Em reunião de países asiáticos, Irã propõe compartilhar capacidades militares e fala em 'derrota dos EUA'
O Irã propôs compartilhar suas capacidades defensivas com “países independentes”, citando as “experiências que levaram à derrota dos Estados Unidos” no conflito iniciado em fevereiro e que se encontra em pausa, em meio a negociações inconclusivas e a um bloqueio naval do Estreito de Ormuz. A declaração foi feita durante reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), um grupo que reúne alguns conhecidos aliados de Teerã, como China e Rússia.
— Os Estados Unidos não conseguem mais impor suas políticas a países independentes, e isso ficou evidente para o mundo inteiro por meio da resiliência do povo iraniano e de suas Forças Armadas — disse Reza Talaei-Nik, vice-ministro de Defesa do Irã, durante reunião da SCO em Bishkek, no Quirguistão, citado pela agência estatal Irna.
Plano à mesa: Irã oferece reabertura do Estreito de Ormuz em tratativa com os EUA, mas exclui programa nuclear de discussão
Após revisão: Irã diz que bombardeio em escola do país deixou 155 mortos, sendo 120 crianças
O Irã não figura entre os principais vendedores de armas do planeta — em 2025, o país respondia por 0,3% do total de exportações militares, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) —, mas vinha incrementando sua produção nos anos que antecederam a guerra lançada por EUA e Israel. E um dos itens do portfólio de Teerã ganhou notoriedade no passado recente: os drones de ataque Shahed, usados à exaustão pela Rússia na guerra lançada em 2022 contra a Ucrânia. De acordo com o Sipri, 73% das exportações militares iranianas vão para clientes russos.
Mas Reza Talaei-Nik não queria falar apenas de negócios com seus parceiros na SCO reunidos em Bishkek. Ali, o vice-ministro buscava transmitir a narrativa iraniana do que vê como sucesso na contenção da maior potência militar do planeta. Ao longo de dois meses, o país manteve boa parte de suas capacidades defensivas e de ataque, e é capaz de manter um dos maiores bloqueios navais da História recente, no Estreito de Ormuz — uma estratégia baseada em armas mais simples e baratas, como os drones, minas navais e barcos rápidos.
— Estamos prontos para compartilhar as experiências que levaram à derrota dos Estados Unidos com outros membros da organização— declarou o iraniano.
Aos homólogos no Quirguistão, o vice-ministro não mencionou a extensão dos estragos da guerra, cuja reconstrução custará centenas de bilhões de dólares, tampouco as mortes de integrantes da cúpula do regime, como o líder supremo, Ali Khamenei.
Sem objetivos claros: Chanceler da Alemanha diz que EUA estão sendo 'humilhados' pelo Irã e critica falta de estratégia na guerra
Formada por nove países — Irã, China, Rússia, Índia, Paquistão, Quirguistão, Cazaquistão, Tajiquistão e Uzbequistão — a Organização de Cooperação de Xangai foi a mais recente parada da blitz diplomática iraniana, lançada em paralelo às negociações até agora infrutíferas com os EUA, pediadas pelos paquistaneses. Em Bishkek, Talaei-Nik se encontrou com o ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, e esteve recentemente na Bielorrússia para discussões focadas na “situação no Oriente Médio”.
Na segunda-feira, Abbas Araghchi, chanceler iraniano que também está em meio a um “tour diplomático”, se reuniu com o presidente russo, Vladimir Putin, e dele ouviu que Moscou fará “tudo a seu alcance” para ajudar o Irã. Em editorial também na segunda-feira, o jornal iraniano Shargh, reformista, considerou que a sequência de viagens demonstra “sinais claros de um impasse nas negociações com Washington”.
De acordo com veículos de imprensa americanos, Teerã fez, no fim de semana, uma nova proposta de acordo para encerrar a guerra, centrada na reabertura do Estreito de Ormuz, mas deixando para um segundo momento o status do programa nuclear do país, acusado de ter fins militares (os iranianos negam). Mas o presidente Donald Trump, afirmou o New York Times, não ficou satisfeito com o plano, apontando que retirar da mesa a pressão sobre as atividades atômicas faria com que os EUA perdessem poder de barganha. Trump exige garantias de que o Irã jamais terá uma bomba nuclear.
Abbas Araghchi: Quem é o chanceler iraniano que simboliza a posição desafiante do Irã na guerra com EUA e Israel
Nesta terça-feira, Trump disse em sua rede social, o Truth Social, que Teerã “acabou de nos informar que está em um ‘Estado de Colapso’”.
“Eles querem que ‘Abramos o Estreito de Ormuz’ o mais rápido possível, enquanto tentam resolver sua situação de liderança (o que acredito que conseguirão fazer)”, completou o presidente, sem explicar o que significa, na prática, o “estado de colapso", ou qual autoridade iraniana teria lhe comunicado tal situação.
Na semana passada, quando anunciou a extensão do cessar-fogo por tempo indeterminado, o presidente americano sugeriu a existência de fissuras no regime — algo que analistas apontam há algum tempo — e disse esperar uma proposta unificada de Teerã. Desde então, autoridades militares e civis vieram a público declarar que a República Islâmica segue concisa e sem disputas internas.
