Em série para TV e disco, artistas dão novas caras para Chico Buarque
“Não me leve a mal/ me leve apenas para andar por aí”, cantava Chico Buarque em “Leve”, do álbum “Carioca” (2006). Os versos foram levados ao pé da letra pela escritora e roteirista pernambucana Adriana Falcão, por sua conterrânea Marianna Brennand (diretora do longa “Manas”, que levou mais de 20 prêmios em festivais nacionais e internacionais) e Carolina Benevides (que atuou na produção de “Manas” e é parceira de Marianna na produtora Inquietude).
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As três mulheres estão por trás de “Leve Chico”, série documental em 13 episódios que acompanha o processo de recriação de canções de Chico Buarque por artistas da música brasileira contemporânea — bem no ano em que o primeiro LP ao artista, aquela com as carinhas do Chico-alegre e Chico-triste, completa 60 anos de lançamento. Essa é uma história que chega ao público até o fim do ano pelo Canal Curta! (a série) e pela Biscoito Fino (o álbum com as releituras) — ambos são coprodutores com a Inquietude na empreitada.
— A Adriana falava dessa paixão pelo Chico e de um desejo levá-lo para as novas gerações, para geração da filha dela mais nova, que tinha 20 anos — conta Marianna. — Pensamos em fazer um disco com artistas da nova geração, dividi essa ideia com a Carol Benevides, e isso virou um projeto. Mas, sendo uma pessoa do cinema e de imagem, imaginei que gente poderia documentar como foi o processo de transposição, de criação desses novos arranjos. Daí a gente criou esse grande tributo, que é uma série de TV documentando o processo dessas 13 faixas.
O cantor Péricles em gravação da série e disco ‘Leve Chico’
Ana Branco
Entre idas e vidas de “Leve Chico”, as três abriram o leque de intérpretes não só para as novas gerações — de nomes como Zé Ibarra, Dora Morelenbaum, Agnes Nunes, Zeca Veloso (filho de Caetano Veloso), Flor (filha de Seu Jorge), Clara e Ceci Buarque (netas de Chico) — mas para representantes de estilos musicais específicos, como Péricles e Gaby Amarantos.
Péricles, de 56 anos, pegou a valsa “Eu te amo” e a levou para o pagode.
— Atitudes como essa (do “Leve Chico”) mostram que é possível quebrar muros — festejava Péricles, no dia da gravação da canção, no Rio. — O Chico Buarque ocupa esse lugar do sambista que foi longe e mostrou para o mundo que a música do brasileiro tem muito valor.
A cantora Agnes Nunes em ensaios no Clube Manouche (Rio) para o show de abertura do Premio da Musica Brasileira de 2025
Leo Martins
Filha de uma assistente social que a “evangelizou” na infância em Campina Grande (PB) com as músicas de Chico Buarque, Agnes Nunes, de 24 anos, gravou, com as percussionistas LanLanh e Laísa, o “Que tal um samba?” (2022), que fala de um Brasil pós-pandemia e pós-governo de extrema direita. Mas não é de hoje que a cantora provoca desconforto em conservadores com suas interpretações do compositor.
— Eu tinha 9 aninhos e a minha avó queria porque eu queria que eu me batizasse na igreja católica. Minha mãe, já questionadora do mundo e das coisas, disse assim: “Tá bom, mãe, vamo simbora batizar, para a senhora me deixar em paz.” Aí, no caminho da igreja eu fui cantando: “Quando eu nasci veio um anjo safado/ um chato dum querubim” (versos de “Até o fim”) e a minha avó: “O que é isso, Aparecida, dessa menina cantando essa música?” (risos) — diverte-se Agnes.
Musa pop das dores de amores, a pernambucana Duda Beat, 38, ficou com um clássico da sofrência classuda, “Olhos nos olhos”.
— Sou uma cantora que fala muito sobre amores que não deram certo, amores que deram certo, todos os tipos de sentimento. E me identifico muito com “Olhos nos olhos” porque já passei um pouco por isso, essa coisa de dizer que está tudo bem, mesmo não estando — conta Duda.
Zeca Veloso, 34, por sua vez, se juntou ao pianista Cristovão Bastos, 79, para “Todo sentimento”, de Chico e Cristóvão, um standard da obra buarquiana.
— Ele foi lá em casa, a gente acertou tom, começou a tocar e, na hora, aconteceu um intermezzo que nunca existiu na música, uma coisa completamente sensorial, um jeito de fazer a canção que nunca tinha sido feito — conta, admirado, Cristovão.
O rapper cearense Don L
Divulgação
Muitas foram as reviravoltas na produção de “Leve Chico”. Destaque da cena do rap nacional, o cearense Don L ia de “Homenagem ao malandro” e depois ficou com “Acorda amor”.
— Tive a audácia de escrever um verso porque eu queria atualizar a questão política do Chico ali. A gente teve uma ditadura militar em que as classes médias foram reprimidas e hoje em dia não são mais. Mas a ditadura só acabou em alguns endereços, em outros essa ausência de estado do direito pleno ainda existe — diz.
Já Flor, de 23, ficaria com “Não sonho mais”. Acabou com “Paratodos”.
— Quando fizeram a troca da música, perguntei: “Pai, você acha que eu consigo cantar essa bem?”. E ele “Minha filha, vai com tudo, você vai arrasar!” — conta.
Responsável pelas entrevistas com os convidados e pelos textos de apresentação da série, a cantora e atriz Clarice Falcão (que também cantou com Clara e Ceci Buarque, mais Pretinho da Serrinha, num medley carnavalesco de Chico para o disco-tributo) destaca uma faceta do homenageado que não costuma receber muitas loas.
— Até as músicas mais tristes dele têm senso de humor. Mas não é humor rá rá, é uma inversão de expectativas, de falar uma coisa de um jeito que não é o óbvio — diz ela. — “Olhos nos olhos” tem camadas de ironia. E “Acorda amor” é extremamente política, mas, se você for ver, é muito engraçada, o cara está chamando o ladrão por causa da polícia!
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Marianna Brennand vê “Leve Chico” como tributo “com muita ousadia, mas também muito respeito”. E elogia o papel de Kassin, de 54 anos, como produtor musical, “fundamental para permitir que a gente pudesse se atrever a fazer essas releituras, mas mantendo um rigor e uma exigência musical que a obra do Chico Buarque demanda”.
Com uma banda base formada pelo multi-instrumentista Elísio Freitas (que assinou os arranjos com ele), o pianista Antônio Dal Bó, o baixista Carlos Júnior e o baterista Estevan Cipri, o produtor se esbaldou.
— A galera que regrava Chico normalmente é uma turma com mais de 60, 70 anos. A ideia era tentar aproximar o Chico de uma geração mais nova — diz Kassin. — Mas, para fazer essa parada, por incrível que pareça, o artista tinha que ter alguma relação com a obra do Chico. Vinham respostas, do tipo “cara, acho a letra boa, mas o som chato”. E surpresas tipo Don L, que conhece cada verso das músicas, e Agnes Nunes, que cresceu ouvindo Chico.
No fim das contas, “Leve Chico” pode ser visto como o trabalho de três mulheres em homenagear aquele que é tido como um compositor de alma feminina.
— Tem um depoimento da Maria Bethânia em que ela conta que, quando começou a cantar “Olhos nos olhos” para Mãe Menininha do Gantois, ela perguntou: “Minha filha, mas quem é que compôs essa música?” E, quando Bethânia respondeu que tinha sido Chico Buarque, ela se espantou como um homem poderia ter se colocado no lugar dessa mulher e compor essa música com tanta sensibilidade — conta Marianna Brennand.
Artistas e repertório
A cantora Catto
Leo Aversa
Jaloo e Zé Ibarra: “Apesar de você”
Agnes Nunes, LanLanh e Laísa: “Que tal um samba?”
Don L: “Acorda, amor”
Zé Manoel: “Minha história”
Gaby Amarantos: “O que será — À flor da pele”
Péricles: “Eu te amo”
Dora Morelenbaum: “Samba e amor”
Flor: “Paratodos”
Duda Beat: “Olhos nos olhos”
Catto e Lula Galvão: “Atrás da porta”
Zeca Veloso e Cristóvão Bastos: “Todo sentimento”
Juçara Marçal: “Construção”
Clara e Ceci Buarque, Pretinho da Serrinha e Clarice Falcão: “Partido alto”, “Cordão”, “Não existe pecado ao sul do Equador” (Medley Carnaval)
