Em seu primeiro Dia das Mães, Jade Barbosa celebra conexão com a filha Eva e mira Los Angeles-2028: 'Estou vivendo o que sonhei'
A pequena Eva, de 5 meses, ressignificou o Dia das Mães para Jade Barbosa, de 34 anos. Desde os 9, a ginasta tem uma relação agridoce com a data festejada hoje. Foi nessa idade que ela perdeu a mãe, Janaína, após um aneurisma cerebral, e passou a comemorar com as outras matriarcas da família, além do pai, César, que assumiu a dupla função. Hoje, no seu primeiro Dia das Mães com a filha no colo, ela celebra também a alegria do irmão Pedro, seis anos mais novo, que há oito meses se tornou pai de Flora.
— Eva e Flora transformaram, preencheram, deram vida à família. Desde que perdemos nossa mãe, ficou algo que não conseguimos nomear. Porque o luto tem um tempo, mas o vazio volta: no Dia das Mães, em casamentos, em Olimpíadas... Agora esse lugar, mesmo vazio, floresceu. Tem uma beleza nisso — reflete Jade, que diz sentir a presença da mãe “em todos os lugares”.
Jade e Eva: mãe e filha em ensaio especial para o GLOBO
Márcia Foletto
Abraço garantido
A ginasta precisou lidar com a perda desde cedo. Mas encontrou maneiras de encarar a vida. Na época da escola, o pai se fazia presente nas festas de Dia das Mães. Não era fácil, mas a dupla soube se adaptar com o tempo.
César era pai e mãe e mostrava isso nos detalhes do dia a dia: maquiava a filha para competições, pintava suas unhas, fazia pulseiras de miçanga e até costurava uniformes de ginástica.
— Também fazia roupas para as Barbies, limpava minhas bonecas e as penteava comigo. Fez tudo o que minha mãe faria. Parece que ela sabia que teria algo e escolheu um homem maravilhoso para cuidar de nós. Pai e mãe têm missão eterna: educar, estar e permanecer. E é essa referência que quero dar a Eva — diz a atleta.
A ginasta Jade Barbosa leva a filha Eva aos treinos: aproveitando todos os minutos com ela
Márcia Foletto
Jade é uma mãe em construção e não se preocupa em achar um molde para criar a filha. Mas sabe bem que caminho deseja percorrer, baseado numa filosofia do técnico Francisco Porath Neto:
— Chico nos fala assim nas competições: “O abraço no fim da série está garantido.” Ou seja, pode dar tudo certo ou errado, mas ele abraça no fim, está ali. É assim que quero ser. Independentemente de resultado ou situação, estarei lá para a Eva.
Dupla jornada
Há um mês Jade concilia o papel de mãe com o esporte. Ela já voltou aos treinos da ginástica e leva Eva, que mama exclusivamente no peito e em livre demanda, junto para o ginásio. São ao menos três atividades por semana, além da musculação, retomada um mês após o parto e com supervisão.
A ginasta se preparou para dar à luz pelo método natural. Após 28 horas de trabalho de parto, porém, o obstetra aconselhou a cesárea.
— Ela nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Treinei até a 38ª semana, segui todas as orientações, mas não tive parto normal. Aguentaria mais, só que para a Eva não estava mais legal — conta Jade. — Percebi como mãe que a gente sempre tenta fazer o melhor, mas muitas vezes não sairá como esperamos. Temos de ser resilientes.
A fala é um mantra, afinal, Jade é acostumada à perfeição. Sua modalidade premia no detalhe. E ela sempre se cobrou muito. Mordia a trave, literalmente, quando algo não dava certo.
Essa mudança de rota levou Jade a outras necessidades de recuperação. E ela entende que seu momento agora é o de fazer apenas o que consegue executar, sem forçar a barra. Aumenta o trabalho físico aos poucos, descobre caminhos dentro das liberações médicas e já consegue encarar abdominais difíceis, por exemplo:
— Só faço o que não dói. No início, na academia, me pendurei no espaldar só para ver. Não tinha força para abdominal. Mandei mensagem para o músculo, e cadê ele? Hoje já faço oito. Antes fazia séries de 12 com caneleiras e, no teste físico, 40. Mas estou feliz com oito. Esta não é a primeira vez que reaprendo a fazer tudo.
Na nova fase, Jade tem o apoio da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), que pela primeira vez acompanha uma atleta voltando do pós-parto para a carreira em alto rendimento. Ela diz que se sente “respeitada” e espera que seu caso ajude a definir protocolos para outras mulheres de sua modalidade que planejam embarcar na maternidade.
Jade acredita que seu timing foi perfeito. Ela teve bebê no primeiro ano do ciclo para os Jogos de Los Angeles-2028 e aposta que terá tempo hábil para se preparar com tranquilidade até lá.
— Deus foi generoso. Antes de Paris-2024, não sabia se continuaria. São tantos sentimentos, é difícil planejar. Mas eu quero. Fiz uma cirurgia no joelho, antes de engravidar, justamente para tentar mais uma Olimpíada — explica a atleta. — Estou vivendo o que sonhei.
Prazeres e desafios
Acostumada a se dedicar à ginástica desde os 5 anos, Jade comemora ter agora mais tempo com a família. Ela curte cada minuto com Eva, gosta de dar banho e do momento da amamentação.
Mas, apesar da beleza desses rituais, vive desafios, como todas as mulheres. Sofreu com leite empedrado, questão já superada, e não dorme adequadamente. Eva “apaga” só por quatro horas. Nos dois primeiros meses, adormecia apenas no colo.
Jade Barbosa volta ao alto rendimento aos poucos de olho nos Jogos Olímpicos de Los Angeles
Márcia Foletto
— Descansar para o dia seguinte? Não sei como fazer ainda. Tem dia que é punk e penso: “tudo bem, está difícil, e farei o que posso” — pondera a atleta do Flamengo. — Sempre me imaginei sendo mãe, mas em outro momento, quando não seria mais ginasta. Antes as meninas se aposentavam aos 18.
A maternidade é mais um recomeço para Jade, que ao longo dos anos conviveu com contusões e cirurgias. A última foi em dezembro de 2024, para corrigir uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito.
— Los Angeles é possível, e gostaria de fazer parte da equipe novamente. Não tenho competição como meta. Se pudesse, voltaria para o Mundial. Mas a recuperação é importante também pela qualidade de vida.
Ela se refere ao Campeonato Mundial por Equipes, em Jacarta, na Indonésia, em outubro. As três primeiras equipes de cada naipe garantem vaga para a Olimpíada. O Mundial de 2027, em Chengdu, na China, com disputas individuais, também é classificatório.
Enquanto a reestreia não chega, Jade segue a rotina. Neste domingo, está em Natal (RN) acompanhando o Troféu Brasil. Volta ao Rio ainda hoje para completar a festa em família. Ela quer “o melhor dos dois mundos”:
— Quando Eva fez um mês, fui ao ginásio com ela. Só para respirar o meu ambiente. Precisava me sentir em casa de novo. Voltei outras vezes. Sentava lá e ficava olhando... Comemorarei este dia onde quero estar: no ginásio e com ela.
