Em romance de estreia, autora cearense consegue dar leveza ao processo de luto graças ao talento narrativo e ao bom humor

 

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Composto por capítulos curtos, nomeados com títulos cheios de criatividade, “Cor de defunto”, romance de estreia da cearense Cami di Malta, narra o processo de luto de uma jovem chamada Lilá, que acabara de perder a mãe. E é assim ela começa a história: “Quando Mainha morreu, eu fiz um pudim. A morte me deixou com a boca ansiando pelo gosto de caramelo.”

A narradora, oscilando entre a melancolia e o riso, nos conta que foi contratada para trabalhar na funerária por causa de sua aptidão para o silêncio. Seu jeito menos simpático condiz bem com os modos contidos de atendimento aos enlutados: “Quando comecei nesse trabalho, eu corria pro banheiro assim que chegava em casa, desesperada em tirar os germes da morte do meu corpo, como se as pessoas que vinham escolher caixões trouxessem seus mortos juntos.” Com o tempo, a situação muda: “Hoje a morte é parte de mim, eu não tenho mais como me lavar dela”, explica a personagem.

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Os capítulos de “Cor de defunto” são concisos, não vão muito além de três páginas. O enredo dos episódios evocados mergulha em memórias da infância ao lado da mãe, de um pai opressor e o trabalho na funerária. Inclusive um diário antigo serve como meio de rememoração. Tanto a composição dos títulos como da estrutura da maioria dos capítulo se dá por um movimento de aproximações improváveis: “Relato de soda cáustica”; “Tangerina sem rabo”; “Chinelas emborcadas cor de reticência”; “Centopeia sem pálpebras”; “Máquina de pelúcia siamesas”.

Em um capítulo nomeado justamente “Unheimlich” (o estranho familiar/o familiar que se torna estranho), a narradora faz uma analogia entre seu último dente siso forçando a gengiva e seu próprio parto quando bebê, duas transformações, duas perdas de si: “Tenho me olhado muito no espelho” (...) “As pessoas passam por mim com muitas sacolas e fico ali parada, esperando minha morte prometida desde o útero” (...) “Meu dente lateja, um desconforto tão íntimo, tão meu, tão nosso, que passo a língua com carinho, meu parto de elefante suspenso, em pausa, se preparando pra me rasgar pra brincar de morte.”

Episódios absurdos e hilários

A filósofa Jeanne Marie Gagnebin, em um ensaio famoso, lembra que as primeiras palavras escritas nasceram como gestos de recordação: inscrições tumulares, em memória dos mortos. A própria etimologia dos termos “túmulo” e “signo” tem a mesma raiz. Escrever em memória dos mortos é um rito de sepultamento, como diz Michel de Certeau, um trabalho de luto, que marca um corte entre o passado e o presente, dando um lugar para o objeto ausente.

“Sento em cima da lápide de Mainha, minha bunda cobrindo a cruz e os números que marcam aquele dia que se repetiu várias vezes”, nos conta Lilá, a narradora do livro de Cami di Malta. Como afirma Maria Rita Kehl: “Um melancólico que ri de tudo não é tão contraditório quanto parece”.

Os episódios absurdos e hilários do romance se alternam com momentos de ternura e tristeza. Quando a mãe fica cega pela primeira vez, ela tem muita dificuldade em se mover em casa. Por isso, quando recupera a visão, começa a fazer tudo de olhos fechados, para estar preparada. “Eu achava o máximo as mãos dela, tão delicadas, tateando as coisas”, diz Lilá. “Comecei a treinar também (...) mas pra caso eu perdesse os braços. (...) Segurei a asa da caneca de alumínio com os dedões do pé esquerdo e com os dedões do pé direito enfiei a colher de sopa na lata de Nescau, conseguindo colocar 70% dela dentro da caneca de leite”.

A cor de defunto do título vem da maquiagem que a personagem usa na preparação dos mortos para o funeral. O nome Lilá, por outro lado, me fez lembrar do ótimo “Lila” (2022), a personagem-máscara do engenhoso experimento narrativo do pernambucano Gael Rodrigues, vencedor do prêmio Cepe, no qual mãe e filha trocam de lugar constantemente. Vale a pena o leitor conhecer também.

* Marcos Vinicius Almeida é escritor, mestre em Literatura e Crítica Literária e autor