Em praça histórica e marcada por protestos em Seul, fãs do BTS celebram retorno do grupo
Durante meses de protestos de inverno em apoio à democracia sul-coreana, a professora Lee Ji-young segurava seu bastão luminoso — um pequeno, mas significativo sinal de seu amor pelos astros do K-pop, BTS.
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Agora, a maior boy band do mundo está pronta para um show de retorno neste sábado, após um hiato de quase quatro anos para que o septeto cumprisse o serviço militar e enquanto a nação passava por momentos traumáticos.
A professora sul-coreana Lee Ji-young, fã do grupo de K-pop BTS, posando com seu lightstick do BTS, o 'Army Bomb'.
JUNG YEON-JE / AFP
"Parece que eles voltaram para reivindicar o lugar que lhes é de direito", disse Sung Young-rok, 45, fã do BTS e artista tradicional coreano, antes do show ao ar livre que deve atrair 260 mil pessoas a Seul.
No final de 2024, em uma nação rica onde a democracia era considerada bem estabelecida, o então presidente Yoon Suk Yeol chocou o mundo ao tentar declarar lei marcial, enviando tropas e helicópteros ao parlamento. Sua tentativa fracassou. Agora, Yoon está na prisão, mas por algumas horas tensas, a situação ficou incerta.
Dia após dia, noite após noite, centenas de milhares de sul-coreanos enfrentaram o frio cortante para protestar contra a decisão. Assim como seus companheiros de protesto, Lee — que pesquisou o impacto social do BTS — raramente largava seu bastão luminoso, símbolo de sua participação na fiel base de fãs do BTS, conhecida como ARMY.
Aos 55 anos, ela relembrou como as luzes brilhavam enquanto as pessoas marchavam à noite, cantando para manter o ânimo e se aquecer no frio intenso. "Segurá-lo me dava uma sensação de proteção. Lembro-me de sentir que, se algo perigoso acontecesse, (outros membros do ARMY) veriam o bastão luminoso e viriam me ajudar", disse ela. "E quando você o acende à noite, é simplesmente lindo. De muitas maneiras, parecia uma luz que nos representava — algo bonito e forte, uma luz que nos lembra que não estamos sozinhos", acrescentou.
Localização simbólica
Os protestos ocorreram nas ruas ao redor do histórico Palácio Gyeongbokgung, no centro de Seul, e não é coincidência que este seja o cenário do show do BTS. O monumento mais famoso da Coreia do Sul, construído em 1395, resistiu a séculos de destruição e restauração. Testemunhou centenas de anos de história, desde a queda da dinastia Joseon até as brutais décadas do domínio colonial japonês.
Visitantes vestindo trajes tradicionais hanbok tirando uma selfie em frente ao Portão Gwanghwamun, o portão principal do Palácio Gyeongbokgung, em Seul.
JUNG YEON-JE / AFP
Nos últimos anos, foi palco de protestos em massa. A área é um "local que serviu como uma praça pública nacional, onde ocorreram protestos massivos, e realizar um show ali é uma tentativa de se conectar diretamente com a consciência nacional", disse Keung Yoon Bae, professor de estudos coreanos do Instituto de Tecnologia da Geórgia, à AFP.
O título do novo álbum do BTS, com lançamento previsto para sexta-feira, segue a mesma linha. O nome vem de "Arirang", uma amada canção folclórica coreana sobre saudade e separação, frequentemente descrita como um hino nacional não oficial em tempos de guerra, divisão e deslocamento.
Pôster promocional do novo álbum do BTS, 'Arirang'
Reprodução / Redes Sociais
Loukia Kyratzoglou, 48, fã do BTS e natural da Grécia, disse que o conceito ressoa com ela. "Anos de conflito e mudanças socioeconômicas levaram à migração de milhares de gregos que deixaram o país em busca de um futuro melhor para suas famílias", disse ela à AFP. "Assim como um migrante que anseia por se reunir com seus entes queridos e caminhar novamente sobre o solo sagrado de sua terra natal, o BTS está retornando às suas raízes após anos de separação. E o ARMY está aqui para recebê-los de volta."
Dor social
Tem sido, sem dúvida, um período difícil para os membros do BTS em seus aproximadamente 18 meses de serviço militar. Quatro integrantes serviram perto da fronteira intercoreana fortemente fortificada, que separa milhares de famílias desde o armistício da Guerra da Coreia em 1953 e é conhecida por seus arames farpados, invernos rigorosos e treinamento exaustivo. O membro Jimin dormiu dentro de um veículo de artilharia autopropulsada.
O BTS geralmente se mantém afastado da política — inclusive durante os protestos contra Yoon — mas não se esquiva de questões sociais. Eles falaram abertamente sobre saúde mental e racismo, que vivenciaram pessoalmente, e doaram US$ 1 milhão para o movimento Black Lives Matter em 2019, inspirando os fãs a igualar a quantia. Suas letras abordam temas como fama, solidão e depressão, além de insegurança.
Os fãs responderam com ativismo próprio, incluindo projetos de apoio a adotados coreanos que buscam se reconectar com suas famílias biológicas, um processo frequentemente doloroso e complexo do ponto de vista legal.
"Neste clima político tão complexo, tenho orgulho de que, desde o primeiro dia, eles tenham dado todo o crédito aos artistas negros de hip hop que os inspiraram. E que eles não tenham apagado sua herança coreana, que tenham se manifestado sobre o ódio contra asiáticos durante a pandemia", disse à AFP Malene Vestergaard, adotada de origem coreana e fã do BTS na Dinamarca.
Um homem passa por um caminhão que anuncia o show de retorno do grupo de K-pop BTS em Seul.
JUNG YEON-JE / AFP
