Em semana de juros globais pressionados, dólar e Bolsa tem leve queda

Em semana de juros globais pressionados, dólar e Bolsa tem leve queda

 

Fonte: Bandeira



A aproximação do terceiro mês de conflito entre Estados Unidos e Irã voltou a pressionar os indicadores nesta semana. O Ibovespa caiu aos 176 mil pontos, na maior sequência de quedas semanais desde 2018. O dólar avançou aos R$ 5,02 e os juros futuros voltaram a ficar pressionados, diante de um petróleo acima dos US$ 100 por um tempo maior do que o anteriormente previsto por analistas.

O impacto nas pesquisas eleitorais após a divulgação de áudios revelando a conexão entre Daniel Vorcarol e o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também contribuiu com a leve piora nos ativos, avaliam os agentes ouvidos.

Na semana, o dólar sofreu leve desvalorização, de 0,6%, mas subiu 0,55% nesta sexta-feira. O principal índice da Bolsa caiu 0,8% no dia e 1,2% na semana.

A incerteza quanto ao fluxo pelo Estreito de Ormuz e o prolongamento do conflito começa a pressionar as previsões de inflação em todas as economias do mundo. As tentativas de gastos para suavizar as medidas, através de política fiscal expansionista, também contribuíram com uma disparada nos preços dos títulos de governos em todo o mundo nesta semana.

Os rendimentos dos títulos americanos de 30 anos alcançaram o maior patamar desde 2007, acima de 5,2%, e o de outros países foram à reboque, como os glits, da Inglaterra (que tiveram o maior avanço desde 1997) e os bunds alemães (maior rendimento desde 2011).

Nesta sexta-feira, a plataforma FedWatch estimava até mesmo uma alta nos juros americanos até dezembro, diante de preços cada vez mais pressionados por conta do impacto no petróleo:

— Conforme o tempo passa e não temos uma resolução do conflito, no sentido de ver abertura no Estreito e maior fluxo de derivados de petróleo saindo do Oriente Médio, o mercado coloca no preço uma probabilidade de a inflação ficar mais alta por muito tempo e por um período maior. E aí os bancos centrais teriam que reagir a essa inflação mais pressionada — diz Milena Landgraf, chefe de investimentos na Jubarte Capital.

A estrategista-chefe global da Principal Asset Management, Seema Shaah, diz em relatório que a consideração de governos para ampliar estímulos fiscais a fim de amortecer o choque de oferta contribui para um aumento dos prêmios de prazo, reforçando a pressão de alta sobre os rendimentos dos títulos mais longos. O movimento acontece, ela avalia, num momento em que o espaço fiscal da maioria dos países já está pressionado.

O preço do petróleo sofreu uma disparada desde o início do conflito, e o barril do tipo Brent (referência internacional) oscila acima de US$ 100 desde o último dia 21 de abril. Nesta sexta-feira, o barril subiu 0,93%, aos US$ 103,54.

— O verão está chegando no Hemisfério Norte, quando a demanda aumenta. E isso não está sendo acompanhado pela oferta. O barril pode ir a US$ 120. E é uma leitura pior de cenário, mais inflação, menos crescimento. Já começa a se falar de recessão global — avalia Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos.

Juro também afugenta Bolsa

Com a perspectiva de redução do juro no país no início do ano revisada por conta do conflito, o fluxo para as ações locais também sofre uma reversão. Depois de valorizar 23% até abril — em dólares, a alta chegou a 30% —, o investidor internacional, que tem ditado o fluxo do índice por conta do maior apetite à investimentos em mercados emergentes, pisou no freio.

O Ibovespa caiu pela sexta semana seguida, movimento que aconteceu pela última vez entre maio e junho de 2018.

— Você tem uma disparada do petróleo, o que começa a girar a inflação global. E esse petróleo cria incertezas, a inflação fica acima do previsto e há muitas incertezas sobre o fim. E, com isso, há saída de fluxo — avalia Isabel Lemos, gestora da Fator Investimentos, que vê um movimento de realização após a valorização expressiva do índice local nos primeiros três meses do ano.

— A pessoa investiu aqui, alocou com diversificação, teve ganho significativo, é natural fazer realização de lucros.

A volta das perspectivas positivas com a temática de inteligência artificial também contribuiu com uma redução da exposição aos emergentes, avalia Rodrigo Santoro, superintendente de renda variável do Bradesco Asset Management.

— Havia preocupação com monetização dessas companhias, que possuem investimentos relevantes à frente. E o primeiro trimestre mostrou um caminho para monetização.

Toda aquela migração que existia para reduzir investimentos em companhias ligadas à IA por conta de monetização, isso deixou de acontecer, e o mercado voltou para o mercado americano — avalia ele. Do pico registrado em 14 de abril, aos 198 mil, para hoje, o índice recuou 11%.

Para os analistas, a corrida eleitoral também impacta, em partes, os indicadores. A perda de competitividade demonstrada em recentes pesquisas eleitorais de Flávio Bolsonaro, que se distanciou do presidente Lula após a divulgação de áudios com o banqueiro Daniel Vorcaro, também impõe pressão no dólar e na Bolsa:

— Ainda estávamos mais dependentes e sensíveis à notícias da Guerra, mas, daqui para frente, por conta dessa mudança recente em intenção de voto entre Flávio Bolsonaro e Lula, o mercado vai ficar mais atento a cada notícia e pesquisa — avalia ela.

— A mudança de governo traz a esperança de ajustes fiscais à frente — diz Rodrigo Santoro, da Bradesco Asset Management. O mercado enxerga uma mudança de governo como mais crível em reduzir o avanço dos gastos públicos e frear a relação entre a dívida pública e o PIB, que vem crescendo a cada ano. Para 2026, instituições estimam que essa relação supere os 80%.

Ainda assim, os analistas são otimistas com a Bolsa local, apesar das eleições imporem volatilidade:

— Seguimos vendo um posicionamento do estrangeiro ainda muito baixo de mercados emergentes e, consequentemente, em Brasil. E, com correção importante no último mês, isso fez os valuations (avaliações das empresas) voltarem a ficar mais atraentes — avalia Santoro, do Bradesco Asset Management.

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