Em recados a Trump, Brasil e Rússia divulgam comunicado com críticas a sanções unilaterais

 

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A defesa do fortalecimento do papel dos bancos centrais, a crítica ao uso de sanções unilaterais e a cobrança por reformas na governança financeira internacional estiveram no centro do comunicado conjunto divulgado ao fim da VIII Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação (CAN), realizada nesta quinta-feira, em Brasília. A reunião foi copresidida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin.

O documento foi divulgado em meio ao declarado desconforto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com os movimentos de nações emergentes, como as do Brics, para reduzir a dependência do dólar nas transações comerciais dentro do bloco. Brasil e Rússia destacaram o “elevado nível de relações entre os bancos centrais dos dois países” e manifestaram apoio ao aprofundamento do diálogo sobre temas da agenda financeira, especialmente no âmbito do Brics. As partes ressaltaram a importância da “troca de experiências e do compartilhamento de informações na área de instrumentos de pagamento contemporâneos”, sinalizando interesse em avançar em alternativas no sistema financeiro internacional.

Outro ponto de destaque foi a rejeição explícita ao uso de sanções unilaterais. As partes reiteraram sua oposição a “medidas coercitivas unilaterais, particularmente contra países em desenvolvimento”, classificando-as como “ilícitas, ilegítimas e incompatíveis com o direito internacional e com a Carta das Nações Unidas”.

Sem mencionar exemplos específicos, como Venezuela, Cuba, Irã e a própria Rússia — alvos de sanções unilaterais, impostas sobretudo pelos EUA e, em alguns casos, pela União Europeia -- , o comunicado afirma que essas ações violam direitos humanos, prejudicam o desenvolvimento sustentável e representam “grave afronta à independência e à soberania dos Estados”.

A declaração também registrou a criação, em 2025, do Diálogo Econômico e Financeiro entre o Ministério da Fazenda do Brasil e o Ministério das Finanças da Rússia, mecanismo voltado à coordenação da cooperação financeira e econômica bilateral. Segundo o texto, a iniciativa tem como objetivo fortalecer a previsibilidade e a coordenação em temas macroeconômicos e financeiros.

No plano multilateral, o documento trouxe uma posição contundente em favor da reforma da arquitetura financeira internacional. Em referência a organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, Brasil e Rússia afirmaram que “as instituições de Bretton Woods devem ser reformadas com urgência para torná-las mais representativas, ágeis, eficazes, críveis e inclusivas”, de forma a refletir o peso crescente das economias emergentes na economia global. O texto acrescenta que os bancos multilaterais de desenvolvimento precisam “modernizar seus instrumentos e ampliar sua capacidade financeira”, inclusive por meio da mobilização de capital privado, sem comprometer seu status de credor preferencial.

Sem citar a guerra na Ucrânia — invadida pela Rússia em 2022 —, a declaração aborda o tema da paz. “Ao reafirmarem a centralidade dos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, reiteraram o compromisso dos dois países com a manutenção da paz e da segurança internacionais e com a solução pacífica de controvérsias”, afirma o texto.

As partes coincidiram em que é oportuno e adequado que um nacional de um Estado da América Latina e do Caribe ocupe o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Nesse sentido, a Rússia tomou nota do anúncio da candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, indicada conjuntamente por Brasil, Chile e México.

Brasil e Rússia também reafirmaram o papel central do G20 como principal fórum de cooperação econômica internacional e manifestaram preocupação com tentativas de restringir a participação de países em desenvolvimento. O comunicado registra “preocupação diante da tentativa de impedir a participação da África do Sul no G20 em 2026” e defende o restabelecimento pleno da atuação do país, ressaltando que o grupo deve operar com base na governança coletiva, no consenso e na representatividade.

No âmbito das Nações Unidas, o texto reforça a defesa do multilateralismo e do fortalecimento do papel da ONU, além de reiterar a necessidade de avançar na reforma do Conselho de Segurança. O documento afirma ser “imperativo conferir ao Conselho caráter mais representativo”, com a inclusão de países em desenvolvimento da América Latina, da Ásia e da África. A Rússia reiterou, nesse contexto, seu apoio ao Brasil como “forte e natural candidato a membro permanente” de um Conselho reformado.

Mais cedo, em seu discurso de abertura do evento, Geraldo Alckmin defendeu uma parceria estratégica entre os dois países e pediu mais comércio e investimentos bilaterais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de um almoço no Itamaraty com Alckmin, o primeiro-ministro russo e seis ministros do país do Leste Europeu.