Em pronunciamento, Trump fala em 'vitórias' no Irã, diz que objetivos 'estão perto de serem atingidos' e recicla argumentos
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na noite desta quarta-feira que suas Forças Armadas obtiveram no Irã “vitórias rápidas, decisivas e esmagadoras no campo de batalha". Este foi o primeiro pronunciamento do presidente na TV desde o início da guerra, no dia 28 de fevereiro, no momento em que a Casa Branca alterna ameaças de "obliteração" com mensagens positivas sobre negociações. Quem esperava novidades se decepcionou: o republicano reciclou argumentos, voltou disse que a guerra deve durar "entre duas e três semanas" e que os objetivos estão "perto de serem completados", sem explicar quais são .
— Nossas Forças Armadas obtiveram vitórias rápidas, decisivas e esmagadoras no campo de batalha [...] Nunca na história da guerra um inimigo sofreu perdas tão claras e devastadoras em larga escala em questão de semanas — disse o presidente, afirmando que seus objetivos no conflito "estão perto de serem atingidos".
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O republicano repetiu seu argumento de que o Irã "está obliterado", mesmo diante dos ataques incessantes contra Israel e as monarquias do Golfo, e que houve de fato uma mudança de regime em Teerã. O presidente fez essa alegação anteriormente, apesar das estruturas da República Islâmica seguirem em funcionamento, e das lideranças atuais seguirem os mesmos preceitos da Revolução Islâmica de 1979. Ele afirmou que vai manter os ataques “com extrema força pelas próximas duas ou três semanas" e que fará o país "voltar à Idade da Pedra, onde é o lugar deles”.
Trump disse que sua opção sempre foi pela diplomacia, apesar de ordenar o bombardeio, em junho do ano passado, de instalações nucleares iranianas, e de lançar a "Operação Fúria Épica" em meio a negociações que se encaminhavam para um desfecho positivo a Washington. O presidente garantiu que as centrais de enriquecimento e armazenamento foram "obliteradas", mas informações de inteligência apontam que as atividades foram mantidas, embora em escala menor. Estima-se que o país tenha 400 kg de urânio enriquecido.
— Desde o início da minha campanha presidencial em 2015, eu disse que jamais permitiria que o Irã tivesse uma arma nuclear. Este regime vem entoando "Morte à América, morte a Israel" [...] O Irã correu atrás de armas nucleares como nunca se viu antes — declarou, aparentemente ignorando os esforços dos nove países com armas nucleares, incluindo os EUA, para construírem seus arsenais.
O presidente reciclou mais alguns argumentos, citando as alegações de que o Irã é "o maior patrocinador do terrorismo" no Oriente Médio e que massacrou a própria população durante os protestos no começo do ano, citando 45 mil mortos — anteriormente, falava em cerca de 35 mil mortos. Ele chamou o acordo nuclear firmado em 2015, que estabeleceu limites às atividades de enriquecimento de urânio do Irã e que foi rasgado em seu primeiro mandato, de "o pior possível", e celebrou a morte, em 2020, do general Qassem Soleimani, chefe da Força Quds.
— Para esses terroristas, ter armas nucleares seria uma ameaça intolerável — disse ele. — O regime mais violento e truculento da Terra estaria livre para levar adiante suas campanhas de terror, coerção, conquista e assassinato em massa por trás de um escudo nuclear.
Trump destinou críticas indiretas aos seus aliados da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, e aos países da região, que relutam em se juntarem à guerra e a uma força-tarefa naval para reabrir o Estreito de Ormuz, fechado desde o começo de março.
— Não precisamos estar lá. Não precisamos do petróleo deles. Não precisamos de nada que eles tenham, mas estamos lá para ajudar nossos aliados — declarou o presidente. — Seremos úteis, mas eles deveriam assumir a liderança na proteção do petróleo do qual tanto dependem.
Mais cedo, Trump ameaçou deixar a Otan, diante da recusa dos demais membros em se juntarem à guerra contra o Irã e a uma força-tarefa naval para desbloquear Ormuz. Nesta quarta-feira, ele chamou a organização de "tigre de papel", e seu secretário de Estado, Marco Rubio, dissera na véspera que a relação com a aliança seria reavaliada após o fim do conflito. Mas o ser ouvido pela rede CNN, um diplomata europeu citou as ameaças anteriores do republicano, mencionando o filme "Feitiço do Tempo", quando o personagem de Bill Murray vive o mesmo dia indefinidamente.
Ao final do pronunciamento, em uma aparente tentativa de aumentar o apoio à guerra no país — 61% dos americanos são contra a operação — citou a extensão de alguns conflitos no passado, como as duas Guerras Mundiais e a Guerra da Coreia, fazendo (ou tentando) um paralelo com o presente.
— Estamos nesta operação militar tão poderosa, tão brilhante, contra um dos países mais poderosos há 32 dias, e o país foi devastado e, essencialmente, não representa mais uma ameaça. Este é um verdadeiro investimento no futuro de seus filhos e netos — declarou o presidente.
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Uma marca da “Operação Fúria Épica” é a confusão sobre o que exatamente quer Donald Trump com uma guerra que incendiou o Oriente Médio e envolveu direta e indiretamente todo o mundo.
Em público, Trump insiste que há negociações em curso com os iranianos, e chegou a dizer que “a nova presidência do regime” havia pedido um cessar-fogo, sem dizer exatamente a quem se referia, condicionando o fim dos bombardeios à reabertura do Estreito de Ormuz, fechado desde o começo do mês passado — hoje, há cerca de 400 navios aguardando para fazer a travessia. O Irã nega que haja conversas diretas e diz que não fez qualquer comunicação sobre a suspensão dos combates. Segundo fontes ouvidas pela rede CNN, o vice-presidente, JD Vance, relatou aos países que servem como intermediários entre Teerã e Washington que Trump está “impaciente” por um acordo .
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Em uma carta ao povo americano, publicada nesta quarta-feira, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, perguntou se os seus interesses estavam sendo atendidos com a ofensiva de Trump, citando os ataques a hospitais, escolas e infraestruturas vitais e as ameaças do presidente dos EUA.
“Além de constituírem um crime de guerra, tais ações acarretam consequências que se estendem muito além das fronteiras do Irã”, afirmou Pezeshkian. “Elas geram instabilidade, aumentam os custos humanos e econômicos e perpetuam ciclos de tensão, semeando ressentimentos que perdurarão por anos. Isso não é uma demonstração de força; é um sinal de perplexidade estratégica e de incapacidade de alcançar uma solução sustentável.”
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Na terça-feira, a China, maior compradora de petróleo do Golfo Pérsico, e o Paquistão, principal mediador entre os beligerantes, lançaram uma proposta de cessar-fogo de cinco pontos, a começar pela suspensão imediata das hostilidades e medidas para que o conflito não se espalhe ainda mais. Além do Golfo, Israel abriu uma frente de batalha no Líbano, centrada no grupo Hezbollah, mas que se encaminha para uma ocupação de parte do território do país árabe.
A proposta estabelece o início de negociações de paz assim que possível, focadas na “soberania, integridade territorial, independência nacional e segurança” do Irã e dos países da região; a proteção a alvos não militares; a garantia de segurança às vias de transporte naval, especialmente o Estreito de Ormuz;. e a primazia da Carta das Nações Unidas.
