Em SP, foliões minimalistas e 'sem tempo' se preocupam menos com fantasias e mais com o celular

 

Fonte:


Referências ao Oscar e a memes da hora estão presentes, mas as fantasias de carnaval para os blocos em São Paulo estão decididamente mais “minimalistas”. E a referência aqui não é ao pouco pano usado nos trajes. Lojistas e foliões contaram ao GLOBO que, este ano, reduziu-se propositadamente o esforço na complexidade de adereços e referências na mesma proporção em que aumentou a preocupação com roubos e furtos nas ruas da cidade.

Para quem se veste, as altas temperaturas não ajudam. O calor intenso, os blocos cada vez mais lotados e o preço dos acessórios têm levado foliões a simplificar escolhas. A gerente de vendas Pâmela Almeida, 26, conta que não compensa investir tanto na produção, "sobretudo diante da falta de entusiasmo masculino".

— Eu venho cheia de trambolho, nesse aperto que estão os bloquinhos, e nem consigo beijar alguém. Além disso, você viu os meninos? Se eles não querem fazer o mínimo, eu também não vou me dar ao trabalho — afirmou, resignada.

Foi assim na apresentação do DJ escocês Calvin Harris, na Consolação, na região central de São Paulo, no último dia 8/2, que terminou em confusão, com superlotação e foliões derrubando as grades de proteção, em área que também seria ocupada pelo Acadêmicos do Baixo Augusta, um dos tesouros da folia paulistana. Com o sol a pino, muitos dos meninos”mencionados por Pâmela estavam sem camisa, de shorts e com frases ou piadas pintadas no peito com tinta guache. Ela não se sentiu deslocada com uma tiara barata comprada na internet, meia-arrastão e tutu. Bastou.

Carnaval minimalista em SP, sem trajes muito elaborados e com leques para aguentar o calorão

Matheus de Souza

Diogo Silva, de 22 anos, compartilha da mesma lógica. O folião conta que saiu de casa de última hora em busca de "algo que remetesse a uma fantasia". Escolheu um tapa-olho.

— É que o papagaio estava meio caro. Mas já deu para pegar a ideia, né? — justificou o pirata paulistano, que também vestia shorts tactel e camisa havaiana.

Embora é possível encontrar nas ruas da capital paulista fantasias mais elaboradas, inspiradas, por exemplo, em séries ou em personagens infantis, o que predomina é a simplicidade. E, em meio à alegria, contam os foliões, outra preocupação, bem mais séria, ganhou espaço: com a segurança.

— Esse ano não comprei fantasia, usei o que tinha em casa mesmo. A doleira, essa sim, é essencial. A gente sai para os bloquinhos com medo de ser roubado. Algumas amigas vieram sem celular ou com o 'do ladrão', mais barato. Eu trouxe o meu mesmo, para falar com a família e pedir um Uber no fim do dia — contou a administradora Carla Pereira, de 30 anos, que usava tiara com orelhas de coelho e um tutu rosa.

Se entre solteiros as fantasias mais elaboradas viraram itens de outros carnavais, casais e grupos organizados de amigos mantiveram a tradição da produção para a folia em São Paulo. É nas redes sociais que se acha com mais facilidade quem se propõe a fazer algo coeso a partir de algum interesse compartilhado. Os fãs de cinema, por exemplo, se animaram para sair de “Dona Sebastiana”, personagem icônica do filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro estatuetas do Oscar — ainda assim, se montaram com óculos escuros, vestidos floridos e cigarros. Pronto.

Entre casais, inspirações podem vir das séries mais populares. Trajes de marinheiro, popularizados pelos personagens de “Stranger Things”, aparecem em duplas presentes em muitos blocos. Roupas pensadas a partir de memes da internet ou em piadas de casal também são encontrados. A criatividade não morreu.

Lucro maior no Halloween

Mas ela pode ter mudado de nicho principal, conta o CEO da loja de fantasias Abrakadabra, Kiko Smitas, no mercado há 15 anos. Sua percepção coincide com a do minimalismo de adereços revelado pelos foliões. O carnaval, conta, deixou de representar um período de grande faturamento para seu negócio.

— Percebo que, em vez de gastar com fantasia, muita gente prefere economizar no traje para investir mais em bebidas— conta.

Segundo Smitas, o perfil do consumidor mudou muito. Hoje, as crianças são, disparado, seu público mais fiel, influenciadas por tendências como a das “guerreiras do K-pop”, filme lançado no ano passado pela Netflix. Um estouro.

Ele destaca ainda uma transformação ligada especificamente à expansão dos blocos de rua. Neste ano, a capital registra 627 desfiles oficiais. Antes, lembra o empresário, havia maior espaço na folia de São Paulo para bailes e festas em espaços fechados, o que incentivava produções mais elaboradas.

Carnaval minimalista em SP, com alegria e praticidade superando investimento em fantasias

Matheus de Souza

— O sucesso do carnaval de rua, somado ao clima cada vez mais quente, mudou os costumes. Pintura e maquiagem já resolvem. A fantasia acabou virando uma opção mais comum para quem ainda vai aos bailes — diz.

Não por acaso, acrescenta, o pico de vendas da Abrakadabra ocorre agora em outubro, durante o Halloween, tradição americana abraçada pelos paulistanos, realizada quando as temperaturas em geral mais amenas favorecem o uso de trajes mais complexos.