e se afastava ainda mais da marca de 5%. Entre os futuros dos principais índices de Nova York, o do Nasdaq tinha alta de 0,51% — algo bastante surpreendente.
“A dimensão da vitória democrata superou as expectativas”, enfatizam os estrategistas do HSBC em nota enviada a clientes, ao observarem que o controle da Câmara dos Representantes e do Senado pela oposição a Donald Trump já era algo esperado em Wall Street. “Portanto, a surpresa está na força do mandato conferido aos democratas, e não propriamente no controle do Congresso.”
Na avaliação do HSBC, a reação inicial negativa do dólar “foi justificável” e, assim, não há motivos para ir na contramão desse movimento. “Maiorias democratas mais amplas reforçam as restrições à agenda legislativa do governo e podem estimular os investidores a reavaliar a narrativa do ‘excepcionalismo americano’”, dizem os estrategistas, que notam, ainda, o bom desempenho do franco suíço e do iene contra o dólar.
“No entanto, teríamos cautela ao extrapolar a venda inicial de dólares para um movimento sustentado de desvalorização da moeda americana. Acreditamos que faltam os elementos necessários para isso”, enfatizam.
Um ponto levantado pelo HSBC é o fato de as “midterms” não necessariamente eliminarem incertezas e riscos para o mercado, como em outras ocasiões em que elas foram um “risk-clearing event”. E, nesse sentido, algumas fontes de preocupação para Wall Street devem permanecer em vigor.
Como exemplos, os profissionais do banco mencionam a guerra no Irã e, em particular, os riscos regulatórios relacionados à inteligência artificial. “O fato de o Texas ter passado para o controle dos democratas será outro possível catalisador negativo de curto prazo para as ações de empresas ligadas à infraestrutura de IA, dada a importância dos data centers nesse estado.
Evidentemente, ainda não se sabe se a expansão dos data centers está realmente ameaçada em grande escala. Muita coisa pode mudar depois das eleições”, alertam os profissionais do HSBC.
Há uma avaliação do banco de que os data centers podem ser transferidos do Texas para outros estados ou de que não ocorram proibições à construção, mas sim um aumento da regulamentação e uma supervisão mais rigorosa das instalações. “Ainda assim, o resultado eleitoral representa mais uma narrativa negativa para as ações de tecnologia no curto prazo”, enfatizam.
“Por isso, mantemos nossa postura tática cautelosa e continuamos preferindo o S&P 500 com ponderação igualitária (equal-weighted) em relação às ações de tecnologia americanas.”
Globo