Em sua sétima produção em comum, Paolo Sorrentino dirige Toni Servillo em 'A graça', que estreia no Brasil

 

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Eles já fizeram sete filmes juntos, à frente de uma das mais produtivas e intensas parcerias do cinema italiano contemporâneo, e esperam continuar fazendo outros no futuro próximo. Desde que o personagem oferecido pelo diretor Paolo Sorrentino tenha muito o que dizer a ambos, como observa o ator Toni Servillo:

— Nem todo papel que ele me sugere eu aceito, claro. Já rejeitei personagens com participação muito pequena na trama, sim. Mas Paolo entende isso. Ele já me deu protagonistas maravilhosos, cada um mais bonito do que outro, e sempre contará comigo quando estivermos enamorados pelos mesmos personagens e quisermos viajar por suas histórias — confirma Servillo, de 66 anos, grande nome do cinema e do teatro italianos, que ganhou notoriedade mundial com “A grande beleza” (2013), com o qual Sorrentino disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

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Mario De Santis, o fictício presidente italiano de “A graça”, novo projeto do cineasta napolitano, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (19), é a mais recente paixão da dupla, que trabalha em sintonia desde a comédia dramática “Um homem a mais” (2001). A trama se passa nos seus últimos seis meses de mandato, e descreve como ele se comporta diante de dilemas morais, éticos e familiares que assombram sua despedida da vida política. O longa-metragem marca o retorno de Sorrentino aos retratos de figuras do mundo político, como “O divo” (2008), em que Servillo encarnou o primeiro-ministro Giullio Andreotti (1919-2013).

— Escrevi o roteiro com o Toni em mente — confirmou o realizador no Festival de Veneza, de onde Servillo saiu com a Copa Volpi de melhor interpretação masculina. — Ele é o ator com o qual me sinto mais confortável de trabalhar. Somos amigos, frequentamos a casa um do outro, nos damos muito bem dentro e fora do set. Toni é um profissional do cinema e do teatro muito corajoso, então sei que posso contar com a bravura dele para habitar os personagens mais desafiadores que eu possa ousar em criar.

Cena de 'A graça': presidente de Servillo (quinto a partir da esquerda) arruma cigarros com o guarda-costas e ouve rap cantado pelo filho

Divulgação/Andre Pirello

De Santis é um líder político raro. Adorado pelo povo e respeitado por seus pares, atravessou seus sete anos como chefe da República contornando crises internas e externas — não por acaso, ele é conhecido nos bastidores da política como “Concreto armado”. Às vésperas da aposentadoria, ele se vê diante da tomada de decisões que podem comprometer o seu legado como homem político e, ao mesmo tempo, afrontam sua fé. Católico e viúvo, ele precisa decidir se concede indulto presidencial a uma mulher que matou o marido abusivo e a um idoso que assassinou a esposa com demência. E se assina um projeto de lei que legaliza a eutanásia no país. De Santis conta com a ajuda de sua filha advogada, Dorotea (Anna Ferzetti), que se exaspera com a relutância do pai em tomar decisões importantes.

— Acho bonito ver essa qualidade do personagem, essa obsessão dele pela dúvida, pela cautela, analisando com cuidado assuntos sérios, como um verdadeiro homem de direito, como ele diz repetidamente, “pedindo um tempo de reflexão” — elogia Servillo. — É um convite que o personagem faz sobre nosso tempo, no qual tudo deve ser feito de forma rápida, com a brevidade de um slogan de publicidade. De Santis é um homem que decide administrar seu tempo com grande senso de responsabilidade, com cautela, serenidade e moralidade. A reflexão faz parte de sua cultura política, o que é algo que nos falta hoje em dia.

Dúvidas versus certezas

“A graça” abre com um longo letreiro descrevendo os poderes e desígnios do presidente segundo a Constituição italiana. Considerando a concentração de poder de determinados líderes mundiais em nossa História recente — inclusive italianos, como o ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, retratado por Sorrentino, com a ajuda de Servillo, em “Silvio e os outros” (2018) —, é de se perguntar se estamos diante de uma parábola da era autocrática e seus excessos. O diretor nega que tenha feito um filme político, no sentido estrito, mas um drama político que recupera, ou sugere, a ideia de um líder próximo do ideal.

— A verdade é que vemos políticos nobres cada vez menos no mundo atual. De Santis não é perfeito, mas ele sabe como um político deve ser, em termos de se mover em um ambiente muito sério, tomando responsabilidade sobre as decisões que toma, mas sempre sentindo muita dúvida. Porque os líderes de hoje têm muitas certezas baseadas em nada, e isso é o que me assusta, às vezes — entende Sorrentino. — A ideia do político como representante de uma comunidade que o elegeu é algo que não é incorporada por muitos líderes hoje. Para eles, a política é apenas um palco para uma performance muito ruim, o que não é bom para nós.

Nem tudo é sombrio e crepuscular em “A graça”. O diretor reencontra, ao lado de seu alter ego e muso, espaço para resgatar o humor peculiar e o tom surreal de suas melhores obras. Em certo momento, De Santis é convidado para um jantar de veteranos da infantaria montanhesa, e de repente sai cantando com eles. Mais adiante, a recepção oficial ao presidente português é sabotada por uma chuva torrencial, e ele simplesmente observa o pequeno martírio do colega. Seu amigo mais próximo é seu guarda-costas pessoal, que lhe passa os cigarros proibidos. Há também as excentricidades do personagem: seu maior prazer é ouvir, com fones de ouvido, as músicas do filho cantor de rap, e até cantá-las em momentos mais privados.

— Paolo se divertiu muito com essa história de cantar rap, porque ele conhece minha paixão absoluta por música clássica. Eu acordo ouvindo Tchaikovsky, Chopin, Bach, Mozart. Tenho dificuldades de entender o que dizem as letras dos raps (italianos), então memorizar as letras me foi muito difícil — ri o ator, dono de quatro troféus Donatello, o Oscar italiano. — Mas acho que o rap, para De Santis, um homem muito ligado ao passado, é uma forma de se manter atual com os tempos modernos. E também um forma de tentar entender seus filhos, estabelecer uma relação com eles.

Paolo Sorrentino em 2017, em Nova York, período em que lançou a série 'The young pope'

Tony Cenicola/The New York Times

Sorrentino conta que o projeto começou a tomar forma quando, anos atrás, o atual presidente italiano, Sergio Mattarella, concedeu indulto presidencial a um homem que matou a esposa que sofria de Alzheimer, mas não tomou emprestado características ou histórico de nenhum político em particular. Se no passado Servillo teve em que se espelhar diretamente para interpretar os primeiros-ministros Giulio Andreotti e Silvio Berlusconi, aqui ele diz se guiar pela intuição.

— Costumo fazer pesquisa para personagens, mas de forma moderada, não sigo o método do Actors Studio, e digo isso com muita admiração por eles. Minha formação é do teatro italiano, formação napolitana até, eu diria, trabalhando com o texto, a imaginação, a intuição, o diretor, e deixando que as coisas aconteçam — explica o ator, que recorre a uma anedota envolvendo Laurence Olivier e Dustin Hoffman nos bastidores de “Maratona da morte” (1976). — Olivier estava sentado numa cadeira e Hoffman correndo em torno da sua por horas. O britânico quis saber por que ele estava fazendo aquilo, ao que o americano respondeu que se preparava para fazer uma cena em que seu personagem demonstrava ansiedade, preocupação, sem tempo para respirar. E Hoffman então perguntou como Olivier faria, ao que este respondeu: “Eu atuaria.” (risos)