Em 'Recapitulações', Maria Valéria Rezende dialoga com obra de autores como Machado, Kafka e José Saramago

 

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No universo das escolas de samba, é comum que parte da alegoria de uma agremiação seja reaproveitada por outra no carnaval seguinte. Neste ano, a carnavalesca Annik Salmon transformou a representação do rosto de Exu de uma alegoria da Imperatriz Leopoldinense do ano passado no semblante do palhaço Xamego, enredo do Arranco do Engenho de Dentro em 2026.

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O processo de criação da alegoria, a partir de uma estrutura já existente e com um resultado bastante diferente do original, dialoga com o do livro “Recapitulações”, de Maria Valéria Rezende. São 12 contos escritos, como sugere o próprio título, com base em romances, outros contos e poemas em geral já conhecidos por leitoras e leitores. A autora oferece uma agradável possibilidade de retorno a esses textos, como se estivéssemos transitando pelas estantes de uma biblioteca, folheando as páginas dos livros selecionados e relembrando cada história que as narrativas evocam.

Como acontece no carnaval, porém, os enredos mudam. E aí entra a novidade: a perspectiva é outra, e essas histórias são contadas por pontos de vista muitas vezes surpreendentes. Não à toa, o título comporta a palavra “Capitu”, personagem machadiana que, agora em carta à amiga Sancha, volta ao enredo de Dom Casmurro no conto “Recapitulação” para trazer atualizações sobre sua vida. A palavra dentro de outra palavra (“Capitu” em “Recapitulações”) é também um indicativo do tom metalinguístico da obra, que rememora a própria literatura.

A quadrilha de Drummond (referência ao poema “Quadrilha”), na releitura bem-humorada de Maria Valéria, é dançada de outra maneira, pois recupera os mesmos personagens, ainda que estes já não sejam exatamente os mesmos: o conto “Requadrilha” apresenta uma conversa entre Maria e João, que se encontram de repente na Praça da Liberdade, e a sensação é a de que estamos sentados ao lado deles, ouvindo o que dizem duas pessoas que não se veem há bastante tempo.

Assim descobrimos, por exemplo, que o convento de Teresa não passa de um termo com outra acepção e que J. Pinto Fernandes faz, sim, parte daquela história toda.

Objetos sagrados

Além da visita ao romance “Dom Casmurro” e ao poema “Quadrilha”, Recapitulações recorda “A metamorfose”, de Kafka, “O homem duplicado”, de José Saramago, o “Fogo morto”, de José Lins do Rego, o episódio bíblico de Sansão, o ficcionista paraibano Geraldo Maciel, “As babas do diabo”, de Julio Cortázar, “O colar”, de Guy de Maupassant, a rua torta do poema de Cassiano Ricardo e novamente Machado de Assis, seja o autor como personagem — em conto que dialoga com seu “A causa secreta” — , seja sua obra completa disposta na estante.

No segundo conto, “Um humilde bibliotecário”, cujo protagonista se encontra atormentado pela disposição dos livros machadianos em uma estante que parecia estar com as medidas diferentes das demais, o personagem declara seu imenso respeito pelos livros (“objetos para mim sagrados”).

“Recapitulações” é um culto a esses objetos sagrados que possibilitam assumir tanto outro olhar quanto o olhar do outro, de modo a fazer pensar na alteridade ou nos desdobramentos que uma história antes finalizada pode ganhar. Como se retirasse o ponto final dessas narrativas, Maria Valéria enaltece as reticências e resgata a tradição oral, parecendo nos contar algo que permaneceria desconhecido.

Em “Eu, dois eu, três eu?”, o homem duplicado — agora triplicado — demonstra grande inquietação por se ver em outros papéis e, ainda confuso, enquanto tenta entender o ocorrido, “refaz a história toda” e mentalmente recupera cenas atrás de uma justificativa. Até que surge a revelação: “Com imenso pasmo, vê-se ali descrito em detalhes, descobre que ele e seu duplo, ou triplo, não são mais do que inverossímeis personagens de um escritor, pura ficção que, no entanto, vivem e sofrem tudo o que esse senhor lhes queira infligir!”

Os demais personagens do livro podem estar diante da mesma sensação, e talvez esta seja a coesão da obra: transformados, inauguram outra identidade e se indagam: “Será isso?” A pergunta intitula o primeiro conto, em que Gregor Samsa, protagonista de “A metamorfose”, se depara com uma realidade diferente, narrada com uma leveza que alia perspicácia e diversão. Ao recuperar personagens já conhecidos e lhes imprimir nova roupagem, Maria Valéria mostra domínio da ficção ao mesmo tempo que a reverencia.

* Thaís Velloso é escritora, professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ