Em vigor, cessar-fogo no Líbano promete alívio aos civis e espaço para diplomacia, mas caminho para a paz ainda é longo

 

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Pouco mais de um mês depois do início da ofensiva israelense contra o Hezbollah no Líbano, que deixou mais de dois mil mortos e deslocou um milhão de pessoas, teve início às 18h (horário de Brasília) desta quinta-feira um cessar-fogo temporário, mediado pelos EUA, como parte das tratativas para um acordo definitivo. Apesar da pausa, que deu aos civis algum respiro após semanas de ataques, os obstáculos para a paz são consideráveis e sem solução fácil.

“Acabei de ter excelentes conversas com o altamente respeitado presidente Joseph Aoun, do Líbano, e com o primeiro-ministro Bibi (Benjamin) Netanyahu, de Israel. Esses dois líderes concordaram que, para alcançar a PAZ entre seus países, iniciarão formalmente um CESSAR-FOGO de 10 dias às 17h (18h pelo horário de Brasília)”, escreveu o presidente dos EUA, Donald Trump, em sua rede social, o Truth Social.

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Segundo os termos anunciados pelo Departamento de Estado, Israel concordou com uma trégua de dez dias, que poderá ser prorrogada “caso haja progresso nas negociações e o Líbano demonstre efetivamente sua capacidade de exercer sua soberania”. Israel tem “o direito de tomar todas as medidas necessárias para sua legítima defesa”, mas veta ataques contra “alvos libaneses, incluindo alvos civis, militares e outros alvos estatais, dentro do território do Líbano, por terra, ar ou mar”.

“Israel e Líbano afirmam que os dois países não estão em guerra e se comprometem a participar de negociações diretas e de boa-fé, facilitadas pelos Estados Unidos, com o objetivo de alcançar um acordo abrangente que garanta segurança, estabilidade e paz duradouras entre os dois países”, conclui o comunicado do Departamento de Estado.

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O plano temporário, assim como as primeiras palavras do governo americano (e a ausência de certos detalhes), dão pistas sobre o grau de dificuldade das conversas.

O texto afirma que as forças de segurança têm “a responsabilidade exclusiva pela soberania e defesa nacional do Líbano”, e que “nenhum outro país ou grupo pode reivindicar ser garantidor da soberania do Líbano”. Netanyahu já declarou que suas tropas continuarão em uma área próxima à fronteira, de 10 km de largura, dentro do território libanês, durante o cessar-fogo. O comunicado do Departamento de Estado diz esperar que os dois lados resolvam questões em aberto, incluindo “incluindo a demarcação da fronteira terrestre internacional”.

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Embora as divisas libanesas tenham sido definidas há mais de um século, Israel ocupou o sul do país entre 1982 e 2000, e lideranças locais querem uma “zona tampão” entre a atual fronteira e o rio Litani. Horas antes do anúncio do cessar-fogo, o portal israelense Ynet relatou que o Exército se prepara para uma “ocupação total” da área.

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E há o ponto mais sensível da trégua: o que fazer com o Hezbollah, o grupo político-militar apoiado pelo Irã que, em tese, é o principal alvo de Israel na atual ofensiva. A organização não participou das negociações do cessar-fogo, é contra o diálogo com Israel, mas se comprometeu a respeitar a pausa nos ataques, provavelmente a pedido de Teerã, que vê a trégua como crucial para as suas próprias negociações de paz com os EUA.

De acordo com os termos anunciados pelo Departamento de Estado, o “governo libanês tomará medidas significativas para impedir que o Hezbollah e todos os outros grupos armados não estatais que operam em território libanês realizem qualquer ataque, operação ou atividade hostil contra alvos israelenses”. Logo após o início do cessar-fogo, balas traçantes cruzaram os céus dos subúrbios ao sul da capital libanesa, base da organização xiita, em aparente comemoração.

Hoje, ninguém em Beirute arrisca dizer como isso será feito. Em novembro de 2024, um outro acordo, que encerrou uma ofensiva israelense contra o Hezbollah ligada à guerra em Gaza, exigiu o desarmamento do grupo xiita, mas até hoje o governo libanês não conseguiu implementar a tarefa. O Hezbollah, uma das mais poderosas forças militares não estatais do planeta, rejeita abandonar suas armas, e embora tenha perdido boa parte de sua capacidade balística e muitos de seus líderes nos últimos anos, demonstrou ainda ser capaz de provocar danos em território israelense.

— Temos duas exigências fundamentais para estas negociações de paz: Primeiro, o desarmamento do Hezbollah. Segundo, um acordo de paz sustentável, paz através da força — afirmou Netanyahu em pronunciamento.

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Kawnat Haju/AFP

Diante de jornalistas na Casa Branca, Trump celebrou o acordo e sugeriu que o incluirá em sua lista de “guerras resolvidas”. Ele disse que “nos próximos quatro ou cinco dias” Netanyahu e Aoun podem se encontrar em Washington, no primeiro encontro entre líderes dos dois países em quatro décadas.

Pelos sinais que antecederam a trégua, a reunião pode não ser exatamente cordial. Na manhã desta quinta-feira, Aoun se recusou a conversar por telefone com Netanyahu sem que um cessar-fogo tivesse sido confirmado. O premier israelense, por sua vez, não submeteu o plano ao seu Gabinete de segurança, e seus ministros e assessores ficaram sabendo pela imprensa — segundo o jornal israelense Haaretz, Netanyahu disse que a pausa nos combates era fato consumado e que não precisava do aval deles. Uma pesquisa divulgada na terça-feira mostrou que 70% dos israelenses são favoráveis à continuidade da operação militar no Líbano.

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Enquanto a diplomacia trabalha, os civis libaneses veem a trégua como uma oportunidade para respirar. Desde o mês passado, mais de 2,1 mil pessoas morreram e cerca de 7 mil ficaram feridas, muitas em áreas urbanas. Os novos danos se somam à destruição ainda visível do conflito de 2024, e os reparos custarão alguns bilhões de dólares aos cofres do depauperado Estado libanês.

— Somos a favor das negociações se elas servirem aos interesses do Líbano, se resolverem as questões, encerrarem a guerra e nos permitirem viver em paz — disse Kamal Ayad, trabalhador da construção civil em Beirute, à AFP. — Queremos paz e esperamos que o Irã não a obstrua. Estamos extremamente cansados. Vivemos muitas guerras e queremos descanso.

Para os deslocados internos — mais de um milhão — a pausa não significa que poderão retornar para casa imediatamente. O Exército libanês recomendou que as pessoas não sigam para suas cidades e vilas no sul do país, e o Hezbollah fez um pedido semelhante.

“Compreendemos a intensidade do vosso desejo de regressar às vossas aldeias e casas, e agradecemos a paciência e a firmeza que demonstraram perante o mundo inteiro. Contudo, por preocupação com a vossa segurança e com as vossas preciosas vidas, apelamos a que sejam pacientes e perseverem”, acrescentou o comunicado do grupo xiita.

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O cumprimento da trégua também é crucial para as negociações entre Irã e EUA sobre a guerra iniciada no dia 28 de fevereiro, mediadas pelo Paquistão. Quando Trump anunciou a pausa nos ataques, na semana passada, os iranianos afirmaram que a frente libanesa deveria ser incluída no plano, mas americanos e israelenses negaram, criando um impasse que por pouco não fez os esforços diplomáticos desmoronarem. O início do cessar-fogo foi tratado como uma vitória no Irã.

“Como eu disse ontem (quarta-feira) à noite, o cessar-fogo só foi resultado da extraordinária firmeza dos heróis do Hezbollah e da unidade do Eixo da Resistência”, disse o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher-Ghalibaf, na rede social X. "Lidaremos com este cessar-fogo com cautela e permaneceremos unidos até a plena conquista da vitória.”

Nesta quinta-feira, Donald Trump afirmou que um acordo com Teerã está muito perto, e que os dois lados “concordaram em quase tudo”. O Irã não comentou.

Aos jornalistas, ele disse que os iranianos concordaram em não buscar uma bomba nuclear (o Irã sempre negou ter esse objetivo) e que poderiam entregar os estoques de urânio enriquecido aos americanos, um ponto que, ao menos em público, era rejeitado por Teerã. O presidente sugeriu que uma nova rodada de negociações poderá ocorrer no fim de semana, e disse que se um acordo for obtido, poderá viajar ao Paquistão para firmá-lo.

— Eles querem que eu vá — disse Trump, sem dizer a quem se referia.